JESUS CRISTO, UM REI POBRE E FRAGILIZADO

Extrema Humildade

Extrema Humildade

Quando, em 1925, o Papa Pio XI instituiu a festa de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei do Universo, vivia-se o espírito de neo-cristandade, de triunfo cristão existente ou desejado. A Ação Católica tinha como projeto “restaurar todas as coisas em Cristo”, num sonho glorioso de vitória da Igreja católica: o Cristo Rei era o símbolo da Igreja católica que buscava recuperar as glórias do passado.

Os saudosistas – que pouco aprendem com a história – enxergavam na festa a vingança de Cristo Rei contra os reinos deste mundo, donde tinha sido excluído. Os idealistas – que não apreciam a paciência histórica – se empenhavam na ação, comprometidos com um ideal de uma sociedade cristã. Os socialistas e laicistas – incapazes de admitir a Transcendência no tecido da história – queriam banir Cristo da história.

A Liturgia, caminho seguro da espiritualidade cristã

Pio XI agia impulsionado pela “restauração” católica: quatro anos após receberia a coroa de rei do Estado do Vaticano, após o Tratado de Latrão que o redimia da perda de Roma em 1870. A Ação Católica ocupava o centro de sua preocupação pastoral, indicando-a para toda a Igreja. E foi – e é – uma grande bênção.

Mas – aqui entra o gênio cristão – a Liturgia não é serva do tempo: ela transpõe o limiar da história e contempla a eternidade. As orações da Missa guardam a memória da realeza triunfante sobre os inimigos do mundo. A Liturgia da Palavra, porém, surpreende e nos leva à inevitável pergunta: que Rei é esse?

No Ano A (ano corrente) a imagem do Rei é o pastor que vai procurar as ovelhas e delas tomar conta; vai procurar a perdida e reconduzir a extraviada, enfaixar a de perna quebrada, fortalecer a doente, e vigiar a ovelha gorda e forte (cf. Ez 34, 11-12.15-17). O Ano B faz-nos contemplar o Rei que tomou posse do Reino na Parusia. Triunfo, sim, mas ainda não: “Eu sou o Alfa e o Ômega, diz o Senhor Deus, aquele que é, que era e que vem, o Todo-poderoso” (Apoc 1, 5-8). No Ano C contemplamos o rei Davi recebendo o juramento dos chefes de Israel: na pobre e insignificante Palestina revela-se a imagem real de Cristo na figura de Davi, um rei-pastor tribal (cf. 2Sam 5, 1-3).

As surpresas do Rei Jesus

É nos Evangelhos, porém, que a Liturgia nos revela a verdadeira realeza de Nosso Senhor Jesus Cristo, libertando-nos de qualquer tentação triunfalista ou triunfante. A essência da realeza crística é o amor que salva e busca salvar, é a paciência divina diante da sofreguidão humana pelo sucesso, é o Senhor forte e glorioso, mas que não humilha, não quer súditos nem cortesãos.

No Ano A do ciclo litúrgico, a assembléia litúrgica é posta diante do Filho do Homem que vem completar a história, na cena grandiosa do Juízo Final (cf. Mt 25, 31-46). Não podemos fazer leitura apressada: o Cristo glorioso não quer recolher orações, culto e penitências. Ele quer saber o que fizemos com o próximo em nossa existência. Sua Glória se identifica com a glória dos filhos de Deus. O prêmio eterno não é conseqüência da religião, mas da misericórdia. No Ano B a Liturgia nos situa diante de Cristo coroado de espinhos, revestido com manto de púrpura, insultado e declarando a Pilatos: “Tu o dizes: eu sou rei!” (cf. Jo 18, 33-37) e no Ano C, o grande Rei crucificado entre dois ladrões e iniciando sua realeza: “Em verdade eu te digo: ainda hoje estarás comigo no Paraíso” (cf. Lc 23, 35-43).

Conclusão: a Liturgia de Cristo Rei proíbe-nos qualquer tentação de cristandade, de Igreja poder ao lado do Cristo poderoso. Se a mentalidade histórica no início do século XX, quando a festa foi instituída, sonhava com a restauração dos tempos de glória da Igreja, a Liturgia, que sempre brota da Palavra de Deus, nos obriga a contemplar o Senhor como ele quer ser contemplado: um Rei pastor que aceita ser desprezado e morto pela salvação de suas ovelhas.

Qual o Reino do Rei Jesus?

Um dos grandes lampejos da inspiração da Igreja latina, no Prefácio de Cristo Rei glorificamos o Pai que pelo óleo de exultação do Espírito Santo ungiu Jesus nosso Rei. E oferece as qualificações do reinado de Nosso Senhor: reino da verdade e da vida, reino da santidade e da graça, reino da justiça, do amor e da paz.

Nada que afaste o maior pecador ou que faça sentir ares de santidade o maior mestre da virtude. O Reino de Cristo é tão humilde e acolhedor que dele não participa apenas quem não quer. Basta a veste nupcial da justiça, fruto da misericórdia.

Contemplando Aquele que foi crucificado em Glória e Poder, e ressuscitando matou a morte, só nos resta o caminho da mesma realeza, pois o batismo também nos ungiu sacerdotes, profetas e reis: não queiramos o triunfo que condena eternamente, mas o serviço que liberta e salva para sempre.

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