«VEM, SENHOR JESUS!»

O Juízo Final

O Juízo Final

E Deus disse: “Que seja a luz”! E a luz veio a ser (Gn 1,3). Foi esta a primeira palavra e a primeira ação de Deus ao criar o tempo e o espaço. O caos e a escuridão são o nada, e a luz inaugurou a história na qual o homem e a mulher foram situados pelo Criador. O pecado enfraqueceu, mas não destruiu nossa capacidade de visão e de criação. Por isso mesmo, para ser sentido, Deus se revela precedido pelo fogo, pela luz. É a sarsa ardente do Horeb, a coluna de fogo no deserto, é o fogo que ilumina os profetas, é a luz que faz brilhar a noite de Natal, é a Luz tabórica que preanuncia a ressurreição, é a Luz da Vigília pascal, são as línguas de fogo em Pentecostes, é a Eucaristia que nos transforma em seres luminosos pela presença em nosso ser daquele que é a Luz.

Os povos do Norte celebram, no Advento, a chegada da luz que inicia a caminhada que tornará sempre mais longos os dias. Os povos do Sul, nós, colocamos o Advento na preparação do dia mais esplendoroso do sol, o Natal, quando tem início o encurtamento dos dias. Para eles é a partida, para nós é a chegada. Não importa: o que conta é que a Luz brilha e dá claridade à nossa existência.

E a luz veio a ser

Assim também é cada dia: A vida luminosa triunfa… [a lua] não se esconde sem antes ter misturados seus raios com os raios do sol, de modo que uma única luz se prolongue sem solução de continuidade, através do ciclo completo do dia e da noite, jamais vencendo a escuridão (Cirilo de Jerusalém, Catequese 14,10).

Deus permite que a lua seja símbolo de nossa existência, sendo ele o Sol. Deus não quer que o sol nasça sem receber um pouco da claridade da lua, nem que a lua surja sem embebedar-se da claridade solar. Se nos desligamos do Senhor, a trevas primitivas retomarão nossa história. Pensaremos estar num mundo de luz quando, na verdade, estamos cegos e por isso achamos que construímos novas luzes. A soberba humana, que não aceita receber sua luz do Sol, constrói reinos de trevas, de dor, de miséria e opressão, a tudo isso dando o nome de liberdade, obra da inteligência autônoma.

O tempo do Advento é um pedido de luz dolorido/esperançoso quanto o do sedento em busca de água. É a súplica da humanidade afundando-se no caos, mas recebendo o imenso dom de escutar, novamente, a Palavra primordial: “Que seja a luz!”

Vem, Senhor Jesus!

Vem, Senhor Jesus! Maraná Thá! (Apoc 22,20). Na Trindade coube ao Filho declarar: “Eu sou a Luz do mundo. Quem me segue não anda nas trevas” (Jo 8, 12). Desde a explosão inicial que deu origem ao cosmos, a história caminha em busca de luz. Todas as coisas gemem para serem reintegradas naquele que lhes deu existência. Reintegradas na comunhão e não no aniquilamento. A palavra criadora chama para a plenificação e não para o nada.

A Liturgia da Igreja é pedido e recebimento de Luz, é memória do Monte Tabor, realização da transfiguração de todos na Luz de Cristo. E então cada um de nós verá o outro como realmente é, filho de Deus, sendo-nos possível ir além das aparências. Nossa luminosidade possibilitará que os outros nos vejam em nossa verdade. E a Luz do Senhor permitirá, a cada um de nós, reconhecermos quem somos, o amor infinito do Deus Trindade por cada um de nós, Amor que quer explodir porque eternamente contido e ainda rejeitado. A explosão da Luz em Belém e em Jerusalém são nossa imersão na luz batismal e nossa emersão para a Luz eterna, o eterno convívio.

Em cada Liturgia a comunidade exclama no momento de maior mistério, após a narração das palavras da Ceia: “Vem, Senhor Jesus!”

Tudo é muito bom, damos o máximo de nós para que tudo seja melhor. O Senhor vê nosso esforço, se alegra com nossas vitórias, tem paciência com nosso aprendizado. Mas, falta a presença do Senhor. A cada dia, milhões de pessoas imploram: Maraná Thá! Vem, Senhor Jesus!

O Advento é a espera do Senhor que vem no Natal. É, da mesma forma, o pedido para que o Senhor retorne, como prometeu e como expressamos em nosso Creio: E de novo há de vir em sua glória!

Jesus mesmo nos ensinou a pedir: Venha a nós o vosso Reino! Ele virá cheio de glória e nela nos mergulhará. O Verbo de Deus, Cristo, unindo-se à nossa natureza faz com que ela seja deificada da mesma forma que aconteceu com sua natureza humana, na morada trinitária (cf. Gregório de Nissa, Carta a Teófilo).

As crianças são as mais felizes no Natal: elas são capazes de esperar o melhor, as surpresas do amor. Venha o Senhor também a nós, para arrancar-nos as cascas que impedem nosso renascimento para a Luz, nossa manifestação como seus filhos no Filho.

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