EUCARISTIA E MISTÉRIO PASCAL

Anastasis

Anastasis

Na liturgia cristã, o ano todo é caminho pascal, todo domingo é páscoa, todo dia é páscoa: porque, a cada dia, celebrando a Eucaristia, a Igreja celebra o mistério da paixão, morte, ressurreição e ascensão gloriosa do Senhor. A liturgia eucarística não é um momento separado da vida da Igreja, mas é constitutiva da própria Igreja: a Igreja nasce da Eucaristia. Não podemos afirmar que a Igreja “nasceu”, porque é um nascer constante, até a consumação da história. É impossível definir o que é a Igreja, pois mistério se contempla e não se define, mas é possível dizer onde ela está/acontece: na celebração eucarística.

Ao repetir a ordem do Senhor “fazei isso para em memória de mim”, ela se refere ao Espírito Santo, que gera continuamente a memória de Cristo, a Igreja. A epíclese, invocação do Espírito Santo sobre as oferendas do pão e do vinho, é a súplica de toda a comunidade para que aconteça a memória do Senhor, o mistério pascal.

O Lava-pés e a Ceia do Senhor

Lavando os pés de seus discípulos, Jesus quis tornar inseparáveis os sacramentos do altar e do irmão. Gesto duplamente humilde: não pretendeu purificar totalmente o homem, pois só Deus o purifica pelo batismo, e quer ser uma ajuda (lavou apenas os pés) e não se substituir ao ser humano.

Em seguida apresentou o pão: Tomai, todos, e comei: isto é o meu corpo, que será entregue por vós. No final da ceia, o cálice: Tomai, todos, e bebei: este é o cálice do meu sangue, o sangue da nova e eterna aliança, que será derramado por vós e por todos para remissão dos pecados.

O sacrifício oferecido a Deus possui a oferta definitiva. No alvorecer da humanidade, a vítima era uma pessoa: em Abraão isso é superado pela oferta de um cordeiro em lugar de Isaac. Agora o sacrifício é perfeito: o Pai recebe como vítima que se auto imola o próprio Filho. Acontece a redenção: no Filho o Pai vê a todos nós como filhos e assim a Eucaristia-sacrifício é eterna, pois eterna é nossa filiação.

Ao se oferecer como pão e cálice, o Senhor se dirige ao futuro: será entregue, será derramado. À Ceia do Senhor seguiu-se a Cruz do Senhor.

A Cruz e a Eucaristia

O será entregue da Ceia é a entrega da Cruz. O Pão e o Vinho, pelo Espírito transformados em “memória”, são consagrados na Cruz e na Sepultura. São Corpo entregue e Sangue derramado, comida e bebida para nos salvar.

O Sangue é oferecido e derramado por todos: isso gera a comunhão com Deus e com todos os homens e mulheres. O Sangue bebido foi aspergido sobre a humanidade: a Eucaristia tem o sentido real de comer e beber – comunhão total – com todos os seres humanos, pois Jesus não assumiu uma natureza humana: ele assumiu a natureza humana. Deste modo, ele aceita ser o fundamento de nossa existência e nós só conseguimos existir em Cristo. Sem ele, há em nós uma invencível deficiência ontológica. O mistério da salvação oferece a existência em Cristo, único existir verdadeiro.

Do lado aberto do Senhor correu sangue e água, o batismo – porta que nos abre a celebração da Eucaristia, que é o sangue. Nasce e continua a nascer/existir a Igreja enquanto é lavada na água do batismo e alimentada pelo Corpo e Sangue do Redentor.

A ressurreição-ascensão e a Eucaristia

O sacrifício redentor adquire a plenitude de sentido na ressurreição-ascensão do Senhor. O Corpo e Sangue são comida e bebida de vida eterna: quem comer deste pão viverá eternamente. A Eucaristia torna-se sustento e remédio de vida eterna, perdão dos pecados e santificação.

São João declara que quando chegar a “hora” (a cruz) conheceremos quem ele é, o Senhor. A cruz é o trono glorioso do Ressuscitado, é a ponte que conduz a humanidade de Cristo ao seio da Trindade e traz a divindade à nossa humanidade. Por ela Cristo subiu aos céus e por ela enviou o Espírito Santo. Sem a ascensão a Igreja não existiria, pois não poderia fazer a memória do Senhor, a Eucaristia, sua fonte de existência e vida.

A Eucaristia, plenitude da Igreja

Sendo comunhão com Deus, a Eucaristia é comunhão com toda a humanidade, pois o mistério da encarnação assumiu, com a natureza humana, todos os nascidos de mulher. Nesta comunhão – em cada comunhão – há o encontro com Deus e com todos os que são de Deus. Essa certeza nos faz rezar pela Igreja, pelos mortos, louvá-lo pelos anjos e santos ali presentes.

Na comunhão eucarística não há comunhão simbólica com ausentes: ela é a comunhão real com todos aqueles que foram assumidos na Cruz e banhados pela água e pelo sangue. Quando afirmamos que a Igreja nasce da Eucaristia e para ela se encaminha estamos professando nossa fé na comunhão total realizada pelo Espírito Santo: os santos são glorificados e os pecadores redimidos. E podemos proclamar com alegria: creio na comunhão dos santos.

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