INDIGNAÇÃO E MISERICÓRDIA

avestruzSinal de amadurecimento da comunidade é sua capacidade de indignação ética: protestar ativamente contra a violação dos valores fundamentais da convivência humana, como a verdade, a honestidade, a justiça, a igualdade social, a defesa da vida. Quando nos acostumamos com a profanação destes valores, estamos retornando à barbárie, ao princípio da vitória do mais forte.

Infelizmente, podemos afirmar que a sociedade brasileira está-se acomodando diante da corrupção, da violência social, do trânsito, da marginalização progressiva de boa parte da comunidade nacional. Esses crimes passam a ser objetos emocionais dos noticiários, sem maiores conseqüências práticas. Ficamos horrorizados com o menor de rua que assalta uma residência, com o marginal que assassina friamente. Mas não temos o mesmo nível de indignação diante dos colarinhos brancos que superfaturam obras públicas, desviam recursos públicos, dos deputados e empresários “sanguessugas”, da manipulação política na explicação de crimes contra o patrimônio nacional, como foi o caso dos “mensaleiros”.

O pequeno marginal paga com a cadeia; o mau administrador tem suas maracutaias financiadas e cobertas com o dinheiro público de seguidos REFIs que depois fará falta à saúde, à educação! E é o crime dos grandes que fabrica a criminalidade marginal, pois a falta de ética da parte dos homens públicos tira a moral para exigi-la dos pequenos desempregados. É sintomático que o presidiário na sua maioria seja semi-analfabeto, desempregado e morador da periferia.

A defesa da pena de morte cresce sempre mais, porém, pena de morte para o ladrão pobre, negro, favelado. Nos Estados Unidos, sua aplicação não diminuiu a criminalidade, e sim, a educação e a inserção no mercado de trabalho. Projetos nesse sentido fazem muito mais e com muito menos recursos do que a cara e desumana aplicação da pena capital. A marginalidade criminosa é conseqüência da marginalização social. A cura se faz pela integração, não pela exclusão.

A finalidade do cárcere é a recuperação social e humana do criminoso, para isso isolando-o da comunidade. As prisões brasileiras, que amontoam pequenos delinqüentes com mestres no crime, transformam-se em escolas de criminosos. Devemos nos perguntar se o uso da tortura pelos policiais, as prisões desumanas, os réus primários sem direito de defesa, as epidemias nas celas, a promiscuidade sexual, contribuem de alguma maneira para a recuperação de nossos irmãos que caíram no crime: 85% dos presos não têm recursos para contratar advogados; 90% têm o bacilo da tuberculose; isso sem contar o vírus da AIDS que infesta as prisões. Aquela multidão de jovens que participam das freqüentes rebeliões, no seu aspecto aterrador, ódio esculpido nas faces, indiferença frente ao próprio destino são o atestado de que fracassamos na misericórdia com os jovens. Privados da escola da vida se formaram na escola da marginalidade.

A misericórdia não perece fazer parte de seu vocabulário, pois assaltam pobres, idosos, quem encontrarem com algum dinheiro. Mas nós, cristãos, temos a obrigação da misericórdia. O ódio e o desejo da vingança não podem ter hospedagem na vida de quem segue a Cristo, que deu a vida pelos pecadores, marginais, corruptos, por nós.

O Cristianismo eliminou a possibilidade da vingança.

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