«DAR PÃO AO PÃO»

Jesus entre os discípulos de Emaús

Jesus entre os discípulos de Emaús

Nascido no Egito há 5 mil anos, o pão lançou um dos fundamentos da civilização, a distinção entre os bárbaros que comiam sementes e frutos e os povos que cultivavam o grão, conheciam a moagem, seu cozimento e o recolher-se em torno de uma mesa para saboreá-lo. No séc. III PC os gregos conheciam 72 tipos de pães!

Ao pão uniu-se o vinho e ambos são o símbolo mais conhecido da vida e da festa, da condivisão, do trabalho de muitos, da solidariedade, da “companhia” autêntica.. É remédio contra a fome física e contra a fome espiritual de encontro, amizade.

O pão nosso de cada dia pede pão: pede a redescoberta de seu sentido, pede alimento humano para que possa continuar a ser alimento integralmente humano. Pede sentido, significado.

Temos problemas com o pão. Não gostamos do pão porque engorda, achamos que o pão sendo meu não preciso repartir, não nos sentamos à mesma mesa porque temos coisas mais importantes a fazer, não comemos do mesmo pão porque a família se dispersou, não participamos da Eucaristia porque achamos perda de tempo a reunião dos cristãos.

O pão – fruto da terra e do trabalho

A comunhão eucarística é um meio precioso para redescobrirmos o sentido do pão e, por conseqüência, da Eucaristia. Quase sempre o pão encabeça a lista dos bens concedidos, com a terra, como dom de Deus: “Fruto da terra e do trabalho do homem e da mulher”, proclama o Presidente da Celebração na apresentação das Oferendas. O altar onde está o pão é chamado de “Mesa do Senhor”: ele inclui toda a criação e todo o trabalho humano. A assembléia se reúne em ação de graças (eucaristia) por todos os dons do Pai: a terra, a vida, o trabalho, o alimento, a redenção, a páscoa, a ascensão, o pentecostes: “Anunciamos, Senhor, vossa morte e proclamamos vossa ressurreição!”. Ao povo reunido ao redor de sua Mesa Deus tudo concede: o convite é universal e total.

No mundo bíblico o pão não era cortado com a faca, mas partido com as mãos. Jesus repartiu o pão e o deu a seus discípulos. Tomando e comendo, cada um come um pedaço e o pão retoma sua forma, o mesmo pão, através da comunidade que é gerada. Na família reunida o pão reúne seus pedaços partilhados e dispersos e na família da fé rezamos: “Senhor, como este pão durante um tempo estava espalhado pelas colinas e foi recolhido para fazer uma coisa só, assim recolhe a tua santa Igreja de toda raça e de toda a terra e de toda cidade e de todo povoado e de toda família, e faz dela a Igreja una, vivente e católica” (Anáfora de Serapião – séc. IV)).

A participação na Eucaristia simboliza a unidade dos cristãos em um só pão e em um só corpo (1Cor 10,17). Quando Paulo fala no estar preparado, ser digno, não se refere apenas a uma pureza ritual e moral: ele se refere à partilha do pão entre todos os que estão participando da assembléia: havia aqueles que comiam tudo bem ligeiro, pois não queriam partilhar. Paulo quer dizer: quem come o pão sozinho, não comunga salvação, mas come a própria condenação. Não há Corpo de Cristo no egoísmo (cf. 1Cor 11, 27-29).

Na comunhão o pão sempre é dado e recebido. A não ser por abuso, a Liturgia não permite que cada comungante tome o Pão diretamente da âmbula: ele deve ser entregue e recebido, sinal da fraternidade e da mútua dependência. Nas antigas liturgias, também o Presidente da Celebração (patriarca, metropolita, bispo, (…) o recebia – hoje apenas na liturgia síria se conserva essa bela tradição.

O pão pede para ser pão

Comer pão no Reino de Deus significa participar do banquete messiânico (Lc 14,15), pois o pão tem a propriedade de sintetizar todo o mistério da redenção: Deus que se faz carne, Deus encarnado que se faz Pão, Deus Pão que gera a Igreja, transfigura, diviniza. A Mesa do banquete é a mesa do Pão que desceu do céu. Jesus chama-se a si mesmo de verdadeiro pão, pão da vida, pão que desce do céu (Jo 6, 32ss). Desceu para que nos alimentemos e possamos com ele subir.

Segundo o mandamento do Criador, a Eucaristia desafia os cristãos a contribuir, com a força “comungada” do Senhor, para a valorização dos bens criados. E isso graças ao trabalho humano, à técnica e à cultura, para o bem de todos, sem exceção (LG 36). O pão pede respeito, simplicidade, moderação. O pecado da gula é o empanturrar-se enquanto o outro definha por falta de pão. O pão pede pão: pede mesa, família, partilha.

A Eucaristia nos dá o prazer da unidade, ninguém rejeite ou sinta-se rejeitado: “Aproxime-se, creia, deixe-se incorporar para ser vivificado. Não tenha repugnância de ser unido com outros membros num único organismo, não seja um membro afligido pela gangrena que precisa ser extirpado, não seja um membro defeituoso do qual sentir vergonha. Seja belo, seja bem adaptado, seja sadio, associe-se ao Corpo, viva para Deus e de Deus, trabalhe agora na terra para em seguida reinar no Céu” (Agostinho, In Joan. tratact. 26,13).

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