EUCARISTIA E BELEZA

A Divina Liturgia

A Divina Liturgia

O Mestre pergunta: Onde está a sala em que eu devo comer a Páscoa com os meus discípulos? E ele vos mostrará uma grande sala no andar superior, mobiliada e pronta; fazei ali os preparativos”. (Mc 14, 14-15).

Hoje somos muito atraídos pela beleza. Bela é a Igreja em seus sacramentos e em sua liturgia. Reflexos de beleza se encontram por toda a parte, nas culturas. A beleza atrai com a força de uma nostalgia de divino o coração dos fiéis. A beleza humano-divina resplandece nas pessoas e nas obras dos Santos e Santas.

A espiritualidade litúrgica pode ser uma tradução concreta em aspectos e modos de pensar, agir, rezar, celebrar, na cultura do cotidiano, do reflexo da vontade de Deus na vida humana, da harmonia da vida.

O texto de Marcos, citado acima, narra que Jesus prepara o espaço para a Páscoa. Além disso, prepara os discípulos, lavando-lhes os pés. E, depois, no gesto sacerdotal, toma o pão e o cálice e neles se oferece pela salvação do mundo: inaugura a nova Páscoa, em que ele é o Cordeiro sem mancha.

A harmonia dos gestos do Senhor

O espaço que Jesus manda preparar é o espaço que lhe pertence, pois ele é o Senhor. A sala não pode ser qualquer sala, porque todos os atos de Jesus têm significado divino: no convite feito ele manifesta a fraternidade “em que eu devo comer com os meus discípulos?”. O eu de Jesus entrará em comunhão com os seus, a finalidade da Ceia é a comunhão. Os discípulos também são preparados: o Mestre, como sacerdote, toca seus corpos com suas mãos divino-humanas. A graça se manifesta eficaz, também para Judas, o traidor. Judas não aceitou a harmonia, a comunhão, a fraternidade.

A beleza final da Ceia são os gestos precisos do Senhor: tomou o pão em suas mãos, elevou os olhos ao Pai, deu graças e o partiu e o deu a seus discípulos, dizendo: Tomai, todos, e comei: isto é o meu corpo, que será entregue por vós.

Os mesmos gestos sacerdotais são repetidos com o Cálice.

A beleza dos gestos de Cristo não é apenas plástica: são gestos cristológicos, nos colocam diante da beleza que Cristo é. Poucas horas depois, a beleza sem fim estará revestida de pus, sangue, poeira e escarros, crucificada. Uma Beleza total, nua, que se expõe aos nossos olhos para revelar a face absoluta da beleza: o amor, a doação, a vida dada aos inimigos. João Paulo II, na Novo Millennio, nos convidava a “contemplar a beleza do Senhor na sua dor lancinante e na sua glória sem fim”. O Cristo crucificado e belo prolonga sua Beleza no corpo desfigurado dos mártires, nos seios cansados das mães que amamentaram, dos anciãos enrugados pelas vigílias, trabalhos, mas perseverantes no amor, dos operários suados e pensando naqueles que amam.

E a ordem de Cristo no final da Ceia, vale para todos os seus gestos: Fazei isto em memória de mim. Fazer somente isto, do modo como ele o fez. Como ele fez é belo: o espaço, a preparação, os gestos, a doação incondicional.

A Última Ceia nos traz às nossas ceias, espaços, gestos e doação, remete-nos às nossas liturgias: elas devem ser revestidas da mesma Beleza, da mesma simplicidade radical, para expressar os gestos salvíficos e crísticos. Qualquer tentação de pomposidade, de espaços luxuosos revela a queda na tentação do supérfluo, da expropriação para o desnecessário daquilo que é necessário aos pobres. A beleza da liturgia desaparece se acrescentarmos elementos estranhos a seu conteúdo. Devemos viver a emoção do Belo, na Liturgia, mas do Belo dos gestos de Cristo e não dos recursos humanos que desviam da Beleza sempre bela e nos distraem nas belezas transitórias e até vazias de nossos caprichos.

Os Evangelhos são de uma beleza irritante, tal sua simplicidade: qual escritor seria capaz de narrar tanto (que é tudo) com tão poucas palavras e gestos? Os artistas não se cansam de reproduzir as cenas da vida do Senhor, mas nunca se dão por satisfeitos, pois um pincel, um poema, uma partitura, um mármore são incapazes de esgotar a profundidade do divino. Há um segredo na beleza divina da Liturgia: cada gesto é verdadeiro, cada palavra é verdadeira. Bela é a verdade!

E tudo isso nos é oferecido nos Sacramentos, tão singelos e tão belos, tão frágeis e tão poderosos.

Viver a beleza da Graça

“Manifestou-se a graça de Deus, portadora de salvação para todos os homens” (Tt 2,11). Jesus é a graça de Deus, a beleza infinita do Pai que, pelo Espírito Santo, faz-nos possuir a mesma beleza. A graça é bela: Deus é belo. A eucaristia é bela porque celebra os gestos do Pai, do Filho e do Espírito Santo, Beleza eterna. O tempo e as festas litúrgicas – Anunciação, Natal, Páscoa, Ascensão, Pentecostes, Corpus Christi, Imaculada Conceição, Assunção de Maria, festas dos Santos – nos seus rituais e conteúdos revestem-se da mais pura beleza porque narram a vida divina em si e em nós. Uma beleza tão intensa e generosa que apaga a deformidade causada por nossos pecados.

É bela a comunhão que o Espírito Santo realiza entre o céu e a terra e entre nós; é bela a comunidade de irmãos com os braços erguidos ao céu reconhecendo a presença do Pai; é bela a procissão da comunhão: crianças, jovens, adultos, anciãos, todos refletindo na face a Luz daquele que comungaram. Neste momento em que o Senhor é tudo em todos, a beleza atinge seu mais alto estágio de verdade aqui na terra, restando-nos somente desejar a beleza última, a comunhão final com o Deus Trindade.

A beleza é o reflexo da vida em Deus. É também uma dimensão da espiritualidade: a beleza da Liturgia exerce uma poderosa atração para que cada vez mais desejemos entrar definitivamente em comunhão com o nosso Deus, razão de nossa existência.

, , ,

%d blogueiros gostam disto: