A IGREJA E A MISSÃO DA CRUZ – ANÚNCIO DA BELEZA

Crucifixão

Crucifixão

A crise do Cristianismo está apenas começando. Vivemos ainda numa espécie de ilusão cultural em que a fé se confunde com religiosidade e o Cristianismo com a tradição cristã. Vivemos um conflito interior entre aquilo que é de Deus e aquilo que é da carne, e tentamos misturar os dois num mesmo prato, sem perceber que ambos se contestam às escondidas, pois a fé não nasce da carne, mas de Deus.

Misturamos a herança dos Apóstolos e dos Santos Pais com o orgulho confessional (“eu sou católico”, “eu sou crente”), a graça da vida segundo o Espírito com o peso histórico e étnico (que também pede seus “direitos místicos”, como pensar que todo brasileiro tem de ser católico, todo árabe, muçulmano). Confundimos o sentido da verdade com o gosto pelo poder mas, a carne e o sangue não poderão herdar o Reino de Deus (cf. 1Cor 15,50).

A missão é anunciar a beleza da Cruz.

A paixão de Cristo é a “hora” da glória. Ele se desfez através do sofrimento por amor e depois o Pai o transfigurou na carne ressuscitada. O Senhor glorioso é o Senhor crucificado. Paulo, após ter sido tocado pela Luz arrebatadora no caminho de Damasco, não anunciou o poder, o espetáculo do sucesso, mas a fragilidade do Amor: “Irmãos, eu mesmo, quando fui ter convosco, não me apresentei com o prestígio da palavra ou da sabedoria para vos anunciar o mistério de Deus. Pois não quis saber outra coisa entre vós a não ser Jesus Cristo, e Jesus Cristo crucificado, … a fim de que a vossa fé não se baseie na sabedoria dos homens, mas no poder de Deus” (1Cor 2, 1.5; cf. 1, 23-25).

A grande Liturgia da Igreja vivencia esse anúncio paradoxal na forma do Belo em estado puro: a Eucaristia é a ação de graças pela Paixão-Morte-Ressurreição-Ascensão gloriosa do Senhor: a pequenez do Pão oculta/revela a Glória infinita do Senhor; o altar é belo, a Palavra é bela, os cantos são belos, os paramentos são belos; belo é o povo que celebra os acontecimentos centrais da história, mas ergue os olhos e imediatamente contempla o Crucificado, belo na dor pelo amor.

A missão cristã não é anunciar uma teoria, um código de comportamento que provoca cansaço e temor. É algo mais fascinante: é mostrar Cristo, suprema revelação do ser, da forma, da glória e da beleza de Deus. O missionário tem consciência de que a beleza e a luz de Deus compreendem também o abismo da treva na qual mergulha o Crucifixo, de que o caminho da fé supõe o grito “Meu Deus, por que me abandonaste?” (Mc 15,34).

A beleza do Crucificado é tão irresistível, porém, que leva quem o busca a uma aventura onde luz/treva, consolo/abandono, certeza/dúvida parecem se confundir e, ao mesmo tempo, são distintas, pois sabemos que no final do caminho repousaremos dizendo “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc 23,46). As vertigens do mergulho em busca do Belo nos farão contemplá-lo na serenidade de quem o amou.

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