O GRANDE CIRCO COM JESUS

Cristo Superstar

Cristo Superstar

Entre as muitas iniciativas, cuja reta intenção é inegável, de promover um Jesus mais moderno, sedutor, ligth, apaziguador, vi cartazes com os títulos Circo com Jesus, Sorvete com Jesus, Noite com Jesus, Dança com Jesus, Namoro com Jesus, Surf com Jesus, Carnaval com Jesus. Normalmente quer-se atingir o público jovem, uma clientela adolescente, ou senhores e senhoras piedosos que ainda não atingiram o nível da fé, saltitando felizes com um Jesus que os faz sentirem-se modernos. O perigo disso é o retorno a uma moral que mostra o mundo como mau: dele retirando o jovem, se garante que não peque ao menos numa noite. A pedagogia de Jesus era outra: “ide antes às ovelhas perdidas da casa de Israel”(Mt 10,6). A Carta a Diogneto, retratando os cristãos do século II, demonstra que o cristão vive no mundo, mas sem o espírito do mundo: faz o mesmo que os outros, mas com o coração orientado na Palavra do Senhor.

A atual tentação evangelizadora à moda ligth realiza o que quer condenar: a simplificação da dura realidade da conversão, do persistente e doloroso caminho da fidelidade ininterrupta, esteja-se onde se estiver. Há culpa em todos nós que nos preocupamos com a busca de soluções sedutoras, com o sucesso e o trabalho medíocre que dispensa o pensamento, a aridez do estudo e uma espiritualidade transformadora.

Essa “preguiça” pastoral se estende aos consumidores das “investigações” religiosas, tipificados no Código da Vinci, é a turma dos consumidores preguiçosos de best-sellers religiosos que levam ao narcisismo, à busca da paz interior despojada do combate da fé. Está para sair um “A irmã de Jesus” (moça extremamente emancipada) e outro “Escritos de Jesus”. O sucesso é garantido. Esses livros têm como segredo incutir nos leitores a crença na “teoria da suspeita ou conspiração”: a Igreja escondeu essas obras porque prejudicariam seus compromissos ideológicos e desmantelariam sua estrutura. Muitos católicos ficam arrepiados e cheios de dúvida: como confundem Concílio de Nicéia com Conselho da Nilcéia colocam em dúvida a seriedade com que o Cristianismo tratou o mistério da Redenção, como foi sério e sereno o estabelecimento dos livros bíblicos inspirados. A esperteza de um escritor de ficção tem mais peso do que a santidade e a sabedoria dos Santos Pais da Igreja.

Por vias transversas, tanto os produtores do “Circo com Jesus”, como os dos best-sellers buscam uma coisa: realçar a humanidade de Jesus. Tornar Jesus tão humano e palatável que segui-lo é questão de bom gosto, de prazer, de alegria. Incluem Jesus na indústria pop, alimentando com mesquinharias o imaginário infantil do ser humano.

Mas, da parte dos escritores e editores de obras “ocultadas pela Igreja”, há uma outra decisão, trágica para a humanidade: a negação da divindade de Cristo. Se Cristo é apenas humano e deu-se a liberdades com Madalena, se os Evangelhos são o resultado do medo diante da verdade, então tudo está liberado. O impulso suicida germina no íntimo do ser humano que não precisa mais recuperar a imagem e semelhança com o Deus Criador: basta contentar-se em pensar que Cristo é tão humano como nós e, portanto, divertido e desnecessário.

Crer em Cristo Deus e Homem verdadeiro é crer no Salvador, aceitar que fomos corrompidos pelo pecado, vencer o orgulho da auto-suficiência, que nossa natureza pode e deve recuperar sua dignidade original, buscar o Tudo que nos realiza e não o nada que nos amesquinha, que o caminho religioso não é a banalização da vida, mas a divinização de nossa humanidade. O caminho não pode ser facilitado, mas revelado em sua integridade. O Senhor quer fazer com cada um de nós o que revelou ao Profeta: “Eu a conduzirei levando-a à solidão, onde lhe falarei ao coração” (Os 2, 15-16).

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