O NATAL – PEDAGOGIA DO ABISMO

Natividade do Senhor

Natividade do Senhor

“Ah, se rasgasses os céus e descesses!”, suplicava, em nome do povo, o profeta Isaías (63, 19); e, em Maria, Deus concretizou essa oração: “O Espírito Santo virá sobre ti e o poder do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra” (Lc 1,35). “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós e nós vimos a sua glória” (Jo 1,14). Penetrando no mistério, proclamamos com a primeira comunidade cristã que “Jesus Cristo, de condição divina […] se rebaixou, tornando-se obediente até a morte e morte numa cruz” (cf. Fl 3,6-11).

O Natal é a festa da descida, da demolição do muro que isolava a terra do céu, é a suspensão da proibição de nos aproximarmos da árvore da vida, é a reconstrução da ponte entre Deus e o homem. Isso foi possível porque o Filho eterno de Deus assumiu tudo aquilo que o pecado produziu, para destruí-lo em sua divino-humanidade. Foi redimido o que foi assumido e tudo foi assumido no Verbo feito carne habitando entre nós.

Belém é páscoa: Deus se faz menino envolto em faixas e é depositado numa gruta escura; Jerusalém é páscoa: Deus envolto em faixas é depositado numa gruta escura. Entre a Luz de Belém e a Luz de Jerusalém situa-se a escuridão do não-sentido, do olhar transformado em órgão cegado pelas trevas. Belém e Jerusalém estão nas trevas: mas a luz explode para os anjos e pastores, explode para as mulheres e apóstolos. Através dessa luz que mata as trevas conseguimos de novo contemplar a glória divina, que estava entre nós: “Ele estava no mundo … e o mundo não o conheceu” (cf. Jo 1,10). Na gruta de Belém está o Deus menino, gerado no ventre da Virgem que permanece virgem para assim quebrar a cadeia da morte que vinha desde Eva. A humanidade pode agora nascer livre da escravidão das trevas da morte.

A perigosa pedagogia do abismo

A Igreja é o Menino de Belém envolto em faixas e é o Senhor de Jerusalém envolto em faixas. Ela é a carne tenra de um recém-nascido e é a carne machucada de um torturado: ela é o Corpo do Senhor.

O Natal quebra todas as formulações lógicas da sabedoria humana, pois é radical sabedoria divina: o Filho eterno gerado do Pai sem mãe, nasce de uma Mãe sem ter pai! A Virgem, criatura, gera o seu Criador! Aquele cuja natureza humana vem do pó da terra é o Senhor de toda a criação, a eternidade e o tempo se abraçam. Nesse intercâmbio entre a grandeza humana e a pequenez divina reconstrói-se o paraíso: Deus retoma o que é seu e nós retomamos o que é nosso: o divino e o humano entram em comunhão.

Cristo desceu ao mais profundo dos abismos, vindo habitar entre nós. Essa é a missão da Igreja que é convidada a assumir a “perigosa pedagogia do abismo”, na expressão do poeta francês León Bloy (+1917), convertido e místico que passava os dias mergulhado no êxtase e na miséria, alternando a prece angelical com horríveis blasfêmias, que se autodenominava “empresário de demolições” e que fez desabrochar a fé em tantos que nada sabiam de Jesus.

A pedagogia do abismo significa para a Igreja ir a Belém e lá tomar as ofertas dos magos: o ouro para distribuir aos pobres, o incenso para tirar do mundo o mau cheiro do egoísmo e a mirra para anunciar que Deus se fez homem-menino, frágil, para que o acolhamos sem medo. Ninguém contemple o menino-Deus e deixe passar a oportunidade de levá-lo para sua casa e criá-lo com muito carinho.

A Igreja Corpo de Cristo é compelida a descer às profundezas onde estão-se escondendo os homens e mulheres de hoje: no inferno das drogas, do erotismo, do terrorismo, da loucura, do consumismo, da injustiça. Tocar o corpo tenro de tantos que foram banhados pela água do batismo, mas que agora estão dilacerados pelo não-sentido da vida, em carne viva, esfolados pela ilusão de uma vida que não ultrapassa os poucos dias terrenos.

A Igreja se faz criança

O Filho de Deus feito criança é depositado numa gruta escura para transfigurá-la em luz. A Igreja também é depositada na gruta escura que é o mundo onde Deus foi suprimido. Como criança, ela não fala, mas atira-se no abismo da morte com o Espírito que dá a vida, de modo que o povo que anda nas trevas possa ver uma grande luz: ver, antes de ouvir. A Igreja é o recém-nascido envolto em faixas e deitado numa manjedoura que é achado pelos sofredores da história (cf. Lc 2,12): este é um sinal (o outro é a cruz).

A Igreja é o Deus Menino que não amedronta – quem tem medo de um bebê envolvido em faixas? – e redesperta o encanto da vida. Através do Espírito que fecundou o ventre de Maria – ventre da Igreja – os abismos do mundo podem ser ocupados e tocados pela consolação, alento, comunhão, ternura e compaixão (cf. Fl 2,1) oferecidos em Belém.

Hoje nasceu do céu a verdadeira paz

A Liturgia é sempre fonte de esperança: ela celebra o mistério permanente da redenção, da divino-humanidade construindo a humano-divindade. Ela celebra o Deus que desde a criação do homem e da mulher continua a procurar: “Adão, onde estás?” (Gn 3,9). No sacramento natalino podemos dar ao Senhor a alegria de suspirar: “És o meu filho, eu hoje te gerei!” (cf. Sl 2,7).

E tudo se transforma em ação de graças, toda a criação penetrada pela Igreja-Deus-Menino faz-se oferta ao Senhor e pergunta, agradecida, no belo hino: “O que te ofereceremos, ó Cristo, por te haveres mostrado sobre a terra como homem?”.

Cada uma das criaturas por ti criada oferece-te a sua gratidão: – os anjos, o cântico; – os céus, a estrela; – os Magos, os dons; – os pastores, a sua admiração; – a terra, uma gruta; – o deserto, um presépio; – mas nós, uma Mãe Virgem!

Ó Deus, existente antes dos séculos, tem piedade de nós!” (Vésperas da Liturgia oriental).

Pe. José Artulino Besen

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