A Transfiguração do Senhor, nossa transfiguração

 

A Transfiguração

A Transfiguração

“Ó Cristo Deus, tu te transfiguraste sobre a montanha, mostrando aos discípulos tua glória, à medida que lhes era possível contemplá-la. Também sobre nós, pecadores, deixa brilhar tua luz eterna, pelas orações da Mãe de Deus. Ó Doador da luz, glória a ti!”

 

Os Evangelhos sinóticos (Mt 17, 1-13; Mc 9, 6-8; Lc 9, 28-36) relatam a revelação ocorrida no Monte Tabor: Pedro, Tiago e João contemplam Jesus, mais brilhante do que o sol, conversando com Moisés e Elias. E, como no dia do Batismo, a voz do Pai declara “Este é o meu Filho muito amado; escutai-o”.

No século VI a festa da Transfiguração, 6 de agosto, difundiu-se por todo o Oriente e em 1457 o papa Calixto III introduziu-a no Ocidente, em agradecimento pela vitória conseguida contra os turcos. Quando Pedro pediu ao Senhor para construir tendas e residirem no monte, estava equivocado: a Transfiguração não é uma emoção para ser degustada, mas um caminho que passa pela paixão e morte; também se equivocou Calixto III, pois não foi um triunfo terreno. A Transfiguração foi um lampejo, um resplendor do reino que é Jesus: é a Luz da Páscoa, do Pentecostes, da Parusia. É o Senhor da Luz.

Naquela hora, conversando com Moisés e Elias, a Lei e os Profetas, Jesus ilumina todo o Antigo Testamento, revela o novo Êxodo (sua Paixão e Morte) e é revelado como a Luz das Nações. Pedro, Tiago e João são as testemunhas da Nova Aliança: contemplam o Cristo transfigurado e o contemplarão ressuscitado.

O Cristo do Tabor é o mesmo Jesus que peregrinava pela Palestina, o Deus feito homem, o Homem-Deus. Todos os olhos conseguiam somente contemplar o homem, mas, na Transfiguração, o Espírito transfigurou os olhos dos discípulos e eles contemplaram o Homem-Deus. Tendo seus olhos lavados pela graça, foram tomados pela energia divina.

A antiga e a nova Aliança

Conversando com Moisés e Elias, Jesus insere a antiga Aliança na nova: ele é o Mediador e a realização dos dois Testamentos. O Pai de Jesus é o Deus de Abraão, Isaac e Jacó e é o Pai do Colégio apostólico.

Freqüentemente a história nos coloca frente a contradições: o mesmo dia 6 de agosto, quando a Igreja da Nova Aliança celebra a Transfiguração é, para o povo da Antiga Aliança o dia 9 do mês de Av, quando faz memória da destruição do Templo em 586aC e em 70pC. Nossas igrejas estão iluminadas para celebrar a Luz do Tabor e as Sinagogas, ao contrário, ficam em semi-escuridão, com apenas uma vela acesa para a leitura das Lamentações. Nós nos alegramos pela Luz que nos invade, que nos transfigura, e o povo judeu chora a ausência de seu Templo e chora também todas as perseguições que sofreram por causa do ódio humano e cristão. Enquanto Cristo conversa com Moisés e Elias, nós cristãos blasfemamos contra o povo judeu, chegando à Shoah, ao Holocausto desse povo sob o nazismo.

O Cristo transfigurado é filho de Abraão segundo a carne e nós, pela Transfiguração, somos filhos de Abraão segundo o Espírito. Toda oposição e ódio negam a verdade que emana da pessoa que é a Luz dos Povos, o Senhor.

A Luz da vida e a luz da morte

A quase 100 quilômetros de Hiroshima uma jovem mãe, chegando em casa disse: “Eu vi uma grande luz!”. Parecia a voz de Isaías anunciando que o povo que andava nas trevas “viu uma grande Luz!” (cf Is ). Mas, naquele 6 de agosto de 1945 a mãe japonesa não poderia imaginar que a luz contemplada com admiração tinha acabado de matar, escalpelar, calcinar dezenas de milhares de concidadão, aquela luz – que era bela – estava derretendo uma cidade. Tinha explodido a primeira bomba atômica: a inteligência humana terminara de libertar a luz que Deus escondera na matéria para transformá-la em luz de morte, em morte. O dia da Transfiguração do Senhor, anúncio da vida nova, coincidiu com o dia da transfiguração do mal, prenúncio de tantas outras mortes.

O Cristo tabórico é o Jesus que anuncia a próxima paixão e morte por amor da humanidade, convite a cada um de nós para também nos transfigurarmos em seres iluminados pela compaixão, conduzidos pela energia divina.

Hoje, em tantas cidades, as pessoas vêem explosões de luz: mas são bombas mortíferas que primeiro clareiam o ambiente, depois estrondam para chamar a atenção e, em seguida, puxam o pano de um palco para revelar dor, morte, ruína.

Há, contudo, muito mais luzes em nossas cidades e povoados: homens, mulheres, crianças e jovens difundindo a luz da caridade, da fraternidade, aceitando morrer para que o outro não morra.

A cada dia, milhões de pessoas retornam a seus lares luminosas, transfiguradas: receberam a eucaristia, o Corpo transfigurado do Senhor. Por onde passam, brilha uma nova luz, gerada pela energia da comunhão. E, unidos, continuamos a oração:

“Ó Cristo, tu me atraíste e transformaste com o teu divino amor; queima, pois, os meus pecados na chama do fogo imaterial e enche-me de tuas delícias, para que, exultante de alegria, possa glorificar, ó Deus de bondade, as tuas duas vindas” (São João Damasceno).

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