A MISSÃO CRISTÃ E A PLANTAÇÃO DA IGREJA

“Enquanto os judeus pedem milagres e os gregos procuram a sabedoria, nós pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os pagãos, mas, para os eleitos, força de Deus e sabedoria de Deus” (cf. 1Cor 1, 22-24).

Ide por todo o mundo...

Ide por todo o mundo…

A história da missão cristã tem uma companheira inseparável: a cruz do Senhor. Se produziu mártires, o anúncio da fé cristã foi fecundo; se não os produziu, restou estéril. Quando Pedro quis afastar da cruz e da morte o Senhor, a reação foi imediata: “Vai para longe, Satanás! Tu não pensas as coisas de Deus, mas sim as coisas dos homens!” (cf. Mt 16, 23). Um Messias milagreiro, poderoso, sonho da humanidade, seria estéril, pois reproduziria a tentação diabólica do prestígio e do poder. Não bastava ressuscitar Lázaro: era necessária atravessar o caminho do amor total, dando a vida pela vida do mundo.

A glória da Igreja são seus mártires: seu sangue derramado fecundou a terra onde ela foi plantada. A videira/Jesus somente deu fruto com o Pai/agricultor que escolheu adubar a terra esterilizada pelo pecado com o sangue de seu Filho. A plantação da Igreja segue o mesmo caminho: cada missionário é a videira que dá frutos aceitando que o Pai seja o agricultor, fertilizando a terra com seu sangue, que pode ser a humilhação, o cansaço, o fracasso, a fome, a doença, a perseguição, a morte. Tanto a terra como o semeador e a semente passam por um processo de morte e vida: a terra é limpa, cavada, revolvida; na sua semente o semeador semeia-se também; e a semente, se não morre, não germina.

Pavel Florenskij (1882-1937), grande teólogo e cientista russo, após anos de trabalhos forçados nos campos de concentração soviéticos, escreveu, às vésperas de ser fuzilado a mando de Stálin: “O destino de grandeza é o sofrimento, causado pelo mundo exterior e pelo sofrimento interior. Assim foi, assim é, e assim será”.

O cristão não ama a vida?

Mas, seria uma pergunta justa: teriam razão os pagãos quando acusavam os cristãos de misantropia, pessoas com raiva da vida e que procuram o sofrimento? Seria o Cristianismo a fé dos fracassados? Do mesmo modo que o santo homem Jó permanece a figura símbolo do Antigo Testamento, o Cristo crucificado é a realização e o símbolo da Nova Aliança. A única resposta possível é o silêncio dos que crêem, o silêncio feliz dos missionários e dos cristãos em terras de missão: “A cruz de nosso Senhor Jesus Cristo deve ser a nossa glória: nele está nossa vida e ressurreição; foi ele que nos salvou e ressuscitou” (cf. Gl 6,14). É esse o segredo guardado como pedra preciosa pelos cristãos e anunciado aos povos: na cruz de Cristo está nossa vida e ressurreição. A cruz que fecunda a terra liberta da morte e faz viver a vida em plenitude.

O missionário anuncia o amor de Deus, e este é o princípio, o meio e o fim da cruz: todo e somente o amor de Deus Pai que crucifica, o amor do Filho que é crucificado e o amor do Espírito Santo que triunfa pelo poder da cruz (cf. Filarete de Moscou, 1873). Quando o missionário anuncia esse amor total de Deus, tem a consciência de estar encarnando parte desse amor, sente que está sendo digno de ajudar a salvar o mundo derramando também seu sangue. O sangue dos mártires é sangue solidário. Os sofredores do mundo que oferecem a dor pela salvação dos homens estão intimamente possuídos pela felicidade de serem também cordeiros mansos e humildes sacrificados no altar da redenção.

Contemplam verdadeiramente Jesus os pobres do mundo, restos dos mesmos pobres que o contemplaram na Galiléia e na Judéia. Em si, o sofrimento não tem sentido, pois é fruto do pecado do mundo: mas, na contemplação do Cristo crucificado ele se une à potência vivificadora da cruz e gera a libertação do mundo. A fertilidade da missão é conseqüência da fertilidade da cruz, plantada no mais profundo dos infernos e alcançando o mais alto dos céus como potência vivificadora do Ressuscitado, nas palavras fortes de O. Clément.

A Igreja não vende facilidades, mas proposta de fidelidade à Cruz

Uma tragédia pervade certos ambientes eclesiásticos: confundir o anúncio do Evangelho com o sucesso estatístico. Caiu-se na moda do mundo e limpa-se o Crucificado de todas as chagas, enxuga-se no chão da Igreja qualquer vestígio de sangue. Prega-se o sucesso, não o martírio: vendem-se facilidades ao preço da esterilização cristã. Afugenta-se o martírio para que não sejam amedrontados os fregueses desse grande mercado em que ser quer transformar o solo eclesial. Quer-se tirar da vida cristã a dor que é compaixão, doação total, transformação interior, combate da fé.

O Cristo crucificado, marcado por feridas, pó e pus, é belo: seu rosto tem a beleza infinita do mais generoso dos corações, é expressão total da bondade. É esse o Cristo do missionário, é essa a beleza do seu rosto, reflexo de sua compaixão. A Igreja não pode fazer da missão uma empresa com metas seguras de sucesso: estaria escondendo o rosto solitário de seu Senhor crucificado para dar vida ao mundo. Sua glória é a cruz de Nosso Senhor, pois nele está nossa vida e ressurreição.

O Cristianismo está começando

Por que tantos mártires na história da missão? Por que Deus não livra seus mensageiros da passagem pela dor? A resposta é dada por aqueles que sofreram a perseguição e se prepararam para o martírio: quem participa do sofrimento de Cristo participa, já agora, de sua glória e somente deste modo pode ser considerado digno da ressurreição.

O caminho da cruz é sofrimento e sacrifício, mas é igualmente sinal da salvação e manifestação da glória de Deus. Aqueles a quem Deus permitiu o martírio deu-lhes a dignidade de viver a mesma paixão de Cristo, a mesma agonia e o mesmo abandono na cruz.

O comunismo e o nazismo, grandes tragédias do século XX, não enfraqueceram os cristãos, sobre quem recaiu sua fúria: tanto nos gulags russos como nos campos de concentração nazistas ecoava continuamente o grito de júbilo: Aleluia! Cristo ressuscitou!

O que debilita a Igreja não é a perseguição e sim, sua transformação em sinal frouxo de uma graça comprada a baixo preço, em sucesso à moda do mundo. No caminho da fé a juventude não busca facilidade, abundante em outras paragens. Ela busca o desafio da cruz redentora.

Desde o início e até o final da história ecoou e ecoará a mesma palavra feliz do Pe. russo Alexander Men’, às vésperas de seu martírio em 1990: “O Cristianismo está começando!”. Começando a cada vez que gera um mártir.

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