A EUCARISTIA E A BELEZA DA HARMONIA

O martírio - experiência de morte-ressurreição - Capela de Kocevski - Eslovênia

O martírio – experiência de morte-ressurreição – Capela de Kocevski – Eslovênia

Durante seus 20 séculos de existência a Igreja tratou como seus dois tesouros a Palavra e o rito litúrgico. Surgiram famílias litúrgicas e, nelas, dezenas de ritos para expressar e celebrar o mistério pascal. A Igreja católica, em sua variedade ritual, tem no rito romano seu rito para a Igreja latina e no rito oriental, mais conhecido como a Divina Liturgia de São João Crisóstomo o rito para as Igrejas católicas orientais. A Divina Liturgia é comum à da Igreja Ortodoxa, constituindo-se numa preciosa ponte ecumênica.

O rito litúrgico pertence à Igreja e não à criatividade dos fiéis ou comunidades. Ele expressa a eterna vida divina e não a provisoriedade de nossas experiências diárias. Ele assume nosso quotidiano, é verdade, mas para divinizá-lo e mostrar sua participação da glória divina.

Uma das características do rito é a sua repetição sempre igual, dia por dia, ano por ano. O rito é sempre o mesmo, porém, a cada dia nós somos diferentes e a cada rito a Palavra de Deus proclamada é diversa, razão porque a repetição ritual não cria monotonia. Evidente que se a Palavra não é ouvida ou por distração ou por ser mal proclamada, teremos a experiência da monotonia ritual, estéril.

A Liturgia eucarística é indissociável da celebração da Liturgia da Palavra: Deus fala, nós celebramos. O mistério pascal é o mesmo, mas a extensão numérica dos séculos da história será pouco para expressar parte de sua profundidade e riqueza.

Outra característica do rito litúrgico é a sobriedade, conseqüência da simplicidade divina. O mistério leva ao fascínio e não à curiosidade. Missa enfeitada é produto de equipes de teatro e não litúrgicas. Cristo é a Palavra e não multiplicação de palavras que ocultam nossa realidade. É triste o anúncio de missas carismáticas, de descarrego, de quebra de maldição, de cura, de exorcismo, de posse de governo, de aniversário de clube, etc.: a Missa não tem adjetivo, pois a Eucaristia é sempre a celebração e memória do mistério pascal onde Deus se manifesta no silêncio e na beleza simples, sempre comunicativa. A Eucaristia jorra do lado aberto do Senhor crucificado e ressuscitado e não do farfalhar de púrpuras, brilhos de vestes litúrgicas e teatralizações cerimoniais. Muitos males provém da identificação de cerimônia com liturgia: um bom liturgista é necessariamente teólogo e um bom cerimoniário pode eventualmente ser apenas especialista em encenações. Liturgia se identifica com mistério.

A Liturgia pede a harmonia dos participantes, dos cantos, dos gestos, palavra/silêncio, das velas/flores. «O espírito tem sede de harmonia enquanto que a vida é desarmônica», afirmou o cineasta russo Andrej Tarkovskiy. Missa movimentada, agitada, rumorosa, de padre irrequieto e equipe exibicionista, «platéia» festeira abafa a harmonia de que nosso espírito tem sede: expressa a realidade da vida mas suprime a possibilidade de transfigurá-la. Não vamos à Igreja para reproduzir o barulho da rua: queremos, isto sim, trazer tudo conosco mas para entrar em comunhão com o Deus que é belo, simples, silencioso.

O fato de não nos conformarmos em viver divididos interiormente gera um movimento nascido da fé e, assim, a profundidade de nosso ser, nossas forças espirituais nos impelem a buscar a harmonia. Que não se restringe ao nível pessoal: nosso ser busca a harmonia com Deus, com o outro e com a criação. Na sua simplicidade e mistério a divina liturgia nos oferece essa sinfonia, pois o Espírito transfigura tudo o que é ofertado no Corpo do Senhor glorificado.

Ao concluirmos a celebração litúrgica, ajude-nos o Senhor a poder cantar, na verdade: «Anunciamos, Senhor, vossa morte e proclamamos vossa ressurreição. Vinde, Senhor Jesus!».

Pe. José Artulino Besen

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