A LITURGIA – COMUNHÃO COM DEUS E A CRIAÇÃO

Congresso Eucarístico em Florianópolis - SC

Congresso Eucarístico em Florianópolis – SC

No logo do 15o CEN, uma ponte surge do ocidente e conduz ao oriente: a luz do entardecer caminha para a Luz sem ocaso. Cristo é a ponte, o Pontífice entre o homem e Deus: realiza nossa comunicação com Deus, com os seres humanos, com toda a criação. O Senhor que ascende aos céus é a ponte pela qual desce o Espírito Santo e subimos à comunhão trinitária.

Solidão de Deus, solidão do homem

Na vida divina não há lugar para a solidão: é a comunhão do Pai, do Filho e do Espírito Santo, a Trindade santa. Na criação divina não há lugar para a solidão, caos inicial no qual Deus pronunciou o “Que a luz seja!”. E a luz veio a ser”, gerando a vida (Gn 1,3). A luz organizou o caos primitivo e, ordenando um ser para o outro, iniciou a comunhão entre os seres. Na vida humana também não há lugar para a solidão: “Não é bom para o homem ficar sozinho. Quero fazer para ele uma ajuda que lhe seja adequada” (Gn 2,18). Somente agora, o homem que tinha tudo sob seu domínio, pôde exclamar: “Eis, desta vez, o osso dos meus ossos e a carne de minha carne” (Gn 3,23). O “osso dos meus ossos” refere-se a todos os seres humanos e não somente à mulher: a comunicação supõe sempre outro ser humano, a face do outro.

A felicidade que brotava da comunhão entre o homem e a mulher tinha como fonte a comunhão divina, pois foram feitos à imagem e semelhança de Deus. Paradoxalmente, a ruptura dessa comunhão pelo pecado produziu duas solidões: Deus sentiu-se só e o homem sentiu-se só: Deus não pode mais existir sem aquele que criou à sua imagem, nem o homem pode subsistir sem sua semelhança. Nasce uma sede inextinguível no coração divino e no coração humano.

Sede de Deus, sede do homem

“Adão, onde estás?” (Gn 3,9):

é a sede do Deus vivo à procura do homem e da mulher. Toda a história da salvação é conseqüência desta sede de Deus pelo homem: a salvação de Noé, a chamada dos patriarcas, a eleição de um povo, a aliança no Sinai, a aliança com os profetas e, finalmente, o ventre de Maria Deus encontra o primeiro lugar onde matar sua sede: seu Verbo se encarna no ventre virginal dela e assume a natureza humana, ali gerando a primeira ponte entre o divino e o humano desde o pecado dos primeiros pais.

Por sua vez, toda a história humana é também a busca de poços onde matar a sede de Deus, inseparável da condição humana: “Ó Deus, … minh’alma tem sede de ti; minha carne desfalece por ti, em uma terra ressequida, esgotada, sem água” (Sl 63(62) 2). Afirma Orígenes (Hom. in Gen., 13,1) que a história humana é a história de cavar poços: “Meu povo cometeu uma dupla perversidade: abandonou-me a mim, fonte de água viva, para cavar poços, poços fendidos que não retém água” (Jr 2,13). No encontro com a mulher samaritana deparamo-nos com a dupla sede: Jesus busca água, a mulher busca água (cf. Jo 4,1-42). À samaritana Jesus sugere: “Se conhecêsseis o dom de Deus!” (cf. Jo 4,40). Neste encontro à beira de um poço é anunciada a fonte da água viva que jorrará do lado aberto do Senhor, água na qual se constrói a ponte de comunicação entre Deus e o homem.

A comunhão, restauração do diálogo divino-humano

“Isto é o meu corpo, que é para vós; fazei isto em memória de mim” (1Cor 24).

A eucaristia aplaca a sede divina e a sede humana: quando Deus oferece seu Filho como pão para nós, assume nossa natureza, elevada até o trono divino donde jorram rios de água viva. Através da comunhão, entramos no mistério da comunhão trinitária, onde termina toda solidão. É antecipação da comunhão definitiva na consumação da história.

O momento em que comungamos o Corpo do Senhor ressuscitado foi precedido de outra comunhão, obra do Espírito: ele nos fez entrar em comunhão uns com os outros. Deste modo, a comunhão no Espírito nos fez ser comunhão fraterna pondo-nos em comunhão com Cristo, com Deus e com tudo o que é de Deus, pois a eucaristia é comunhão cósmica: o pão e o vinho, frutos do primeiro trabalho do Criador, frutos do segundo trabalho, do homem e da mulher, e agora, frutos do trabalho do Espírito, a tudo diviniza e mergulha no esplendor da luz inicial: faz-se, a cada vez, a Luz.

A Liturgia edifica a ponte entre as comunidades humanas – a água do batismo une as ilhas onde vivem os homens: ela cura as nações (cf. Apc 22,2) e faz correr para elas, como um rio, a paz (cf. Is 66,12).

Comunhão com Cristo, comunhão com a criação

Atravessamos a ponte que nos conduz à Jerusalém celeste não de mãos limpas e ombros leves: nossas mãos estão marcadas pelo sangue e os ombros pelo peso do homem que foi assaltado no caminho: no pão e no vinho depositados no altar incluímos os pecadores, os leprosos, os doentes, os famintos, os solitários, os estrangeiros, nosso evangelho vivência do Evangelho. Tudo oferecemos para que tudo seja transfigurado pelo Espírito.

E não oferecemos solitariamente: toda Igreja oferece conosco, a do céu e a da terra. Cada um de nós representa misticamente a totalidade da obra divina, pois Deus está em tudo e, pela comunhão, estamos em Deus.

Termina a solidão e a sede: Deus nos encontra e nós o encontramos: “A glória de Deus é o homem vivente e a vida do homem é a manifestação de Deus. […] Deus é a glória do homem, e o homem é o receptáculo da energia de Deus e de toda a sua sabedoria e poder” (Ad. Haer. 4,20,7 e 3,20,2)

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