TÃO LONGE, TÃO PERTO – TÃO GRANDE, TÃO PEQUENO

«Cristo, Rei da Misericórdia» (Vilnius, Lithuania, 20th c)

«Cristo, Rei da Misericórdia» (Vilnius, Lithuania, 20th c)

Podemos conhecer Deus somente se ele se revelar; é o que vale também para as pessoas: nós as conhecemos na medida em que se deixam conhecer. É a lógica do mistério.

Deus não quer ser conhecido pela inteligência, mas pela fé: é o caminho mais certo e mais profundo. Pela inteligência dominamos as pessoas, pela fé torna-se possível amá-las e, no amor, conhecê-las, fascinando-nos sempre mais. Pela fé Deus se revela a nós como de pessoa para pessoa, como a amigos (cf. Ex 33,11; Jo 15,14) e, assim, com toda a confiança nos abandonamos em suas mãos.

Sempre que uma religião perde o contato com o carinho e o amor de Deus revelados na fé complica o culto e cria teologias que afastam dele os corações humildes. A religião se transforma em meio de dominar o divino, dele construindo a imagem que mais apetece ao momento, sacralizando hierarquias humanas.

No universo religioso o Deus de Israel é único: ele desce para falar pessoalmente com o povo. Ele é carente de que aceitemos ser amados por ele e sente-se responsável por nós, por quem nutre infinita ternura. Ele não é o deus distante dos sábios, filósofos e doutores das religiões. É o Deus que fala com Abraão, com Moisés, com os profetas. Nosso Deus desce em busca de interlocutores: é um pobre em busca de quem aceite ser por ele amado. “Meu coração se comove dentro de mim, meu íntimo freme de compaixão. Não darei largas ao ardor de minha ira” (Os 11,8-9): quem, dotado de todos os poderes, Senhor dos tempos e espaços, poderia declarar tamanho amor por um povo ingrato, idólatra, adúltero, como o povo da Antiga e da Nova Aliança?

Nosso Deus sente profundamente a ingratidão de nossos pecados, mas não se deixa vencer pela ira, assumindo a iniciativa da reconciliação: “Com teus pecados, trataste-me como servo, cansando-me com tuas maldades. Sou eu, eu mesmo, que cancelo tuas culpas por minha causa e já não lembrarei de teus pecados” (Is 43,25).

As grandes religiões se especializam em cultos propiciatórios, em comover a divindade através de rituais e da ascese. Nosso Deus não espera isso. Ele toma a iniciativa e age até com ciúmes para que possa ter-nos dentro de seu coração: “Quanto a vós, minhas ovelhas, sois as ovelhas de minha pastagem, e eu sou o vosso Deus” (Ez 34,31); “Imprimirei minha lei em suas entranhas, e hei de escrevê-la em seu coração; serei seu Deus e eles serão meu povo” (Jr 31,33). Em nossos momentos de fraqueza, de pecado, de desânimo, não há motivo para o desespero. Basta ter a certeza de que “guarda o Senhor minha vida, e por mim se desdobra em carinho” (Sl 39, 18).

A Criação – lembrança de Deus

Deus não se irrita com as nossas faltas legais, nossos pecados de cada dia. O que o faz sofrer é o nosso desprezo por ele, ignorá-lo, fingir não percebê-lo. Ele é tão humano como nós: nada mais dói do que ser ignorado, do que padecer a ingratidão da pessoa que é amada.

De tal modo deseja Deus que nos lembremos dele que em todos os povos plantou a semente da fé e da religiosidade. Não há, nunca houve povo sem Deus, povo que não fosse impelido a procurá-lo. Toda a beleza da criação, dos astros, plantas, aves, animais, tem uma finalidade: Deus a fez para que nos lembremos dele através do encantamento. Quanto maior a sensibilidade diante do belo, maior a sensibilidade ao conhecimento pela fé: tudo transpira amor, tudo é revelação (cf. Sl 8; cf. Rom 1, 20-21).

Não satisfeito com toda a história da Antiga Aliança, quando desceu para libertar seu povo, seu amor fê-lo enviar-nos seu Filho encarnado na natureza humana: deu-nos o Filho único para sentir como nós vivemos. O Deus longe, porque invisível, se fez perto porque visível. Os caminhos humanos se cruzaram com os divinos e ambos puderam se conhecer pessoalmente. Como recompensa por termos aceitado sua vinda, nos oferece o dom de viver sua vida.

Um amor sem reservas

Não bastasse termos seu Filho, aceitou que o Filho oferecesse a vida por nós. A Cruz erguida revela os abismos da profundidade do amor divino, pura misericórdia e compaixão. Jesus o Cristo segue o Pai no mesmo caminho de doação. Quis perpetuar sua presença na história através da Ceia fraterna, da Eucaristia para que, cada vez que a celebrarmos anunciemos o mistério da cruz, morte, ressurreição e ascensão. A Eucaristia jorrou do amor do coração de Jesus: “Eu desejei ansiosamente comer esta Páscoa convosco antes de padecer!” (Lc 22,15). No Pão e no Vinho consagrados o Senhor penetra toda a profundidade de nosso ser, faz-se um conosco.

Através da Eucaristia saboreamos alegrias eternas, reservadas para o momento do encontro final e definitivo. O Pai recebe o pão, o Espírito o transforma no Filho e o Deus grande, imenso, que tudo contém, encerra-se no pedaço de pão para que, mastigado e comido, penetre toda a nossa natureza carnal/espiritual. Deus sacia a saudade que sente de nós e nós matamos a saudade que dele sentimos.

Tudo é simples, tudo é mistério de amor: Ele está no meio de nós!

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