NOSSOS MORTOS, UMA PRESENÇA

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Comunhão dos Santos

Numa sexta, à noitinha, o pai foi surpreendido pela mais triste das notícias: seu filho de 18 anos acabara de falecer, vítima de acidente automobilístico. Além da dor, a revolta contra Deus: o filho viajava para auxiliar seu grupo jovem num retiro espiritual. É assim que Deus acompanha os que por ele trabalham?

Passado o primeiro luto, a angústia das primeiras dores, sobrava o sentimento da solidão: Felipe era filho único e os espaços que ocupava na vida familiar, na casa, estavam vazios. Uma nuvem obscura substituía sua presença luminosa de jovem, de jovem bom.

O pai buscou socorro e o encontrou onde menos aceitaria naquelas horas: na vida de fé. Durante a celebração da Missa ele escutou o padre rezar: “Lembrai-vos dos nossos irmãos e irmãs que morreram na esperança da ressurreição e de todos os que partiram desta vida: acolhei-os junto as vós na luz de vossa face”. Surgia um ponto luminoso no coração de pai mergulhado na penumbra: seu filho acreditava em Deus, esperava na ressurreição, então foi acolhido na luz da face divina. Refletiu um pouco mais: “meu filho está diante da face de Deus; na celebração da Eucaristia estamos todos mergulhados na glória da Trindade divina; junto de Deus estão todos os que são dele; meu filho está junto de Deus”.

E fez-se a luz: “meu filho está aqui, como em cada celebração eucarística, pois nela se reúne toda a família divina. Aqui sempre posso me encontrar com Filipe”.

Daquele dia em diante, mudou a vida do pai: participava da Missa todos os dias e todos os dias se encontrava com seu filho. Um encontro profundo, delicado, na glória do amor de Deus. A presença de Filipe era tão clara como a presença de Cristo: o encontro era mais profundo do que o encontro físico, porque na realidade da comunhão dos santos.

Onde Deus está também estão todos os que são de Deus. Não é possível a solidão, porque não é real a separação: misteriosamente Deus nos une com os nossos, com todos os nossos. Santa Mônica, mãe do grande Santo Agostinho, entendeu o valor da Missa quando pediu, ao morrer: ‘Ponde este corpo em qualquer lugar. Não vos preocupeis com ele. Só vos peço que vos lembreis de mim no altar de Deus, onde quer que estiverdes’”(Confissões, L. 9, 11).

Pelo mesmo motivo, a Missa é uma celebração de cura e libertação, tanto nossa como dos nossos. Nela, a comunidade cura as feridas dos que morreram e foram esquecidos. E como são numerosos, hoje, os esquecidos: os enterrados como indigentes, os destroçados pela guerra, pela violência, os aniquilados pelas drogas. Tantos que morrem chagados, doentes, sem ter quem lhes trate as feridas. E nós podemos tratá-las durante a celebração da Missa. Podemos curar as chagas de nossos relacionamentos mal sucedidos com aqueles que morreram enquanto não os amávamos, talvez nossos pais, cônjuges, irmãos, parentes, porque presentes e essas mágoas têm cura na Eucaristia. Os mortos pelo aborto, cujos anjos contemplam a face do Pai que está nos céus, querem curar a dor e o remorso dos que o praticaram: a Missa cura e liberta, porque nos encontramos todos e podemos estabelecer um ininterrupto diálogo de reconciliação.

Às vezes sofremos dores que médico nenhum diagnostica: são dores dos pecados, dores de pessoas que morreram e delas nos esquecemos. As presenças, deles e nossas, na Eucaristia, podem curar esses sofrimentos que nos tiram a paz.

A Missa é a grande medicina dos filhos de Deus. A Igreja põe diante de nós esse grande tesouro da oração pelos mortos, da reconciliação com os mortos, do reencontro feliz com nossos amigos. É para nós ocasião de ação de graças e, para os mortos, força no caminho da ressurreição.

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