A ASCENSÃO DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO

ascensãoO triunfo do Salvador que, com seu corpo glorificado volta ao céu para sentar-se à direita do Pai, era celebrado em Jerusalém com grande solenidade desde a mais remota antiguidade. Encontramos testemunhos num fragmento de Eusébio († 325) e no relato vivaz da peregrina Etéria. O Monte das Oliveiras em Jerusalém, onde se realizou o evento, já de per si convidava a uma comemoração festiva, que bem cedo se estendeu às demais Igrejas.

Jesus reassume a eterna glória

O céu é símbolo da habitação da divindade, não é um lugar de onde se saiu mas, um estado em que se entra. Na “subida” de Jesus ao céu a Igreja celebra a saída de Jesus do espaço humano para ingressar na plenitude da glória de Deus, a que renunciara pela Encarnação (cf. Fl 2, 5-7). Como no Natal, rompem-se os muros entre o céu e a terra, e os homens e anjos cantam juntos a vitória do Senhor.

Na Encarnação, Jesus assumiu toda a condição humana, assumiu para si as fragilidades das criaturas e da criação. Agora, ressuscitado e vitorioso, ele ingressa na glória com a natureza humana transfigurada. Nós subimos ao céu com ele, porque ele assumiu não uma natureza humana, mas a natureza humana e a transformou dando-lhe condição divina: ele agora está conosco, e nós com ele, na glória da Trindade. Transfigurado pela ressurreição, Cristo encheu todo o universo com sua presença: “Quando eu for elevado da terra, atrairei a mim tudo” (Jo 12,32). Tudo está nele e ele permanece em tudo. A Ascensão não é um afastamento e sim, a presença do Senhor visível ao olhar humano transformada em presença cósmica que pode ser contemplada somente pelos olhos transfigurados pelo Espírito.

Por essa razão, a Ascensão é alegria e festa. Os discípulos e Maria tinham consciência de que Jesus deveria partir para enviar-lhes o Espírito Santo: à medida que Cristo subia, descia o Espírito, se realizava já um Pentecostes. E Espírito, que neste momento é enviado, revela aos apóstolos e a Maria, imagem da Igreja, que toda a ação cristã recebe uma orientação própria: o retorno de Cristo. O Cristo arrebatado aos céus voltará do mesmo modo que foi visto subir (cf. At 1,11), anunciam os anjos e anuncia a Igreja até a consumação da história.

Sentado à direita do Pai, com ele se torna fonte do rio da vida (cf. Jo 3,14). Ao contrário do que seria um desaparecimento, a Ascensão é o início das inúmeras aparições e vindas de Cristo na Liturgia. Cristo torna-se o rio pelo qual nos chega a água viva que mata a sede de vida eterna, que dá sentido à nossa existência. A cada celebração da Eucaristia a Igreja celebra a vinda-retorno de Cristo e pede que ele venha: “Vem, Senhor Jesus! Maranatha!” (Apoc 22,20). Ele foi preparar-nos um lugar e ansiamos por habitar essa morada eterna.

Cristo, aquele que está próximo de nós

O Senhor levou consigo nossa humanidade, já redimida, mas ainda ferida. Levou consigo nossas chagas, aproximou-nos plenamente de Deus para “dar início ao início”, na expressão de São Gregório de Nissa: levou consigo os famintos, os sedentos, os nus, os prisioneiros, os peregrinos, para introduzi-los sempre mais no mundo novo dos ressuscitados. É junto dele e nele que nós vemos os famintos e lhes damos de comer, vemos os nus e os revestimos (cf. Mt 25, 31-46).

Com a Ascensão, tornam-se possíveis os dois sacramentos: o do altar – no Pão, Cristo nos recebe através de sua natureza humana glorificada, e nós o recebemos através de nossa natureza divinizada; o do irmão – tudo o que fazemos a Cristo fazemos ao irmão, e tudo o que fazemos ao irmão, a Cristo estamos fazendo. O Lava-pés e a Eucaristia sobem e descem do Trono do Pai.

Maria, a mulher realização da Igreja

Os ícones da Igreja oriental sempre põem a Theotokos, a Mãe de Deus, no centro do mistério da Ascensão. Naquela hora ela duplamente simboliza a Igreja: por estar reunida com os discípulos e por ver a Carne dela nascida, cabeça da Igreja, ingressar no mistério divino. Nesse momento, imagem da Igreja, o ventre de Maria abriga Deus e o cosmos, e Deus e o cosmos abrigam Maria, a Toda Santa (Panaghia). De mãos erguidas, no gesto da orante, Maria é o centro moral da Igreja. Seu sim chegou à realização: nós estamos em Deus, Deus está em nós. Cantamos, então, com Efrém o Sírio, apelidado de Harpa do Espírito Santo:

Seja bendito aquele que mora em nós! Bendita seja a sua vitória! Maria o carregou como lactante, o sacerdote o carregou como uma oferta, a cruz o carregou como um supliciado, os céus o carregaram como Deus.

Bendita seja essa união! Para nós, o seu nascimento é purificação, o seu batismo é nosso perdão, a sua morte nossa vida, a sua ascensão nossa exaltação! (Hinos da Ressurreição, I).

Pe. José Artulino Besen

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