A LITURGIA DA IGREJA E O ANO DA GRAÇA

Cristo, o Salvador, com os Apóstolos (Fyodor-Zubov,1662)

Cristo, o Salvador, com os Apóstolos (Fyodor-Zubov,1662)

O ano da graça (cf. Lc 4, 18-19) é o tempo da salvação e da libertação, sem limite no tempo e no espaço: é a presença do próprio Cristo, Servo e Senhor, crucificado e ressuscitado, sentado à direita do Pai e enviando o Espírito Santo.

A Liturgia é a realização continuada do ano da graça: é a celebração da memória pascal, não entendida como recordação de fatos antigos mas como acontecimento atual. É a Páscoa incessantemente celebrada, sempre nova, nunca repetida. A comunidade cristã escolheu o primeiro dia da semana como Dia do Senhor por ser o dia da Páscoa. E foi além: cada dia da vida cristã é Páscoa, porque a cada dia é celebrada a Liturgia, fazendo jorrar o clarão vivificante da ressurreição sobre todos os dias da semana. Afirma Gregório de Nissa que «não existe um momento em que o cristão não celebra a Páscoa» (In Christi ress., PG 46,628CD).

Quaresma-Páscoa, Páscoa-Pentecostes

O gênio cristão teve isso presente ao estabelecer os ciclos litúrgicos e transformar o ano inteiro em Ano da Graça onde Cristo nos torna presente seu mistério. A Páscoa, e sempre é Páscoa, é precedida pelas sete semanas da Quaresma nas quais vivemos as etapas do retorno ao paraíso da nova criação. Após a Páscoa, vivemos as sete semanas de Pentecostes, nas quais aprendemos a viver em comunhão com o Senhor ressuscitado. É o tempo da Teofania (manifestação de Cristo, Verbo encarnado) e da Deificação (através do Espírito assumimos a forma do corpo glorioso do Senhor).

A Liturgia nos coloca dentro da pedagogia cristã alimentando-nos pela Palavra proclamada e celebrada. É um contínuo aprender e aceitar «quem é Cristo» e deixar-se transformar pelo Espírito. Quanto mais penetramos no mistério da Encarnação (Deus que se faz homem) mais somos transformados pelo mistério do Pentecostes (somos divinizados à imagem de Cristo). O Senhor que vem para o meio de nós é o Senhor que nos eleva ao Trono divino em cada Liturgia (cf. Fl 2, 5-11).

A pedagogia do acolhimento

O Senhor celebra sua Páscoa no meio de justos e pecadores: a Ceia incluiu Judas, a Cruz incluiu os ladrões, a Ressurreição incluiu soldados pagãos, o Pentecostes incluiu os pagãos. Apesar da clareza em saber que o Senhor vive nunca excluindo, os cristãos não estão isentos do perigo de formarem seitas, grupos sectários de eleitos orgulhosos da sua suficiente obediência à lei. Essa tentação já se manifestou na Igreja primitiva, mas com a repreensão da Igreja: «Ó bispo, não impeçais aos pecadores de entrar na igreja para ouvirem a Palavra, pois o Senhor, nosso Salvador, não afastou nem rejeitou os publicanos e pecadores, mas comeu com eles» (Didascália dos Apóstolos 2,40).

Se a Liturgia é alimento para os fracos e pecadores, por ela tornando-se fortes e santos, a vida cristã dela decorrente exige a vivência numa fraternidade onde os fracos apóiam-se nos mais fortes, os pecadores são consolados pelos mais santos. «Inclusive admitimos que existam alguns perfeitos, integralmente santos: mas não lhes é permitido viver sem os irmãos, que não devem ser rejeitados» (Otávio de Mileve, O Cisma dos Donatistas 7,2).

A Liturgia provoca em nós um movimento irreprimível de anúncio, de busca de discípulos à imagem da Encarnação: os anjos anunciam aos pastores, André anuncia a Pedro, os doentes curados anunciam aos outros doentes, as mulheres anunciam o Ressuscitado, Pedro anuncia o novo tempo de Pentecostes, a Igreja anuncia o Deus Trindade. Detendo o anúncio, esteriliza-se a Páscoa.

O pão é para os famintos, a água para os sedentos: o Pão é para os famintos de Vida, a Água viva é para os sedentos do Deus vivo.

A Igreja, virgem e prostituta

A Igreja nasce da Eucaristia, a Eucaristia é o ápice da vida da Igreja. Tamanho e fascinante mistério não nos permite esquecer que a santidade da Igreja vem de sua Cabeça, o Cristo e, nela, nossa humilde colaboração é sermos pecadores em busca de santidade. A comunidade que se reúne para celebrar a Liturgia carrega consigo os pecados pessoais e comunitários: tudo é oferecido para que tudo seja transfigurado.

Os Pais da Igreja viram no profeta Oséias a grande imagem da Igreja virgem e prostituta. «Aprendemos que a união do profeta com a prostituta indica que a ignorância dos gentios se une com o ensinamento dos profetas e que seus filhos não serão mais chamados de não-amados, mas de amados, povo ao invés de não-povo, filhos de Deus em lugar de filhos de prostituta» (Hilário de Poitiers, Tratado sobre os Mistérios 2,1-2.4). Agostinho, pecador tocado pela graça: «O esposo encontrou a Igreja que era prostituta e a tornou virgem. Não deve renegar ter sido uma prostituta a fim de que não seja negada a misericórdia do libertador » (Discurso 213,8).

Cada um de nós, cristãos, deve enxergar-se na prostituta que lava os pés do Salvador com as lágrimas e enxuga-os com os cabelos. Membros da Igreja, como ela esperamos ouvir do Senhor: Teus pecados estão perdoados (Lc 7,48).

A Igreja Povo de Deus celebra a Liturgia não como festa de santos e sim como a festa de pecadores que têm a certeza do acolhimento do Pai, no Filho e pelo Espírito Santo. É confortador sentirmos que vamos participar da Eucaristia como uma prostituta descartada, nua e dela saímos puros, cobertos com uma veste limpa dada pelo Senhor.

Com a mesma alegria das primeiras comunidades cristãs, então cantamos: «Venha a graça e passe este mundo! Hosana ao Deus de Davi! Se um é santo, venha! Se um não é, converta-se! Maranatha. Amém!» (Didaqué 10, 5-6).

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