A IGREJA – CARNE DO RESSUSCITADO

Os três Santos Hierarcas em torno da Mesa Eucarística

Os três Santos Hierarcas em torno da Mesa Eucarística

As celebrações do 15º Congresso Eucarístico Nacional encheram os olhos e o coração dos que delas participaram ou acompanharam pelos meios de comunicação. A profusão de cores, a beleza da ornamentação, a harmonia dos movimentos, a vibração dos cantos, a presença de centenas de bispos realçando a unidade da Igreja em torno de seus pastores, milhares de presbíteros e cristãos, tudo contribuiu para testemunhar a beleza que brota da fé, da unidade, da Eucaristia. “A Beleza salvará o mundo”, afirmou Dostoievski, e um fragmento dessa beleza divisamos nas Liturgias: Deus é a Beleza e podemos contemplá-lo em tantos que nele crêem.

Naquelas horas vibrantes, quando o aspecto humano poderia até sensibilizar mais do que o mistério, a verdadeira realidade era um pequeno pedaço de pão, um cálice de vinho, sobre os quais foram proferidas as palavras da última Ceia: e aqueles pequenos sinais de pão e vinho se expandiram, explodiram em luz: eram a Presença, eram o Ressuscitado, diante de quem céus e terras se prostraram em adoração.

Nestas horas solenes devemos ter presente que a Igreja é mais do que uma instituição: é um contínuo milagre divino, o paradoxo da cruz, instrumento de morte que é símbolo de ressurreição. Ao mesmo tempo ela contempla o Senhor descendo aos infernos e subindo vitorioso aos céus, contempla a derrota da cruz e a glória da ressurreição/ascensão: é a obra do Espírito Santo que faz ascender à vida nova quem a Cristo recorre da sombra da morte.

Espírito e carne – visibilidade e invisibilidade

A Igreja é carne: não se pode limitá-la a uma realidade invisível. É a comunidade de santos e pecadores, de discípulos e medíocres, de servidores e exploradores, pois sua existência não tem como objetivo congregar santos, mas fazer santos, não criar uma seita de eleitos, mas um povo convertido pela graça.É a carne da prostituta pecando e é a carne da mesma mulher enxugando os pés de Jesus com lágrimas de contrição e amor. É a Igreja triunfante nos céus e, simultaneamente, a Igreja militante na terra.

Por isso, ao tocar a carne, machucada pela fragilidade, com o corpo ressuscitado do Senhor entregue na Eucaristia, temos consciência de que não podemos reduzir a Igreja de Deus a uma realidade visível, a uma ONG. Ela é o Jesus de Belém e o Senhor ressuscitado de Jerusalém.

Só se pode conhecer a natureza da Igreja de Deus na comunhão entre as dimensões visível e invisível, comunitária e pessoal, hierárquica e carismática, local e católica.

A missão de toda a Igreja, assumida como programa pelo papa Bento XVI em sua homilia de entronização, é não fazer a própria vontade, mas colocar-se na escuta da Palavra e da vontade do Senhor e deixar-se guiar por ele de tal modo que seja ele quem guia a Igreja. Todos, pastores e rebanho, somos ouvintes e servidores.

A Eucaristia é o ápice da vida da Igreja e sua nascente: a Igreja nasce da Eucaristia e a ela conduz. O que é a Eucaristia a não ser a presença do Ressuscitado na comunidade que celebra e dele comunga?

Donde vem a energia que faz jovens tudo deixarem para ser presbíteros, jovens se consagrarem na vida religiosa, homens e mulheres que assumem a sacralidade da família, profissionais que defendem a vida e o progresso segundo a justiça, o voluntariado na vida eclesial, nos asilos, orfanatos, hospitais, escolas para deficientes? Donde vem a energia que faz um cristão enfrentar sorrindo o pelotão de fuzilamento por causa de Cristo, que faz o missionário aprofundar-se por terras e culturas desconhecidas? Donde vem essa capacidade de se fazer o bem sempre, sem nada pedir em troca? Da Eucaristia! “A Eucaristia é uma explosão nuclear que acontece no mais íntimo do ser e que provoca uma reação em cadeia de atos de amor”, disse Bento XVI aos jovens em Colônia (21/08/2005). Ela transforma a Igreja em testemunha crível do amor: Deus caritas est, Deus é amor. A Igreja é a manifestação visível desse amor, ou não é nada de significativa para o mundo.

A grandeza de ser cristão

Cada cristão participa da graça que a Eucaristia traz à Igreja: a santidade e bondade de cada fiel provém do Corpo do Ressuscitado do qual nos alimentamos e de quem somos membros. A comunhão recupera em nós a imagem divina danificada pelo pecado, lustra nossa imagem da poeira da rotina, das infidelidades diárias e nos faz luminosos pela Luz que recebemos: “Ó homem, por que tens de ti um conceito tão baixo, quando foste tão precioso para Deus? Ele imprimiu em ti a sua imagem, a fim de que a imagem visível tornasse presente ao mundo o Criador invisível” (São Pedro Crisólogo – séc. V).

A Igreja que nasce da Eucaristia nos revela quem somos, a Beleza que há em nós, faz-nos renascer, isto é, recuperar a face que tínhamos no Paraíso: “Se queres conhecer quem tu és, não fiques olhando o que tu foste, mas olha a imagem que Deus tinha ao criar-te”, afirma Evágrio Pôntico (séc. IV).

As energias divinas vencem as fraquezas humanas e os muros construídos pelo pecado são derrubados pela reconciliação dada a cada um pelo Pão da Vida. O coração purificado do pecado vê mais longe do que o demônio: tudo para ele é transparente. Então nos olhamos uns aos outros e em cada um de nós é amada e admirada a face divina ao mesmo tempo em que Deus vê em nós sua face humanizada. E cantamos com Santa Catarina de Siena: “Nós somos imagem de tua divindade e Tu és imagem da nossa humanidade”.

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