SEGUIDORES, NÃO TRIUNFADORES

Ide a todo o mundo...

Ide a todo o mundo…

O sucesso histórico não é o metro para todas as coisas. “Por certo, Jesus não é o advogado dos homens de sucesso na história. … O que ele quer não é nem o sucesso nem o insucesso, mas a aceitação dócil do julgamento de Deus” (D. Bonhoeffer. Ética, 67). A alegria da vida cristã não provém do trunfo de se poder afirmar “o Brasil é o maior país católico do mundo”, nem sua tristeza tem origem no constatar que a Igreja católica perde anualmente 1% de seus membros. Publica-se que no Brasil 60% da população é católica. Como se entende, então, que a França seja chamada de “pós-cristã” se nela 70% se declaram católicos?

O imperador Constantino em 311 concedeu liberdade aos cristãos quando eles constituíam “apenas” 10% da população do Império romano (6 milhões em 60 milhões). Ele, porém, percebeu na fé cristã uma força nova, um estilo de vida que tinha uma palavra forte para a sociedade. Perguntemos: é grande sucesso ter alcançado 10% da população após 300 anos de evangelização? Realmente, Cristo não é advogado dos homens de sucesso! A vitória de Cristo é a doação incondicional de tantas pessoas, o martírio de inteiras comunidades, a fidelidade sem reservas à sua pessoa. Os discípulos, não os números, dão testemunho do poder da fé.

A alegria do cristão, o sentido de sua vida é a adesão total e incondicional ao Deus da vida através da aceitação pessoal em nossa vida da encarnação, paixão, morte, ressurreição e ascensão gloriosa de seu Filho. Não o metro do sucesso, mas o grau de fidelidade a seu Senhor faz a Igreja caminhar serena pela história e seus desafios.

O cristianismo não é feito de números, mas de santos; precisa de teólogos e pastores cuja teologia seja oração, cuja vida dê testemunho daquilo que estudam e ensinam. Uma preocupação doentia em casar o cristianismo com o mundo acaba por deixar ambos sem sentido. É comprometedor afirmar com Santo Inácio de Antioquia, a caminho do martírio em Roma: “O cristianismo não é obra de persuasão, mas de grandeza”. Grandeza de testemunho, de coragem, de fé/adesão ao Senhor Jesus.

É motivo de vergonha para quem ama a Igreja e o Evangelho a preocupação e angústia de tantos cristãos diante da publicação de evangelhos gnósticos, como o de Judas, Tomé, diante de uma literatura feita de mediocridade histórica e bom tempero de suspense como o Código da Vinci. Vergonha, porque o evangelho de Judas é conhecido desde o século II, o mesmo se dizendo de tantos livros apócrifos do período posterior à era apostólica. Lá, como hoje, buscava-se saciar a curiosidade sobre a vida oculta de Jesus, o destino do Iscariotes traidor, a vida de José e Maria, o fascínio despertado pela personagem Maria Madalena. O que não se sabe se inventa e o curioso sente-se recompensado.

Dissemos vergonha porque a tal de angústia é atestado de que nossa catequese e formação de cristãos é moralizante, pendendo para a ética, querendo fazer do cristianismo a “arte do bom comportamento”. Tanto na catequese infanto-juvenil como nos cursos de teologia para leigos a história da Igreja e de suas primeiras comunidades é deixada de lado em benefício de uma preocupação com a moral e os bons costumes. E, deste modo, o último sucesso editorial ou de mídia que aparecer na praça deixará tantos cristãos em dúvida, perplexos por poderem estar sendo enganados pela Igreja.

O fundamento de nossa fé é a encarnação-morte-ressurreição do Filho de Deus que nos oferece vida em plenitude. Tudo por graça, por dom de Deus. Essa verdade a Igreja transmite meditando os 73 livros da Sagrada Escritura. A vida de seu Senhor e mestre está contida nos 4 Evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João. A Sagrada Escritura transmitida pela Igreja nos dá a segurança do ato de fé, da entrega de nossa vida a Deus, de iniciarmos sempre de novo o caminho cristão até a consumação final em Cristo, no Espírito Santo.

A realidade histórica do cristianismo é a vida dos cristãos brotada da meditação da Palavra de Deus e movida pela Graça. Formamos militantes, “agentes” de pastoral. Talvez nos despreocupemos do único necessário: formar discípulos. A vida é curta para completarmos o discipulado. No momento do julgamento com sua inesgotável misericórdia Deus completará o que falta.

Velhinho, pouco antes de ser triturado pelas feras do circo romano, Inácio de Antioquia afirmou: “Agora começo a ser discípulo de Cristo”.

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