«CREIO NA COMUNHÃO DOS SANTOS»

Todos os Santos

Todos os Santos

Nós cremos na oração em favor dos vivos e dos mortos, porque Cristo, o único mediador, está no meio de todos e leva ao Pai nossas preces. O amor de Deus não permanece insensível às súplicas de seus filhos, e também se sensibiliza se algum de seus filhos opta pelo caminho da perdição.

Martin Heidegger, filósofo alemão, afirmou que “a morte é a plenitude da vida”: como cristãos podemos deduzir que é o momento em que abrimos nossas mãos diante de Deus e lhe apresentamos tudo o que fizemos com o dom de nossa vida. Quem sabe, naquele momento, muito pouco de bom teremos a mostrar mas, esse é o milagre, podemos mostrar ao Senhor as orações que se fizeram ou farão por nós. E o coração divino se enternecerá diante de tantos que por nós rezam ou rezarão: ele, eterno presente, tudo conhece.

É da necessidade de um coração cristão rezar pelos que morrem e pelos quais ninguém chora, reza, pelos que são sepultados como “indigentes”, como necessitados, dos quais ninguém tem necessidade. Rezar por aqueles aos quais tantos “mandam” para o inferno!

“Saber amar aqueles que se perderam e amá-los mesmo na sua perdição”, ensinava o humilde mendigo romano, São Bento Labre. Também os que porventura estão no inferno são amados por Deus e devem ser amados por nós. Até podemos crer que antes do Juízo final eles serão tocados pelo amor e reavaliarão sua opção de uma eternidade sem Deus. O amor tudo quer e tudo pode!

Se estamos sofrendo, ofertemos as dores: todas as dores que não libertam são dores perdidas. Por que desperdiçá-las? Cada vez que resgatamos um pecado, tornamos o mundo melhor. Esse resgate é a retribuição que podemos apresentar aos milhões de inocentes sofredores que remendam continuamente o tecido do mundo rasgado pelo pecado. O sofrimento do inocente clama ao céu por justiça e pela redenção dos injustos.

O inferno – anjos e homens sem rosto

O inferno é a consciência trágica da não-comunhão, a consciência de enfermidade do próprio eu. É fruto de uma escolha, na vida terrena, de viver sem comunhão. O homem foi feito para a comunhão com Deus, com os outros e, ao mesmo tempo, sua vontade de estar curvado sobre si mesmo priva-o dessa comunhão. É, para o condenado, desespero em estado puro saber que continua sendo uma pessoa e escolhendo um modo de vida radicalmente contrário.

São Macário (século IV) afirma que um condenado lhe contou que seu suplício no inferno era não poder ver a face do outro; eles estão ali, lado a lado, até de mãos dadas, mas não se podem ver. De tempo em tempo, graças às orações dos cristãos, um pode ligeiramente ver a face do outro e o sofrimento é diminuído. Estamos doentes quando uma agressão nos suprimiu a capacidade de nos comunicar, a comunhão. O pecado é a tentativa de preencher essa solidão existencial.

É o rosto que caracteriza os seres que só podem viver se em comunhão: Deus, os anjos, os seres humanos. O demônio não tem mais rosto e, por isso, procura suprimir o rosto dos outros (Bertrand Vergely, filósofo e teólogo ortodoxo francês, nascido em 1953). Cair em tentação é ceder o próprio rosto ao demônio e entrar em desespero, tentando roubar o rosto do próximo, provocando violência avassaladora. O pecador vive essa realidade infernal, mas dela pode se libertar tanto por abertura à graça quanto pela prece dos fiéis.

O céu – Deus, anjos e homens em comunhão

“A fé cristã não é um sistema de doutrinas, mas o modo de reabilitar o homem decaído, em virtude da crucifixão do Homem-Deus e com a graça do Espírito Santo” (Teófano o Recluso, Cartas I, 135). A fé cristã nos tira da solidão em que o pecado nos mergulha e, através do Filho que assumiu a natureza humana, recupera a felicidade da comunhão e, nela, a verdadeira oração leva a uma intensificação do amor pelo próximo. E o amor pelo próximo leva a uma intensificação da oração.

“A maior graça que temos é saber que os outros existem!” (Simone Weil, 1909-1943). Não há maior felicidade para um ser redimido do que saber que há outras pessoas diante dele, pois “o maior dom que podemos receber é o outro”. A jovem convertida francesa, mística cristã sem nunca pedir o batismo, conclui que é o outro que nos possibilita dar sentido à vida através da ação e da contemplação: agir pelo Outro/outro, contemplar o Outro/outro, isto é, Deus e o homem.

Se no pecado cedemos nosso rosto para o demônio e o roubamos do outro, na vida celeste da graça o rosto é transfigurado e procurado, porque refletido sempre na Luz do rosto divino.

O céu é a comunhão com Deus. À imagem da Trindade, um Deus em três Pessoas, somos/seremos um com Deus, dele inseparáveis na comunhão eterna: nossa existência individual não subsistirá e sim, nossa pessoa, que é sempre comunhão. A melhor imagem do Céu é a Liturgia: a comunhão de todos na Trindade ao redor da mesa que se faz altar. Felizes nós, os convidados para a Ceia do Senhor!: naquele dia, que será dia para sempre, não seremos mais convidados, mas comensais. E queremos, de coração, que toda a família humana esteja reunida na comunhão eterna.

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