ALTAR DA PALAVRA – ALTAR DO SACRIFÍCIO

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Quiseram saber de um arquiteto qual era a função das catedrais e ele respondeu prontamente: A catedral e qualquer outra igreja tem uma finalidade: abrigar um altar.

Tudo o mais, na igreja, se desenvolve ao redor do altar: a leitura da Palavra, o ministério ordenado, o sacrário, o incenso, a celebração da Eucaristia, a adoração. Entrando numa igreja, nosso olhar se volta para o sacrário, mas, o certo seria voltar-se primeiro para o altar. Em algumas igrejas o Santíssimo é guardado e exposto em capelas laterais, realçando assim a centralidade do altar da Celebração.

E são dois os altares guardados nas igrejas: o altar da Palavra (ambão) e o altar da Celebração, pois são duas as liturgias da grande Liturgia: a da Palavra e a Eucarística. A unidade delas nos coloca dentro da Eucaristia, da ação de graças celebrada pelo Povo de Deus partindo da memória da ação divina desde a criação até o momento histórico vivido pelos concelebrantes. O altar da Palavra e o altar da Celebração nos fazem mergulhar na vida divina e nela encontrar a nossa vida, tanto para ser resgatada como para ser glorificada.

Após escutarmos Deus que nos fala, a comunidade reunida em torno do Altar é convidada a subir ao mundo divino: “Corações ao alto!”, com a pronta resposta “O nosso coração está em Deus”, para cumprir o dever e salvação de dar graças ao Senhor nosso Deus.

O altar, receptáculo do mistério da salvação

Em seu inspirado ícone “A Santíssima Trindade”, Andrej Rublev desenhou um sacrário entre as Três Pessoas Divinas. Em forma de um cofre, o sacrário contém misteriosamente toda a graça divina e sobre ele está o Cordeiro que se imola. O sacrário/cofre é o altar da Trindade: nele está contido todo o tesouro da salvação, todo o segredo da vida divina ofertada à participação humana. Nesse cofre misterioso estamos todos nós quando nos reunimos para a Eucaristia.

São João Crisóstomo, monge e patriarca de Constantinopla (século IV), afirmou numa de suas homilias: O altar é o lugar que acolhe Cristo: manjedoura, cruz e sepultura.

Frente a essa verdade, cada igreja é um templo cósmico onde acontece a liturgia celeste. Como que, a igreja/igrejinha/palhoça/sombra de árvore/catedral que acolhe o altar encerra a vida trinitária em cada celebração eucarística. Para a glória do Pai, no Espírito Santo, em cada Eucaristia o altar é o cenário celeste/terrestre onde o Filho se encarna, é a Belém onde Maria dá à Luz, é o Calvário, a Cruz e a Sepultura do Senhor ressuscitado. Não é a repetição de acontecimentos – o Cristianismo não é religião de ciclos cósmicos – mas é a celebração sacramental da eternidade do Filho que se encarnou e faz-nos partícipes da vida trinitária através da comunhão do Pão.

O altar faz-nos viver Belém e Jerusalém, o Pão nele preparado faz-nos em-divinizar por graça da em-carnação divina. Comendo o Pão, entramos em comunhão com Deus e em Deus nos tornamos um só Povo.

A mesa da Ceia e o altar do Templo

Não existe uma relação direta entre o altar de nossa igreja e o altar do sacrifício no templo de Jerusalém. Nosso altar é fruto daquela casa que o Senhor pediu a seus discípulos aprontarem para comer a Ceia pascal (cf. Mc 14, 12-16). Os primeiros cristãos, vindos do judaísmo, ofertavam sacrifícios no templo e ao mesmo tempo se reuniam em casas para a Fração do Pão (At 2,42). O gesto de Cristo na última ceia foi tão forte que a primeira comunidade tinha claro que devia celebrar o mesmo gesto em memória do Senhor: Fazei isso em memória de mim. Quando, no ano 70, o templo foi destruído pelos romanos, a comunidade cristã não se sentiu órfã da liturgia: a mesa da Ceia era o templo do Senhor. Cada casa torna-se templo. Compreenderam melhor o que o Senhor dissera: em qualquer lugar se invoca o Senhor em espírito e verdade, o sacrifício agradável a Deus é seu povo reunido para receber a Vítima que ele oferece. Em Jerusalém o povo oferecia vítimas ao Senhor; na Jerusalém cristã a vítima é Deus que oferece: seu Filho. Não se transforma em fumaça que sobe aos céus, mas em trigo triturado e amassado para ser Pão de Vida e Unidade.

Assim rezamos: “Confiante, entregou em vossas mãos seu espírito, cumprindo inteiramente vossa santa vontade, revelando-se, ao mesmo tempo, sacerdote, altar e cordeiro” (Prefácio da Páscoa, V). Cristo é o Sacerdote (o padre é ministro), Cristo é o Altar (nosso altar é instrumento), Cristo é cordeiro (nós somos comensais).

O altar, local de cura, de paz e de ação de graças

A Nova Aliança não nega a Antiga: o antigo altar torna-se imagem do novo altar que não é de pedra, mas é o próprio Senhor. Jerusalém deixa de ser uma cidade para tornar-se a Cidade.

Belém é a Casa do Pão, Jerusalém é a Cidade da Paz. O altar da Palavra e o altar da Eucaristia nos alimentam enquanto caminhamos para a casa da Paz, construída já agora pelo nosso esforço, testemunho e tornando-nos, também nós, à semelhança de Cristo, sacerdotes-altares-cordeiros para o mundo.

Então a Palavra de Deus adquire todo a sua verdade e sabor: “Ó Deus, relembramos a vossa misericórdia, no interior de vosso templo” (Sl 47, 10); “Que alegria quando me vieram dizer: Vamos subir à casa do Senhor!” (Sl 121, 1).

O altar transforma-se em leito para a recuperação dos feridos pelo pecado da violência, da injustiça e das idolatrias: “O Senhor reconstrói Jerusalém, congrega os dispersos de Israel. Ele cura os que têm o coração ferido, e pensa-lhes as chagas” (Sl 146, 2-3).

Acima de tudo, porém, o altar que reúne o povo cristão é o centro da alegria, é o impulso para que sejamos comunidades de louvor: “Louva, ó Jerusalém, o Senhor, louva o teu Deus, ó Sião (Sl 147, 3).

Pe. José Artulino Besen

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