BENTO XVI – «A FÉ E A RAZÃO»

Quando os nervos estão à flor da pele, qualquer palavra serve de gatilho e dispara a bala. Foi assim com as palavras do Papa Bento XVI na Universidade de Regensburg (12-09). O tema tratava de um assunto necessário e atual: a relação entre fé e razão. Quando se tira a razão da fé, cai-se na violência, pois torna-se incapaz de compreender a razão do outro. Sempre que se tira uma afirmação de seu contexto se age ou por má fé ou por maldade mesmo. Foi o que aconteceu nestes dias com as explosões anti-papais por multidões manipuladas por líderes violentos, que aproveitaram da ocasião para destilar todo o veneno anti-ocidental, misturando Bento XVI com Bush e o império americano com o cristianismo. Alguns católicos acharam que o Papa não devia ter mexido com isso, como se o Papa fosse um adolescente improvisando afirmações.

Bento XVI buscou um exemplo no século XV, numa citação do imperador bizantino Manuel II Paleólogo (1350-1425), que acabara de sair de uma prisão muçulmana. A declaração do imperador de que a religião de Maomé na sua difusão estava ligada à violência foi até profética: menos de 30 anos após sua morte, em 1453 a cidade de Constantinopla caía nas mãos dos turcos muçulmanos, as igrejas cristãs foram transformadas em mesquitas e a cidade mudou o nome para Istambul.

O Papa poderia ter citado exemplos da própria Igreja nos tempos da Inquisição, do fanatismo de hindus perseguindo católicos e suas obras na Índia, mas citou um exemplo atual: a dificuldade que o Ocidente tem de compreender o complexo mundo muçulmano e a dificuldade que o mundo muçulmano tem de compreender o liberal Ocidente. Bento XVI, teólogo e filósofo refinado, com muitos anos de estrada no diálogo religioso e ecumênico, não foi ingênuo: foi sábio. Contrapôs a Fé-Razão à Fé-Violência. Pouco antes tinha afirmado a impossibilidade de se usar Deus para matar, coagir, perseguir. Ou se crê no Deus da paz e da fraternidade ou se está crendo num ídolo e mergulhando no fanatismo.

O Papa pediu desculpas por ter sido mal interpretado. Evidente que não poderia pedir desculpas pelo que não fez: ofender o profeta Maomé. Homem espiritual, o Papa não alimenta ódio pela diferença religiosa, mas respeito pela consciência de cada um e exigindo que também se respeite a consciência dele.

Respeito não quer dizer aceitação. Um cristão não admite que Deus ditou o Alcorão a Maomé e que ele é o único profeta. Do mesmo modo, um muçulmano não admite que Deus enviou seu Filho Jesus Cristo ao mundo; diz que “o que afirma que Deus tem um Filho deve ser destruído e sepultado no inferno”. Um cristão aceita que um muçulmano pode tornar-se cristão e vice-versa; já o muçulmano afirma que se alguém deixa o Islã,deve ser morto. Nós afirmamos que a pessoa nasce à imagem e semelhança de Deus e que no decorrer da existência forma sua consciência religiosa; para os seguidores de Maomé, toda pessoa nasce muçulmana e, se não o é mais, é por culpa. O islamismo é totalizante: a apostasia da fé destrói a união da família, da comunidade e da nação. No campo religioso, portanto, subtraindo o comum monoteísmo, não há diálogo possível, a não ser o diálogo do respeito, do trabalho pela paz e pela justiça.

Nós, ocidentais, distinguimos entre a esfera política e a religiosa: um país de maioria cristã não pode impor a fé cristã; para os muçulmanos, o Estado tem que ser religioso e governado pelo Alcorão e pela Sharia (código penal muçulmano).

E então? Não há saída possível? Evidente que sim! Mesmo que estejamos convencidos de que a religião pode dividir, que muitos fundamentalistas suprimam o uso da razão na vivência religiosa, há algo de muito profundo que nos une: somos humanos. Apesar de todas as diferenças, e enriquecidos por elas, pertencemos à família humana, à família de um único Deus. “O mundo, nas palavras do Patriarca de Antioquia Inácio IV, nada mais é do que o banquete ao qual Deus convida todos os seus filhos, sem nenhuma exclusão […] e nós somos chamados a enxugar as lágrimas de todos aqueles que choram”.

Anúncios

, , ,

%d blogueiros gostam disto: