EPIFANIA DO SENHOR – A UNIDADE DA FAMÍLIA HUMANA

Visita dos Magos

Visita dos Magos

A festa da Epifania do Senhor, de sua manifestação ao mundo, é expressa pela visita dos Magos que vêm do Oriente (Mt 2, 1-12). As narrativas dos primeiros séculos do cristianismo procuram ensinar, através de legendas, a universalidade da salvação e a realeza do Menino de Belém. Para São João Crisóstomo, “as faixas e a manjedoura proclamam com força a humanidade de Cristo, enquanto que as homenagens que lhe são prestadas provam sua divindade”. Belém é a terra dos escondimento e da revelação, é a terra dos pastores e a terra visitada pelos sábios.

A salvação oferecida a todos

Uma narração armena, de origem síria (pelo ano de 590), cria o encontro dos três reis de nações que simbolizavam o poder e o saber, em Jerusalém: Melquior rei da Pérsia, Baltasar rei da Índia e Gaspar rei da Arábia. Eram sábios que procuravam nos astros o sinal do Messias esperado. O povo judeu esperava-o lendo as Escrituras, os pagãos, a natureza. Os Pais da Igreja gostavam de falar das “visitas do Verbo” antes de sua vinda plena: “O Verbo de Deus jamais deixou de estar presente na raça humana”, afirma Irineu de Lião.

Deus não privou nenhum povo da promessa da salvação e da expectativa de um Salvador: “O Senhor me disse: Não basta seres meu servo para restaurar as tribos de Jacó e reconduzir os remanescentes de Israel: eu te farei luz das nações, para que minha salvação chegue até os confins da terra” (Is 49,6). Contrariando o exclusivismo judeu, Paulo fala do mistério revelado: “Os pagãos são admitidos à mesma herança, são membros do mesmo corpo, são associados à mesma promessa em Jesus Cristo, por meio do Evangelho” ( Ef 3, 6).

É esta epifania de Jesus como o Salvador de todos os povos que a Igreja celebra em 6 de janeiro: os pagãos glorificam a Deus, em razão da sua misericórdia (Rm 15,8.9).

Os Magos vão a Jerusalém, sede da Palavra, das Escrituras, do Templo. Os Doutores ali instalados sabem responder de modo exato onde nasceria o Messias: eram especialistas em Bíblia. Mas uma nuvem escura impedia-lhes enxergar além do texto profético lido de acordo com seus interesses de domínio. Já entre os Magos e os astros se interpunha a nuvem luminosa que conduziu o povo pelo deserto. O Templo tornara-se opaco, o deserto percorrrido pelos Magos, translúcido. Quando se busca a salvação – mas sem querer encontrá-la – tudo é treva e ficamos felizes em poder dizer: Nada encontramos!

A Verdade se manifesta aos que a procuram

Iluminados pelas Escrituras e pela natureza, os Reis Magos seguem para Belém.. “Os sábios observadores dos astros eram conduzidos a Ti como primícias das nações” (Lit. oriental, 4a Ode). Ao encontrarem o Menino e sua Mãe não fazem perguntas, não tremem de desilusão: prostram-se por terra e o adoram. São os primeiros pagãos a receberem a graça de adorarem o Messias. O menino inerme no colo da Maria dava início à sua obra salvífica universal. “A tua natividade, ó Cristo nosso Deus, fez resplandecer no mundo a luz do conhecimento; é por ele que os adoradores dos astros aprendem de uma estrela a adorar-te” (Stiquirá de Cassia).

O menino-Deus inicia sua obra missionária: convocando os magos do Oriente, começa a reunir os povos, a dar unidade à grande família humana. A fé em Jesus derrubará as barreiras entre os homens e fará com que todos se sintam filhos de Deus e irmãos redimidos. Toda guerra religiosa pela posse do menino-Messias é atéia, porque nega a universalidade da salvação. Se o menino-Deus vem também para os pagãos, por que não viria para as diferentes Igrejas cristãs? Acaso alguém pode tomá-lo do colo de Maria e, apertando-o contra o peito, dizer: “Eu te conheço; tu és meu!”? Somente o Pai de Jesus pode declarar: “Eu, o Senhor,… te formei e te constituí como o centro da aliança do povo, luz das nações” (Is 42, 6). Somos todos adoradores, mendicantes da verdade insondável que brotou em Belém.

A unidade fundamental da família humana

Os magos simbolizam os sacerdotes, os filósofos, os sábios, todos os servidores da cultura. O Espírito lhes ensina a cantar os louvores da Deus (P. Evdokimov).

Entre as orientações mais importantes e significativas do Vaticano II está o apelo à unidade fundamental da família humana (cf. GS 24; 26; 27). Retomando o tema paulino, o Concílio nos ensina que não há judeu nem pagão, nem escravo nem livre, nem branco nem negro, mas todos somos membros de uma mesma família, humano/divina. Deus é Pai dos cristãos e o é também dos budistas, dos hindus, dos muçulmanos, dos crentes e ateus. Ninguém pode sofrer violência em sua dignidade pessoal: somos todos parentes entre nós e parentes de Deus, em Cristo: “…nele vivemos, nos movemos e somos. … Somos de sua raça” (At 17,28).

É este o sentido mais profundo da festa da Epifania: Deus quer salvar a todos.

Não aconteça conosco, cristãos, o acontecido em Jerusalém: os doutores da Lei sabiam tudo sobre o Messias, mas não queriam um Messias. Queriam manipular o poder religioso em função de interesses humanos.

Encerremos essa meditação com o hino de São Germano de Constantinopla (+ 733):

“Ao nascer de Jesus em Belém de Judá,
os Magos, chegados do Oriente, adoraram o Deus encarnado
e, abertos diligentemente seus tesouros,
lhe ofereceram dons preciosos:
ouro puro como ao Rei dos séculos,
incenso como ao Deus do universo,
e mirra a ele, o Imortal, como a um morto no terceiro dia”.

Maria, Estrela que nos anuncia o Sol, contempla o Evangelho da Salvação. Mãe, ela deixa de olhar o Menino e nos acolhe a todos e reconhece em cada um de nós o nascimento de um filho seu.

Anúncios

, , ,

%d blogueiros gostam disto: