A ANUNCIAÇÃO DA ENCARNAÇÃO DO SENHOR

Anunciação

Anunciação

O dia 25 de março, festa da Anunciação do Senhor, celebra o momento central da história da salvação: E o Verbo se fez carne e habitou entre nós e nós vimos a sua glória (Jo 1, 14). O Filho eterno de Deus renuncia à glória divina (cf. Fl 2, 6-11) e, pela ação do Espírito Santo, germina como homem/Deus em Maria.

O seio virginal de Maria representa toda a criação que acolhe a divindade: o ventre de Maria é a arca que recebe a eternidade e nesta, a plenitude dos tempos. O russo Pavel Florensky, cientista-teólogo e mártir do stalinismo afi0rma que toda a história mundial está contida inteiramente em Maria e tudo o que Maria significa se expressa no momento doa anunciação. Com a humanização de Deus se inicia a divinização do homem.

Maria dá início a seu caminho espiritual

A encarnação do Filho de Deus reconstrói as pontes entre Deus e o homem, entre o céu e a terra. Um anjo, Gabriel, que se aproxima de Maria de Nazaré, filha de Joaquim e de Ana, noiva de José (Lc 1, 26-38) e lhe quebra as seguranças. Ela é colocada diante do Deus do diálogo que a interpela a colaborar. Se quiser, pode continuar com seus projetos; é assim que Deus aborda aqueles a quem ama: Deus é diálogo.

O Anjo revela a Maria que Deus é promovedor: se ela quiser, deixará a vida privada e se inserirá num desígnio divino. Ela, porém, é livre e deve decidir.

Maria escuta, pergunta, silencia: Deus respeita a sua pessoa e está ali, esperando a resposta. Livremente, aceita entrar no plano de Deus: Eu sou a serva do Senhor. Aconteça-me segundo a tua palavra! (Lc 1,38). Nesta hora, em Maria estão todas as criaturas, ela contém todos os tesouros que o amor divino preparou para a humanidade que ele quer à sua imagem e semelhança.

Comunhão com o Espírito Santo

O sim a Deus é como o vento impetuoso: tudo é transformado. A virgindade de Maria transforma-se em maternidade. O Deus onipotente aceita a oferta virginal e, preservando-a, gera a maternidade divina. O Todo-Poderoso rebaixa a divindade e eleva a humanidade, num diálogo cujo autor é o Espírito Santo: despojado da condição divina, o Filho eterno aceita ser o filho.

Muitas vezes nossa fé conhece dificuldades porque gostaríamos que Deus se servisse da nossa lógica. Mas ele é paradoxal (cf. Lc 1, 46a.-55, o Magnificat): coloca, lado a lado, a grandeza e a miséria, a maternidade e a virgindade, a presença divina e a fragilidade. Maria é a realização perfeita do paradoxo divino: a virgem de Nazaré é, ao mesmo tempo, a Mãe do Senhor. O fruto de seu ventre é o Criador imortal que quis ser um mortal; gerado eternamente, quis ser gerado no tempo; o mistério incompreensível quis ser compreendido; quem sempre existiu começa a existir nos tempos. O Deus verdadeiro gerado em Maria é o homem verdadeiro (cf. Leão Magno, Tomo a Flaviano, 3-4).

O sim de Maria, como todos os “sim” a Deus proferidos na história, revoga certezas e oferece a mão a quem livremente aceita mergulhar na lógica divina.

E o anjo a deixou, conclui Lucas a sua narração. Maria continua ali, não na solidão humana, mas na solidão de não ter mais planos pessoais. Por pouco tempo. Logo irá ao encontro de Isabel e passará a experimentar o Deus imprevisível que realiza o Reino através da fraqueza e do sofrimento. Mas em suas experiência de Deus, no mistério de seu Filho, a Virgem de Nazaré sempre ouvirá a ternura da saudação do Anjo: Alegra-te, Maria!

E nós vimos a sua glória

Maria de Nazaré é a primeira visibilidade da glória de Deus (Jo 1, 14; 1Jo 1,2), pois nela está o Senhor da glória. A eternidade a contempla e todos os povos se alegram pois “a raiz de Jessé haverá de brotar, e haverá de surgir uma flor de seu ramos; pousará sobre ele o Espírito Santo” (Ant. das Vésperas). E o mesmo Espírito encherá de alegria os que esperam o Salvador, os corações simples abertos à grandeza do Deus pobre: Isabel dá um grande grito, João Batista pula no ventre de sua mãe, Simeão se alegra tanto que aceita morrer, a profetiza Ana torna-se louvor contínuo. Rompeu-se o dique construído por Adão e Eva e as águas celestes purificam as terrestres. Através de Maria a glória de Deus passou a ser glória de todos os homens e mulheres de boa vontade.

A Liturgia oriental penetra com profundidade o mistério do Filho através do mistério da Virgem Mãe que é saudada como “sarsa que arde mas não se consome” (Ex 3,2), “abismo insondável”, “ponte que conduz ao céu e escada que até lá se eleva” (Gn 28,12), “nova Eva que desfaz a maldição da primeira Eva”, “porta pela qual o Eterno passará e que depois permanecerá fechada” (Ez 44,2).

O mistério de Maria – Deus em Maria

Assim como a tradição da Igreja viu no Antigo Testamento a figura do Novo Testamento, lá a sombra, aqui a luz, vê em Maria a criatura que livremente aceitou ser modelada pelo Espírito Santo, artista do Pai e do Filho. Nela se concretizou o plano eterno de Deus de nos reconciliar consigo e nos divinizar.

A presença do Filho no ventre de Maria já é realização da divinização da humanidade: como só é redimido o que é assumido, na carne de Maria está a carne de toda a humanidade.

O teólogo e místico alemão Wilhelm Klein (1889-1996: 107 anos!) vê no mistério de Maria “Deus em Maria”: nela todos os homens são purificados, justificados, santificados, por meio de Jesus no Espírito Santo. Ela é o “segredo” da Trindade: nela o Pai e o Espírito encarnaram o Filho eterno.

Um anjo se encarrega dessa missão prodigiosa;
um regaço virginal acolhe o Filho;
o Espírito Santo é enviado do alto;
o Pai, nos céus, se compraz
e a união acontece por vontade comum
 .

(Tropário da Festa).

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