A FERRUGEM NO CAMINHO DA PERFEIÇÃO

Zaga GAVRILOVIC

Zaga GAVRILOVIC

«O banho da regeneração nos torna criaturas novas; mas todos têm necessidade de se renovar a cada dia para evitarmos a ferrugem inerente à nossa condição mortal, e não há ninguém que não deva se esforçar para progredir no caminho da perfeição» (cf. Leão Magno – Sermo 6 de Quadragesima).

Em tempos de gripe aviária, medo de endemias e pandemias, não faria nenhum mal à saúde cristã a prevenção à ferrugem espiritual. Ela é sutil, fofa, branda ao tato, sem asperezas. Tocando o corpo eclesial muda sua cor luminosa para a cor sépia, e achamos que é a cor da história, da fidelidade ao passado, da experiência, outra coisa não sendo, porém, que ferrugem, a velha e corrosiva ferrugem: então numericamente a Igreja emagrece não por alguma dieta ascética, mas pela corrosão provocada pela ferrugem do tempo, das tradições, das falsas seguranças e da confiança em suas estruturas.

O cristão, a Igreja e o mundo vivem dentro do corpo ressuscitado de Cristo, corpo luminoso, transfigurado e que transmuta quem aceita ser por ele tocado. Nada está fora do Cristo e nada alcança a perfeição se não for por ele assumido. Passamos pela tentação de ficar ao lado do Senhor, de mãos dadas em pose fotográfica, mostrando que somos seus amigos verdadeiros. Ilusão: amigo dele só quem vive nele, com ele e por ele. O Senhor é nossa visibilidade e nós somos a visibilidade do Senhor. Parafraseando: quem me vê, vê Cristo, quem vê Cristo, vê o Pai. No Cristo a fraternidade, no Pai a filiação.

Diante dos desmandos da história, de sua violência mortífera, caímos na tentação de sermos os puros, os eleitos: o mundo está perto do fim porque «eles» não prestam. Nós somos tão bons que até podemos profetizar a desgraça pontual e localizada dos pecadores, como se a perdição do próximo não dissesse respeito à dimensão fraterna e filial da fé cristã.

No combate cristão temos de resistir ao mal e nos rendermos a Deus. Cristo ressuscitado nos oferece a oportunidade de simultaneamente participar da realidade de Deus e da realidade do mundo: nunca uma sem a outra, repetia o teólogo evangélico alemão D. Bonhoeffer, que deu testemunho desta escolha sendo executado aos 39 anos no Campo de Concentração de Flossenburg. O cristão não foge do mundo, mas nele mergulha para experienciar a beleza do amor divino e sua obra. E assim, dia por dia o cristão se renova, purifica-se da ferrugem que lhe tira a beleza e purifica o mundo.

Carregando consigo o peso da humanidade o cristão, habitando o Cristo glorioso, torna a história verdadeiramente humana e a Igreja verdadeiramente divina. É esse «comércio» um dos dons da Eucaristia: o Pão divino alimenta a carne humana e a carne humana alimenta o Pão divino. O Verbo se fez carne e veio habitar entre nós e, após a ressurreição do Verbo, toda a realidade habita o Corpo glorioso daquele que venceu a morte. É dentro de Cristo que se trava o combate em que a criação geme como em dores de parto, buscando a perfeição a que lhe destinou o Criador.

Ao iniciarmos a Liturgia eucarística somos convidados a elevar os «corações para o alto»: elevamos conosco o mundo e a história. O encontro de ação de graças não se dá nem na terra nem no céu, mas na comunhão, pois é da vontade de Deus que um não tenha sentido sem o outro e o Cristo quer apresentar ao Pai a totalidade da criação, agora redimida e purificada.

A Liturgia pascal nos faz reviver a graça do batismo, da água regeneradora: sua memória anual nos lembra que sem combate, vigilância, doação e cruz a ferrugem toma conta de nosso organismo. Deixemos de lado o velho fermento e celebremos a Páscoa eterna com o novo fermento do Senhor que destruiu a morte.

, , ,

%d blogueiros gostam disto: