RESSUSCITADOS COM CRISTO E EM CRISTO

Anastasis

Anastasis

Um surdo não é autoridade para avaliar a afinação de uma orquestra, um analfabeto não pode ser crítico literário. Assim, para sentirmos e vivermos a realidade da Páscoa temos de buscar o testemunho dos que a viveram e vivem, dos que têm fé, foram tocados pelo poder do Ressuscitado, como Maria, Tomé, os discípulos de Emaús, Pedro, Paulo, os cristãos. Os descrentes não podem testemunhar o poder do Ressuscitado, pois não se deixam por ele tocar.

Aqueles que sentiram e sentem a presença viva do Senhor são tomados pelos frutos da Páscoa: a alegria, a luz, a vitória sobre a morte, a passagem para a verdadeira vida, a participação cósmica.

O Ressuscitado que ressuscita

O Novo Testamento não descreve o momento da ressurreição: descreve a descida ao túmulo e, em seguida, as aparições após o túmulo ser encontrado vazio. Escrevendo aos Corintios pelo ano 53, pouco mais de 20 anos após os acontecimentos, Paulo já se reporta a uma tradição e cita um texto que, pelas características literárias, era usado na catequese: «Eu vos transmiti o que eu mesmo recebi» (1Cor 15, 3-7): «Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras, foi sepultado e, ao terceiro dia, ressuscitou, segundo as Escrituras; e apareceu a Cefas e, depois, aos Doze» (1Cor 15, 3-7).

E apareceu a Paulo: atingido por um amor irresistível, o perseguidor se torna Apóstolo e nunca mais esquece aquele que o tirou das trevas. E, nestes dias de 2006, apareceu ao afegão Abdul Rahman, um muçulmano que se converteu ao cristianismo: tocado pela Luz do ressuscitado não hesitou em responder ao juiz que lhe propôs retornar à fé muçulmana para escapar da forca: «Não! Sou cristão!». Continua a tradição dos mártires, dos que sentiram a alegria da ressurreição e perderam o medo da morte.

Revelação eterna do amor do Pai pela humanidade, Cristo é amor sem limites, não está separado de nada, de nenhum de nós, do início ao fim da história: carrega em si toda a humanidade: «(…) nele vivemos, nos movemos e somos (…) Somos de sua raça» (At 17,28). «Deus nos ressuscitou com Cristo e nos fez sentar nos céus em virtude de nossa união com Cristo Jesus» (Ef 2, 6). «Considerai-vos mortos para o pecado e vivos para Deus, em Cristo Jesus» (Rm 6,11). «Vós todos que fostes batizados em Cristo vos revestistes de Cristo» (Gl 3, 27). O que é de Cristo é também nosso: o que ele venceu é também nossa vitória.

Com facilidade afirmamos que Cristo está em tudo mas, é com dificuldade que aceitamos a conseqüência mais importante: tudo está em Cristo, porque o Pai tudo lhe entregou. Estamos de tal modo nele e dele somos, que Pedro pertencermos à mesma raça (At 17,28). Ele é tão familiar a nós que, na eternidade, no primeiro encontro diremos maravilhados: «Já o conhecia!».

Cristo Luz, fogo que purifica

«Cristo ressuscitou dos mortos, com a morte destruiu a morte e aos mortos, nos túmulos, devolveu-lhes a vida!», celebra a da Liturgia bizantina. Mas, por que a ressurreição permanece secreta, o sofrimento continua? Somos rodeados por experiências de morte, de destruição ambiental, e como explicar que tudo está em Cristo?

O Senhor respeita a nossa liberdade, não se impõe. Não é a ressurreição que suscita a fé, mas a fé é que leva à ressurreição. Se aceitarmos ser recebidos por ele, as cruzes podem ser caminhos de ressurreição. É preciso querer ser tocados pelo corpo do Ressuscitado, nas palavras tão fortes de São Cirilo de Alexandria: «Como o ferro, ao contato com o fogo, assume a cor do fogo, assim a carne, tendo recebido em si mesma o Verbo deificante, é libertada da corrupção. Por isso Cristo se revestiu de nossa carne, para libertá-la da morte» (Homilias sobre o Evangelho de Lucas 5, 19). No corpo glorioso do Senhor arde o fogo do Espírito: se nos toca o medo de termos a vida plena, ficaremos nas sombras da morte, na paz dos túmulos. Se buscamos a vida nova, o Fogo consumirá nossa corrupção e nos deixará novos e, como o ferro incandescente muitas vezes martelado, assumiremos a forma de Cristo.

Podemos também nos servir de uma comparação da química: o carvão e o diamante têm a mesma estrutura química. A diferença está em que o carvão assimila o calor, oferecendo calor, permanecendo carvão, e o diamante deixa-o passar, tornando-se luz, luminosidade. Assim, o Espírito Santo é a luz que revela o Senhor onde habitamos e o Senhor que nos habita.

Festejando a Páscoa do Senhor e a nossa páscoa, cantemos nos servindo de um Hino dos cristãos do século V-VI:

«Páscoa esplendorosa, Páscoa do Senhor, Páscoa!
Uma Páscoa puríssima sobre nós brilhou! Páscoa!
Com alegria abracemo-nos uns aos outros!
Ó Páscoa, que destrói a tristeza!
Dia da ressurreição!
Resplandeçamos de alegria por esta festa,
abracemo-nos uns aos outros,
chamemos “irmãos” também aos inimigos,
perdoemos tudo e todos pela ressurreição, e assim cantemos:
Cristo ressuscitou dos mortos»!

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