Reflexões para uma Espiritualidade Eucarística

“Séculos passarão e a humanidade proclamará pela boca de seus sábios e de seus intelectuais que não há crimes e, por conseguinte, não há pecado, só há famintos.
Nutre-os e então exige deles que sejam virtuosos!”

São palavras proferidas pelo Grande Inquisidor de Dostoievski, no Os Irmãos Karamazov, referindo-se à primeira tentação de Cristo: “Transforma essas pedras em pães”. Mas, podemos dar pão a todos e, no final, estaremos diante da mesma multidão saciada gritando: “Temos fome!”. Há um Pão que sacia essa fome.

Um pouco de história

Ao analisarmos a vida interna da Igreja devemos ter presente um fato que revolveu profundamente sua estrutura organizacional e espiritual: a invasão dos povos “bárbaros”, especialmente os germânicos/francos e a queda do Império romano do Ocidente em 446. No momento em que os quatro Concílios ecumênicos (Nicéia, Constantinopla, Éfeso, Calcedônia) e os Pais da Igreja tinham desenvolvido uma extraordinária obra teológica de explicitação do mistério cristão, o Ocidente viu-se “invadido” por povos na maior parte pagãos ou arianistas (caso de alguns grupos germânicos).

O primeiro momento foi de espanto: como tinha sido possível que Paulo e Paulo não defendessem a sagrada Roma contra os invasores? O que fazer com esses novos povos, ainda organizados em tribos?

Logo se viu que o caminho era um novo lance missionário, no qual a Igreja pôde colher os melhores frutos.

Mas, surgiram problemas que afetariam a vivência cristã pelos séculos seguintes, alguns até nossos dias: os bárbaros eram extremamente sensíveis e supersticiosos. Sua visão de Deus era a de um General poderoso (Drochtin), Cristo seria um Chefe exigente, um Duque militar. Para a fé singela dos bárbaros, as relações do crente com Deus equivaliam às do súdito com o rei: deveu, pagou, pagou, não deve mais. Deste modo, o sistema penitencial passou a ser visto como tarifa: um pecado tem um preço (jejum, oração, açoite, dinheiro): Deus exige o pagamento e, com ele, o homem torna-se credor. O perigo era imenso: esquecer que tudo o que vem de Deus é graça, pura graça e não pagamento. Certa visão de promessas e indulgências tinham esse fundamento: a salvação de uma alma tem preço: pagou, está salva. Sabemos em que deu isso no século XVI: na Reforma protestante.

Naturalmente que a religiosidade humana inclui gestos exteriores, mas que devem sempre mais crescer em interioridade. Surge então a pergunta: como a Igreja absorveu esta função nos diversos tempos e povos?

O desenvolvimento durante os primeiros séculos da história da Igreja demonstrou claramente que uma exagerada espiritualização (uma interioridade presumivelmente pura, unilateral) era também um perigo para a pureza da pregação. A luta da Igreja contra a gnose (a salvação pelo conhecimento), seu afirmar a verdadeira encarnação do Filho, a santidade do crente como vaso do Espírito Santo, a doutrina da força objetiva dos sacramentos, tudo isso nos levava ao equilíbrio.

Os pagãos realizavam libações (banquetes) sobre os túmulos, para alimentar os mortos. A Igreja procurou vencer esta cerimônia pagã: com a celebração da Ceia eucarística sobre o túmulo dos mártires, estabelecia uma espécie de união sacra entre o único sacrifício e sacrificante Jesus Cristo e as relíquias dos confessores da fé. Espontaneamente nascia um certo culto no local onde mártires estavam sepultados, especialmente no local onde se celebrava o sacrifício eucarístico. Assim as igrejas, mesmo fora das solenidades de culto, se tornaram lugares sagrados e venerandos. Pode-se dizer que a interioridade neotestamentária, fielmente conservada, vai provocando uma forma mais concreta e palpável de se exteriorizar. As tendências a concepções monofisitas, quer claras quer ocultas, representavam uma importantíssima concorrência, mas não em condições de confundir ou frear a tendência principal.

O problema adquire importância muito maior, no século IV, quando o Cristianismo adquiriu liberdade e grandes massas acorreram à Igreja, e mais ainda com as conversões coletivas dos germanos, a que estamos nos referindo.

A missa e o culto aos santos

A missa sempre foi o centro do culto católico, mas sua essência e valor não foram sempre reconhecidos como hoje. No início da Idade Média, não era celebrada diariamente. Começou mais tarde a cristianização da vida ferial. Na baixa Idade Média e na Idade moderna a excessiva multiplicação das missas teve conseqüências ainda mais funestas.

É importante notar que a devoção à missa demonstra uma forte e perigosa dependência do culto às relíquias e aos santos. A presença de Deus nos santos operadores de milagres entrou numa certa concorrência com a presença de Cristo na missa. À imediata intervenção divina no culto dos santos era contraposto o escondimento sacramental de Cristo sob as espécies do pão e do vinho. Os santos e suas relíquias se transformaram no socorro imediato às necessidades da vida, enquanto que a eficácia visível da missa era transferida para o além, para o invisível. Para a vida presente, os santos; para a salvação eterna, a missa. Assim, o pensamento de salvação da própria alma e da salvação dos membros da mesma tribo permaneceu, por séculos, o motivo dominante da devoção da missa (e, podemos afirmar, até hoje). O sugestivo pensamento da morte tornava a missa um meio ardentemente desejado e motivo da fundação de numerosos mosteiros e igrejas.

Também as sepulturas dentro das igrejas e vizinhanças possuíam a mesma motivação: participar dos sufrágios das missas ali celebradas após a morte. Com relação a isso surgem ásperas polêmicas (financeiras) entre o clero secular e os monges: o povo preferia confiar a estes suas preocupações com o além.

O interesse se volta mais para a eficácia da missa e para a presença real de Cristo, cuja super-acentuação acabou absorvendo a unidade indissolúvel entre sacrifício e sacramento do altar.

A devoção à Hóstia e a coisificação da missa

A devoção à Hóstia consagrada conheceu um progresso visível. Em algumas regiões, como na Inglaterra, era muito comum o costume de guardar a Hóstia numa píxide suspensa diante do altar-mor: a vista do vaso sagrado devia excitar a devoção de todos os que entravam na igreja. No século XII, a elevação da Hóstia na hora da consagração tornou-se usual e passou a ser considerada o momento mais importante da missa. Ver a elevação era igual a participar da missa e davam-se ofertas aos padres que erguessem a Hóstia por mais tempo. Quanto mais próximas as igrejas, mais prático para assistir a diversas missas, isto é, ver mais Hóstias elevadas.

A adoração pública da Hóstia foi uma conseqüência natural. A solene procissão de Corpus Christi foi introduzida em meados do século XIII (com a liturgia composta por Tomás de Aquino), após diversos milagres de hóstias sanguinantes, como em Bolsena, Cássia, Ofida, …

A recepção da comunhão pelos leigos era agora menos freqüente que em épocas anteriores. Enquanto que na Nortúmbria de Beda era comum a comunhão freqüente e a Regularis Concordia do século X exortava os monges à comunhão diária, as Constituições primitivas dos cistercienses prescreviam a comunhão semanal, aos domingos, aos monges que não eram sacerdotes, mas aos irmãos leigos somente se permitia a comunhão sete vezes ao ano.

A clericalização da vida monástica

A vida monástica passou por uma transformação não positiva: quando perguntaram a Santo Antão, o fundador dos monges, o que eles eram, sua resposta foi definitiva: Nós somos leigos sem importância. O monge é um leigo que vive uma solidão povoada por Deus e por sua comunidade. O Oriente não conhece congregações monásticas: basta ser monge, monja. Já o Ocidente, apesar de sempre fecundado pela espiritualidade monástica oriental, começou a ter fundações de ordens e congregações. Mas, eram leigos, alguns sendo ordenados para a presidência da eucaristia e para a confissão.

Com a concepção de missa como “oração pelos mortos”, cada vez mais monges são ordenados padres para darem conta das “encomendas” feita pelo povo, algumas encomendas perpétuas, para garantir a salvação do doador da espórtula. Assim, o monge deixa de ser um importantíssimo “leigo sem importância” para se tornar um padre rezador de missas.

A partir do século X, com Cluny, deu-se um passo ulterior: em linhas gerais, há muito se tinha perdido ou desvalorizado a Concelebração eucarística. Agora era cada missa um padre, ou um bispo e surgem os altares laterais onde simultaneamente são celebradas as missas. Em alguns mosteiros há quase uma dezena de missas celebradas ao mesmo tempo em altares diferentes, pois era grande o número de encomendas.

O preço disso: perdeu-se o sentido do altar em torno qual a igreja é construída. Assim, perdeu-se também o eixo da igreja e constroem-se altares sempre mais belos e decorados com muitos santos. O altar integra o conjunto decorativo da construção. E agora são os altares. As nossas igrejas guardam essa lembrança, com os altares laterais concorrendo com o altar, pois neles estão os santos, os poderosos intercessores.

A Concelebração foi reconquistada na reforma litúrgica do Vaticano II, talvez até com certo exagero que prejudica seu sentido, quando todos os padres presentes concelebram. Perde-se o sentido de Igreja local.

Milagre – Mistério – Autoridade

Característica do gênio romano é a clareza, a determinação formal da realidade. A partir do século VIII, com o distanciamento crescente entre o Oriente e o Ocidente, a teologia ocidental foi perdendo sua linfa vital, dada pelos Pais orientais. Gostando-se ou não, tanto a teologia como a vida religiosa sempre se renovam no confronto com o Pulmão oriental. Foi no Oriente que se formulou o dogma trinitário e o cristológico; foram no Oriente os sete Concílios ecumênicos.

O Ocidente se preocupou mais com a organização, a instituição, a lei, características romanas. Com honrosas exceções, o Ocidente não teve grande interesse pelo dogma: sua preocupação maior foi a moral. Enquanto isso, o povo oriental, animado pelos monges e bispos, formava partidos durante os Concílios, garantindo assim a fé ortodoxa. Difícil imaginar o Ocidente romano organizando uma torcida “dogmática”. Quando isso aconteceu, por ocasião da Reforma, o problema central era moral, a salvação, o pecado.

Quem e quando na Missa

Ele está no meio de nós!

Fruto da “clareza” romana e de um longo caminho trilhado na alta e baixa Idade Média, a partir da Escolástica, a eucaristia foi sempre mais refletida em torno da pergunta “Em que momento acontece a transubstanciação, o milagre do pão que não é mais pão, do vinho que não é mais vinho?”. Respondida essa pergunta, surgia a outra: “Quem tem poder para realizar esse milagre?”.

Para a segunda pergunta, a resposta era evidente: detinha o poder da consagração quem era ordenado padre ou bispo. E a transubstanciação acontecia no exato instante em que o padre terminasse de proferir: Hoc est enim corpus meum – Isto é o meu corpo. Chegou-se a afirmar que o padre, mesmo fora da celebração da missa, pronunciando essas palavras sobre um pedaço de pão, realizaria o milagre da consagração.

Nesse tipo de raciocínio teológico, o milagre estava unido à autoridade e a autoridade se legitimava pelo milagre: se a pessoa certa diz a palavra certa, não há dúvidas, o milagre aconteceu.

Pedro Lombardo (+1160), o pai da Escolástica, na sua doutrina sobre a eucaristia cita Ambrósio (+397), manipulando, porém, o texto do bispo lombardo. Na doutrina de Santo Ambrósio [1], quando responde à pergunta “como se consagra com as palavras celestes”, ele coloca o mistério dentro da epíclese do Espírito Santo, das palavras de Cristo e da anamnese.

Pedro Lombardo, citando Ambrósio, trunca as palavras a seu gosto, passando a impressão de que cita o grande Pai da Igreja. Por quê? Era claro para a teologia da época, e que chegou até o Vaticano II, a identificação entre eucaristia e Ceia: a consagração aconteceria, então, pura e simplesmente, com a repetição das palavras de Cristo na Ceia. As palavras de Pedro Lombardo[2]: “Ao serem proferidas as palavras Isto é o meu Corpo e, depois, Este é o meu sangue, acontece a mudança do pão e do vinho na substância do corpo e do sangue de Cristo”.

As outras partes da missa, anteriores ou posteriores, eram nada mais do que uma seqüência de orações eclesiásticas, que os católicos continuaram a proferir por um indiscutível apego afetivo ao Cânon romano. Mas tudo já estava resolvido na narração da Ceia. Evidente que Pedro Lombardo levava às últimas conseqüências uma doutrina que já estava afirmada desde Pascásio Radberto (+ 856).

A partir do século XII, correntes teológicas afirmavam que no momento da consagração/elevação quem contemplasse o Pão consagrado já participava, de certo modo, do sacramento, uma espécie já de comunhão. Estranho que o grande liturgista J. A. Jungmann considerasse tal afirmação como digna de crédito nos albores da reforma litúrgica [3].

Aqui a teologia eucarística tornou-se uma espécie de teologia jurídica, uma casuística buscando o milagre do pequeno pedaço de pão que se transubstanciava, muito distante da prática da Igreja e ainda conservada na Liturgia do Oriente. Ainda no século IV, e em alguns lugares avançando mais no tempo, tanto no Oriente como no Ocidente se considerava consecratória toda a grande oração eucarística, mesmo se em ambas as tradições eclesiais se atribuía um significado decisivo às palavras explicativas no contexto global [4]. Podemos avançar mais ainda na afirmação: houve e há orações eucarísticas sem as palavras da instituição para a consagração. A mais conhecida é a antiqüíssima anáfora de Addai e Mari, da Igreja caldéia e da Igreja assíria do Oriente. Para surpresa de muitos, em 17 de janeiro de 2001 a Congregação para a Doutrina da Fé reconheceu-a válida, com a explícita aprovação do Papa. Assim foi aprovada a inter-comunhão entre a Igreja caldéia e a Igreja assíria do Oriente [5]. A anáfora não inclui a narração da Ceia, que se encontra meditada durante a oração.

Lembramos aqui a ação fundamental que é a epíclese (invocação do Espírito Santo), para que as palavras da Ceia sejam consecratórias. Na Liturgia ocidental, a epíclese precede a narração da Ceia e, na Liturgia de São Basílio, é posterior à narração (foi este um motivo forte para que na reforma litúrgica não se adotasse essa anáfora na Igreja latina, o que foi lamentado por muitos liturgistas). Não há palavras mágicas na oração eucarística: há, sim, a ação do Espírito Santo, o consagrador.

A missa dividida em partes

Além das perguntas “quem” e “quando” na missa a respeito da transubstanciação, houve outra preocupação pela exatidão: em quantas partes se divide a missa? quando se cumpre o dever dominical?

A resposta era clara: a missa se divide em três partes: ofertório, consagração e comunhão. Cumpre o dever dominical quem chegar ao menos no ofertório e sair após o padre comungar. Tudo o mais, o “resto”, são cerimônias.

É flagrante, neste tipo de teologia, a desvalorização da Palavra de Deus, imprescindível em todos os sacramentos. Nas controvérsias pós-reforma protestante, era importante salientar que a missa era memorial, sacrifício e comunhão, que a missa era sacrifício incruento, repetição do Calvário. A Bíblia não recebia o estatuto necessário para dar eficácia à ação sacramental.

Graças à reflexão teológica, à reforma do Vaticano II, hoje temos uma clareza maior sobre esse que é o mistério da fé. A missa não é dividida em partes, muito menos partes mais ou menos importantes. Se nos perguntarem o que constitui a eucaristia, nós responderemos que é a eucaristia. A finalidade da eucaristia (ação de graças) é a eucaristia (ação de graças). Saímos dos compromissos com o tempo e ingressamos no mistério da eternidade. Deixamos o campo do interesse para mergulhar no abismo da gratuidade.

União liturgia-espiritualidade-teologia

Evágrio Pôntico (+499), Pai do deserto e mestre de espiritualidade, afirmava: Se és teólogo, és santo; se és santo, és teólogo. Se oras, és teólogo; se és teólogo, oras.

Anos atrás, numa palestra, o arcebispo de Mariana, Dom Luciano Mendes de Almeida, comentava que uma das causas da crise da teologia atual é que os teólogos transformaram a teologia em “logos”, em palavra de reflexão e se esqueceram de ser santos, causa necessária para uma verdadeira teologia. Quem não busca a santidade não consegue penetrar na riqueza do mistério divino: pode fazer altíssima reflexão, mas não palavra sobre Deus.

O Oriente nunca pensou em separar essas três realidades da vida cristã: liturgia-espiritualidade-teologia. Se pensou, condenou como gnose. Não é mera coincidência que os grandes Pais da Igreja (Basílio, Atanásio, Cirilo, Gregório, João Crisóstomo, Agostinho) tenham sido santos e liturgos.

Outro aspecto que a cada dia mais se acentua é a necessidade de a Liturgia ser libertada dos cerimoniários e ser fonte da reflexão teológica. Chega-se a confundir expert em cerimônias com liturgista. Os ritos ocultam e manifestam os mistérios e não dependem da perfeição estético-gestual com que são realizados.

Com facilidade afirmamos que a eucaristia é a fonte e o ápice da vida da Igreja: deve ser, por conseguinte, a fonte e o ápice da reflexão do teólogo. Muitas das carências sentidas nas nossas assembléias têm origem no desamparo a que os teólogos relegaram a Liturgia, separando Liturgia dos Sacramentos e Teologia dos Sacramentos, a primeira sendo vista como um conjunto de conceitos interessantes para os mestres de cerimônias.

Uma conseqüência disso foi a separação das disciplinas teológicas Eclesiologia e Eucaristia. Se a Eucaristia é o ápice e a fonte da Igreja, pode haver uma Eclesiologia que não seja eucarística? Isso pode explicar o fato de algumas teologias confundirem a Igreja com uma entidade humana. Na Patrística sempre se julgou ousadia querer definir a Igreja, pois ela é Mistério, não cabendo, desse modo, numa conceituação formal, tipo sociedade perfeita em comunhão com o papa e os bispos. Mas admitiam uma expressão para explicar a Igreja: a eucaristia, união do Deus Trino com o Povo sacerdotal e nação santa.

Para a Ortodoxia, a teologia é reflexão sobre o Mistério que se manifesta em cada Liturgia, de modo todo próprio na eucaristia.

Celebração do mistério pascal

A eucaristia é a celebração do mistério pascal e sua instituição e celebração estão indissoluvelmente ligadas à Paixão, Morte, Ressurreição e Ascensão gloriosa do Senhor. Ao apresentar o pão e o cálice, o Senhor ligou a Ceia com sua Paixão-Morte-Ressurreição-Ascensão: “…isto é o meu Corpo que será entregue”… “o Sangue que será derramado”. E conclui: “Fazei isto em memória de mim”.

Em seguida, na anamnese, a assembléia proclama: “Anunciamos, Senhor, a vossa morte e proclamamos a vossa ressurreição”. Cada eucaristia é Páscoa. Nossa tradição litúrgica, por ser bastante devocional, identifica a Páscoa com o dia da Páscoa, enquanto que ela é, na verdade, os 50 dias que vão da Ceia até o Pentecostes: este é o mistério pascal, possível de ser celebrado porque o Cristo nos envia o Espírito Santo.

É a Páscoa que nos transferiu do Sábado para o Domingo – Dies Dominica – o Dia do Senhor, primeiro dia da criação renovada. As primeiras comunidades cristãs celebravam a eucaristia somente na noite de sábado e aos domingos, mantendo, deste modo, o nexo com o mistério pascal.

Com o tempo, refletindo que todo dia é dia Pascal, a Igreja do Ocidente passou a celebrá-la diariamente, enquanto que o Oriente permanece com a celebração dominical.

Também ligada ao mistério pascal está a discussão do pão e do Aleluia. Os orientais, lembrando que Cristo ressuscitou, usam pão fermentado: a ressurreição é o novo fermento de libertação; já nós, ocidentais, continuamos com a tradição judaica do pão sem fermento, simbolizando que a libertação foi dada, mas ainda não está completa em nós (e porque identificamos eucaristia com Ceia).

Os orientais não deixam de cantar o “Aleluia” na quaresma, simbolizando que todo o tempo até a Parusia é tempo da presença do Ressuscitado; os ocidentais suprimem o “Aleluia” na quaresma, querendo espiritualmente preparar-se para o grande Aleluia da Vigília pascal. Essas diferenças, que podem até parecer discussões estéreis, encerram exatamente a importância da ligação entre eucaristia e mistério pascal.

Eis o mistério da fé!, proclama o presidente da celebração, chamando a nossa atenção que a fé cristã vem do Senhor que dá seu Corpo e seu Sangue para que possamos ter vida com Ele: o mistério é a nossa salvação dada por Cristo e misticamente celebrada em cada eucaristia.

Palavra-Sacramento

A Liturgia da Palavra é condição para a Liturgia eucarística: como crer se não nos é anunciado? Narra uma legenda dos Pais do Deserto que, certa vez, Deus julgou que os cristãos tinham recebido mais do que podiam acolher: a Bíblia e a Eucaristia. Chamou, então, um ancião marcado pela santidade e pela sabedoria e ordenou que ele fizesse uma escolha em nome da humanidade: ficaria com a Bíblia ou com a Eucaristia? O ancião não titubeou e respondeu: Ficamos com a Bíblia! E Deus sentiu-se derrotado, porque ficando com a Bíblia a humanidade permanecia com a Eucaristia. Se a escolha fosse a Eucaristia, essa deixaria de existir, porque não há o altar da Celebração sem o altar da Palavra.

Durante a Celebração, é Deus que nos fala, desperta em nós a fé e a capacidade de apresentar as oferendas. Se não houver uma espiritualidade sacramental da Palavra teremos uma assembléia que não entende a Palavra, porque mal proclamada e, por isso, não é despertada para a fé. O leitor da Palavra de Deus é boca de Deus a serviço do povo reunido.

Achar que não é necessário para a validade do sacramento a Palavra de Deus significa colocar a Palavra de Deus entre tantas coisas descartáveis que temos e permanecer no devocionismo mágico de uma Consagração que nos é suficiente e desperta em nós a emoção do milagre. Deus nos fala porque precisamos ouvi-lo para conhecer e celebrar o Mistério pascal.

 O Espírito Santo, gerador da comunhão

«Eucaristia» (miniatura de um livro de oração do séc. XV)

A eucaristia celebra o mistério pascal realizado no Filho, é ação de graças dirigida ao Pai e é obra do Espírito Santo. Já o Sinal-da-cruz inicial nos coloca diante do mistério do Deus Trindade e nos introduz na tríplice ação divina da criação, salvação e santificação.

O Espírito Santo é o artista da Liturgia. Sem ele tudo permanece como um bloco de mármore à espera do cinzel do escultor. É ele que inspira a contrição pelo pecado, é ele que nos abre o entendimento para a Palavra, é ele que santifica as oferendas do pão e do vinho.

Em cada sacramento há uma epíclese, imposição das mãos invocando o Espírito. Na eucaristia, porém, há uma dúplice epíclese: invoca-se o Espírito Santo para que o pão e o vinho de tornem Corpo e Sangue do Senhor, e invoca-se o Espírito Santo para que o povo comungante seja reunido num nó corpo.

Na liturgia da Igreja latina as epícleses são distintas: antes e depois da consagração. Assim reza na Oração eucarística II: (antes da consagração) “Santificai, pois, estas oferendas, derramando sobre elas o vosso Espírito, a fim de que se tornem para nós o Corpo e o Sangue de Jesus Cristo, vosso Filho e Senhor nosso”. Depois da consagração: “E nós vos suplicamos que, participando do Corpo e Sangue de Cristo, sejamos reunidos pelo Espírito Santo num só corpo”. Todas as Orações eucarísticas conservam, evidente, essa dupla epíclese: os que comungam somente serão um só corpo pela ação do Espírito.

Na liturgia oriental, há uma só epíclese, posterior às palavras da Narração, conforme já vimos, mas com a dupla invocação, como podemos ver na Anáfora de São João Crisóstomo: “… e te invocamos, pedimos e suplicamos: manda o teu Espírito Santo sobre nós e sobre estes dons a ti oferecidos. E torna este pão o precioso corpo de teu Cristo transformando-o com o teu Espírito Santo. Amém. Isso que está neste cálice torna-o precioso sangue do teu Cristo transformando-o com o teu Espírito Santo”. E na Anáfora bizantina de São Basílio Magno: “… te pedimos e te invocamos, Santo dos santos, pelo beneplácito de tua bondade, para que venha o teu Espírito Santo sobre nós e sobre estes dons que estão diante de ti….”.

O mistério da comunhão eucarística gera, pelo Espírito, a comunhão eclesial. Não comungo para mim (devoção privada), mas comungo para formar um só corpo com toda a Igreja.

Ao se levar a comunhão aos doentes, eles estão participando da liturgia eucarística na qual o Pão foi consagrado. Não há Hóstia sem eucaristia, a adoração é também eucarística. Vencer uma tentação, historicamente alimentada, de fazer da Hóstia um objeto devocional. O Cristo comungado, pela ação do Espírito, cria comunhão.

Eucaristia – sustento e remédio

Afirma Santo Ambrósio [6]: “Escutas dizer que cada vez que é oferecido o sacrifício, através do sinal é anunciada a morte do Senhor, a ressurreição do Senhor, a ascensão do Senhor e a remissão dos pecados; por acaso não recebes diariamente este pão de vida? Quem tem uma ferida (vulnus), procura o remédio (medicina). A ferida é que estamos sob o pecado; o remédio é o celeste e venerável sacramento”. A Eucaristia/Comunhão, reza a liturgia latina, é “sustento e remédio para nossa vida” e suplicamos que não seja motivo de juízo e condenação.

O livro do Apocalipse nos fala desta “cura” universal aos nos revelar a liturgia eterna: “Ele mostrou-me depois um rio de água da vida, brilhante como cristal, que jorrava do trono de Deus e do Cordeiro. No meio da praça da cidade e dos dois braços do rio, há uma árvore de vida que frutifica doze vezes. Cada mês ela dá seu fruto, e sua folhagem serve para a cura das nações. Não haverá mais maldição. O trono de Deus e do Cordeiro estará na cidade e seus servos lhe prestarão culto: verão sua face, e seu nome estará sobre suas frontes. Não haverá mais noite, ninguém mais precisará de luz da lâmpada nem da luz do sol, porque o Senhor Deus difundirá sobre eles a sua luz, e reinarão pelos séculos dos séculos” (Apc 22,1-5).

Fome e sede expressam nosso impulso fundamental à sobrevivência, representam a dimensão fundamental da corporeidade: Fome/pão/Pão consagrado – Sede/vinho/Vinho consagrado. Quando Jesus apresenta o pão, dizendo “Isto é o meu Corpo que será entregue por vós”, estabelece a comunhão como Pão-para, dimensão relacional. Ao comungarmos, permanece a relação: “como deste Pão para”. Se perco a dimensão relacional, deixo de celebrar a eucaristia com Cristo e passo a celebrá-la para mim mesmo, o que é blasfemo. A interpretação bíblica do texto de Paulo na 1Cor 11,27 explica deste modo o sentido do “comungar indignamente”, causa de juízo e condenação: é vir para a Ceia de barriga cheia, ou encher a barriga antes de os outros chegarem. Não comunga Jesus Cristo quem não aceita participar de sua pró-existência no interior da comunidade e no cuidado com os pobres e doentes [7]. A eucaristia é antídoto ao egoísmo e, simultaneamente, é vedada ao egoísta.

Tensão escatológica

“Eu sou o pão da vida. Se alguém comer deste pão viverá eternamente. O pão que eu darei é a minha carne para a vida do mundo” (Jo 6, 51).

Um dado presente única e exclusivamente no cristianismo é a espera da vinda de Cristo na glória para inaugurar o reino de Deus através do juízo. Toda a história está marcada por um fim bem determinado: a vinda definitiva do Senhor, a realização plena de sua ação salvífica.

Se reduzirmos a história à ação humana aqui e agora, fechada no tempo e no espaço, construímos uma cidade auto-suficiente, onde o que conta é a nossa competência/disponibilidade e a única medida é somente o próprio eu e suas vontades, como afirmou o Cardeal Ratzinger antes de ser eleito papa. Mas nós esperamos “o mundo que há de vir”, numa dupla dimensão: há de vir com a segunda vinda do Senhor e há de vir com a consumação da história do Reino definitivo. Comendo o Pão recebemos a vida e pedimos para receber a Vida, numa tensão contínua entre o já e o ainda não.

O mistério da Igreja visível e terrena é de ordem escatológica. Sua verdadeira natureza terrena somente pode ser percebida mediante um olhar ao seu fim último ou, melhor, a partir do fim ultimo. A meta do mistério da Igreja é a ressurreição da carne, que tem início com a regeneração batismal que orienta o olhar dos fiéis à “última e primeira verdade”. A ressurreição da carne é a explicação última do mistério em Cristo e na Igreja [8]. A eucaristia/Igreja expressam essa verdade: “Anunciamos, Senhor, a vossa morte, e proclamamos a vossa ressurreição. Vinde, Senhor Jesus! Maranathá!”.

Vivemos numa tensão feliz porque conduzida pela esperança: “O Senhor veio! Vinde, Senhor!” Ele está no meio de nós, mas o convidamos a visitar-nos novamente, nós o amamos e pedimos que aconteça logo sua vinda definitiva.

Foi esse o tema da pregação do Cardeal Martini, por ocasião de seus 25 anos de episcopado, na catedral de Milão (maio/2005): nós temos sede de Deus, fome de ver a face de Jesus Cristo, e também desejo do julgamento: “que este reino venha em sua realidade definitiva, e então tudo será claro, tudo aparecerá transparente”.

A tensão escatológica não produz alienação, perigo que envolveu algumas primeiras comunidades que, esperando logo o Senhor, cruzaram os braços. Pelo contrário, traduz-se em compromisso: queremos que o Senhor encontre o mundo transformado num jardim, que veja mais belas a face de todos os irmãos. Ele virá, temos certeza, e a eucaristia é o alimento nesta expectativa feliz.

Eucaristia e Ecologia

Os dons que apresentamos no início da Liturgia eucarística não devem ser vistos como provisórios, em vista da consagração, mas devem fazer sentir a interação natureza/trabalho do homem/obra de Deus. Os três intervêm na ação eucarística.

Retomando 1Cor 11,27 (comer e beber indignamente), quando, na Apresentação das Oferendas, bendizemos Deus Pai pelos frutos da terra e do trabalho do ser humano, agradecemos a Deus por não termos feito deles um uso egoístico, depredador. E podemos bendizer se isso for verdade, se o fruto do meu trabalho é fruto para a nossa vida e a vida do mundo. Retornamos ao Paraíso e Deus nos confia a criação para que sejamos “senhor” dela, administradores e construtores e não predadores dela em nosso proveito. O senhor da casa guarda-a com diligência, embeleza-a para que os hóspedes sintam-se bem. Deste modo, os frutos da terra e do trabalho, simbolizados no pão e no vinho apresentados, incluem nosso senhorio sobre a criação e nossa prestação de contas a respeito de seu uso.

No momento em que a comunidade responde “Bendito seja Deus para sempre” ela assume função sacerdotal, apresentando sua oferta. Os dois “Benditos” se referem ao que recebemos da bondade divina e que são, ao mesmo tempo, fruto do trabalho do homem e da mulher, o pão e o vinho. A eucaristia nos leva a tomar consciência, nesta hora da celebração, de que tudo é nosso e de Deus ao mesmo tempo.

Devemos ao teólogo ortodoxo I. Zizioulas, metropolita de Pérgamo [9], o aprofundamento da reflexão sobre as conseqüências ecológicas da eucaristia: os dons apresentados para a consagração não se restringem àquele pão e àquele vinho, mas levam consigo toda a criação e o trabalho humano. Deus aceita a oferenda, sobre ela envia o Espírito Santo e tudo se cristifica, torna-se Corpo e Sangue de Cristo. A cada eucaristia a criação é santificada para que possa ser oferta agradável. Não podemos oferecer a Deus o fruto de nosso consumismo, desperdício, uma criação devastada, desertificada, fruto da morte que nos habita e geradora de morte.

O pão se torna Senhor e o Senhor se faz Pão para a vida do mundo. Uma eucaristia vivida na fé do Deus Criador nos leva ao uso respeitoso e moderado da criação, faz-nos sacerdotes da obra divina.

Eucaristia e Ecumenismo

Não pré-julgar ou desvalorizar a eucaristia das outras Igrejas. Na teologia controversística anti-protestante, havia a grande preocupação em demonstrar que as Igrejas reformadas não possuíam eucaristia por não possuírem sucessão apostólica. Criou-se a linguagem corrente que, para os protestantes, a comunhão não significa mais do que comer um pedaço de pão. Faltou boa vontade para entender, por exemplo, a Ceia na teologia de Calvino: o que estava em jogo era a presença real de Cristo Homem e Deus no Pão. Para os reformados, o Cristo Homem está à direita do Pai e somente voltará no final dos tempos, motivo pelo qual a presença de Cristo no Pão é espiritual, rejeitando-se com blasfêmia que o Pão é Carne do Senhor. Uma presença tão séria e exigente que quase afasta os reformados da Ceia, participada praticamente uma vez ao ano. É tão forte o sentido da presença espiritual de Cristo, que o homem se sente indigno de participar dela.

Uma espiritualidade ecumênica no tocante à eucaristia deve incluir o conhecimento mais real deste mistério nas outras Igrejas. E deve, do mesmo modo, evitar a intercomunhão fácil: “somos cristãos, a fé é “quase” a mesma, são briguinhas de teólogos, vamos ser ecumênicos”. Tal atitude suprime qualquer tensão ecumênica, simplifica de tal modo a grandiosidade da fé do outro que não importa mais levá-la em conta.

Quando estamos presentes à Ceia/eucaristia de uma outra Igreja, no momento da comunhão podemos sentir a dor de não poder fazer Comunhão. Cresce o desafio da oração, da invocação do Espírito, do amor e conhecimento do outro.

Citando ainda o Cardeal Martini: esperando o dia da vinda do Senhor “acontecerá o reconhecimento recíproco e alegre entre aqueles que amaram Jesus e esperaram a sua manifestação também no meio dos conflitos e desconfianças recíprocas e haverá sentinelas a quem será possível perguntar: ‘Vigia, quanto falta para chegar o dia?’ e deles receber uma resposta suficiente para a fé deles e o sentido da vida para todos”.

A esperada vinda do Senhor nos revelará o que ainda não conseguimos entender

Eucaristia e a mística da Beleza

O Espírito de Cristo constrói a nova Jerusalém: “Esta terra devastada tornou-se como um jardim de Éden” (Ez 36,35). Termina a maldição original da proibição de se entrar no Paraíso (cf. Gn 3,22-24). Cada liturgia é já o ingresso na vida divina, mas não ainda o ingresso total no reino do Belo.

Hoje somos muito atraídos pela beleza. Os místicos sempre realçaram esta dimensão transcendental de Deus: Deus é Beleza, é Formosura [10]. Belo também é seu plano de salvação, suas marcas na criação. Bela é a variedade dos povos, das culturas, das línguas. Bela é a Igreja em seus sacramentos e em sua liturgia. Reflexos de beleza se encontram por toda a parte, nas culturas. A beleza atrai com a força de uma nostalgia de divino o coração dos fiéis de toda religião. A beleza humano-divina resplandece nas pessoas e nas obras dos Santos e Santas.

A espiritualidade litúrgica pode ser uma tradução concreta em aspectos e modos de pensar, agir, rezar, celebrar, na cultura do cotidiano, do reflexo da vontade de Deus na vida humana, da harmonia da vida.

O grito de Dostoiévski, “A beleza salvará o mundo” pode também hoje ser inspiração de uma liturgia na qual o divino pode calar-se no humano, o céu na terra, redescobrindo a beleza do Evangelho no esplendor de Cristo para depois “transfigurar o mundo e a história” na vida individual, comunitária, eclesial.

“Manifestou-se a graça de Deus, portadora de salvação para todos os homens” (Tt 2,11). Jesus é a graça de Deus, a beleza infinita do Pai que, pelo Espírito Santo, faz-nos possuir a mesma beleza. A graça é bela: Deus é belo. A eucaristia é bela porque celebra os gestos do Pai, do Filho e do Espírito Santo, Beleza eterna. O tempo e as festas litúrgicas – Anunciação, Natal, Páscoa, Ascensão, Pentecostes, Corpus Christi, Imaculada Conceição, Assunção de Maria – nos seus rituais e conteúdo revestem-se da mais pura beleza porque narram a vida divina em si e em nós.

A beleza da liturgia desaparece se acrescentarmos elementos estranhos à seu conteúdo. A liturgia não é bela pelos altares enfeitados, pelos paramentos de seda e ouro, pela polifonia coral – tudo isso pode realçar uma beleza pré-existente, apenas. Ela é bela porque celebra a Verdade, Jesus ressuscitado, porque repete os gestos da história da salvação, a mais bela história que homem algum pôde imaginar. A comunidade reunida em nome de Deus oferece a beleza do Deus que reúne; a Palavra de Deus é bela, porque Deus é Palavra em seu Filho; bela é a Palavra divina que o povo escuta e bela é a palavra humana proferida no silêncio de Deus; o povo que apresenta os dons é belo na sua generosidade e compromisso com a criação; o canto do Santo é o mais belo de todos os hinos, pois o cantamos juntamente com todos os anjos e santos; é bela a epíclese que nos traz o artista dos sacramentos, o Espírito Santo.

Belas são as mãos manchadas pelas feridas que limparam em corpos chagados e que recebem o Corpo do Senhor; belas são as mãos calejadas pelo trabalho que nos oferece o pão e o vinho e que buscam o Pão e o Vinho. Belos são os filhos de Deus, criados à sua imagem e semelhança. Uma beleza tão intensa e generosa que apaga a deformidade causada por nossos pecados.

Os gestos de Jesus são belos porque intensos e verdadeiros: é belo escutar “Tomai e comei… tomai e bebei”, beleza da doação sem limites. É bela a comunhão que o Espírito Santo realiza entre o céu e a terra e entre nós; é bela a comunidade de irmãos com os braços erguidos ao céu reconhecendo a presença do Pai; é bela a procissão da comunhão: crianças, jovens, adultos, anciãos, todos refletindo na face a luz divina daquele que comungaram. Neste momento em que o Senhor é tudo em todos, a beleza atinge seu mais alto estágio de verdade aqui na terra, restando-nos somente desejar a beleza última, a comunhão final com o Deus Trindade.

Belo é Deus que aos domingos nos acolhe à entrada de sua Casa; belos são os templos esplêndidos pela arquitetura; bela é a humilde capelinha que reúne as pequenas comunidades; bela é a sombra de uma árvore que se torna templo cósmico para os pobres nele celebrarem.

A beleza é o reflexo da vida de Deus, que se liberta para a humanidade da Igreja e pelo mundo. É também uma dimensão da espiritualidade do futuro, para uma mística da divina beleza que atraia a humanidade ao seu destino final à luz de Cristo, Verbo Deus, Crucificado e Ressuscitado, cantado por Santo Agostinho com estas palavras:

“Belo é Deus, Verbo junto de Deus… É belo no céu, belo na terra; belo no seio, belo nos braços dos pais; belo nos milagres, belo nos suplícios; belo no convidar à vida e belo no não preocupar-se com a morte; belo no abandonar a vida e belo no retomá-la; belo na Cruz, belo no sepulcro, belo no céu. Ouvi o cântico com inteligência, e a fraqueza da carne não distraia os vossos olhos do esplendor de sua beleza…”.[11]

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Fonte: Publicado em ENCONTROS TEOLÓGICOS, Florianópolis, Reflexões para uma espiritualidade eucarística. Ano 20, no. 2, 2005.

[1] De Sacramentis, 2,21-28.
[2] Sententiae in IV libris distinctae 4,8,4.
[3] cf. J. A. Jungmann, Missarum sollemnia II, Herder, 1962, p. 238, nota 19.
[4] K. Richter, in Religion in Geschichte und Gegenwart 7 (2004), 770.
[5] cf. Osservatore Romano, 26/10/2001, 7s.
[6] Op. cit. 5,25.
[7] cf. H. Verweyer. IL REGNO, 1/4/2005, p. 61-67. Do mesmo autor: Sacramenti perchè? EDB, 2002, 107-128).
[8] cf. H. Rahner, L’Ecclesiologia dei Padri, Paoline, 1971, p. 269ss.
[9] A Criação como Eucaristia. Trad. de José Artulino Besen. Editora Mundo e Missão, 2001.
[10] São João da Cruz, Cântico Espiritual, estrofe 36,5.
[11] Enarrat. in Psal., 4,3.

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  1. #1 por ricardo marques de almeida em 29 de março de 2012 - 09:10

    Caro irmão e amigo P.besen, agradeço que me informe como posso adquirir a biblia de capa vermelha comemorativa da vinda de Sua Santidade o Papa Paulo VI a Portugal em 1976. Muito grato lhe ficaria por sua resposta. Um abraço fraternal.

  2. #2 por Pe. José Artulino Besen em 29 de março de 2012 - 14:28

    Ricardo:
    não saberia dar-lhe a informação. Um lançamento de 1976, 36 anos atrás, creio que somente poderá ser encontrado em sebos.
    Desejo-lhe uma Feliz Páscoa.
    Pe. José

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