A LITURGIA EUCARÍSTICA, NOVA JERUSALÉM

Os três Santos Hierarcas em torno da Mesa Eucarística

Os três Santos Hierarcas em torno da Mesa Eucarística

Retomando o artigo anterior, citamos Teodoreto de Ciro (séc. V): “o lado aberto deixa sair a fonte de vida, que com dupla torrente vivifica o mundo. Uma, no batistério, que renova e cobre com a veste imortal; outra, à mesa divina, alimenta os renascidos como leite aos pequeninos”.

A liturgia eucarística é obra do Espírito que revela o Verbo e nos abre ao ato de fé e à entrega da vida e do mundo ao Pai. Assim, entre a Liturgia da Palavra e a Liturgia Eucarística a comunidade proclama o “Creio” e apresenta ao Pai as oferendas do pão e do vinho, simbolizando toda a criação, para serem consagradas e vivificadas no Senhor. Algumas famílias litúrgicas oferecem, além do pão e do vinho, óleo, cereais, frutos da terra e do trabalho do homem e da mulher. As oferendas possuem um caráter totalizante: tudo é ofertado, toda a criação enfraquecida pelo pecado é apresentada ao Pai para que seja renovada, revitalizada, para que “a morte seja vencida” (Irineu de Lião).

O ingresso na Jerusalém celeste

A Oração eucarística tem início com o Prefácio (anáfora – movimento para o alto). O presidente da celebração convida a comunidade a ascender aos céus, acompanhar o Cristo em sua ascensão: “Corações ao alto!”, subamos aos céus! e todos respondemos: “Já os temos no Senhor”, já estamos na Jerusalém celeste! Segue-se o hino de louvor à obra do Pai que se encerra com uma explosão no templo do universo, unindo céus e terra no canto da nova Jerusalém: “Santo, Santo, Santo! … Océu e a terra proclamam a vossa glória!” (cf. Is 6,3). A ressurreição de Cristo une céus e terras e, em Cristo, tudo é recapitulado: a liturgia celeste se une à liturgia terrestre. Por isso, na Oração eucarística se faz “memória” da paixão, morte, ressurreição e ascensão do Senhor, faz-se memória da Igreja triunfante, da Igreja militante, da Igreja padecente, pois toda a Igreja se faz presente em cada Liturgia.

A comunidade pede ao Pai que envie o Espírito (epíclese) para que toda essa memória das maravilhas divinas seja transformada em Cristo. Na liturgia de S. Basílio de Cesaréia: “Pai! Manda o teu Espírito vivificante sobre nós e sobre estes dons que ofertamos. Faz deste pão o sagrado corpo de teu Cristo, e do que está neste cálice o sangue precioso de teu Cristo, transformando-os com o teu Espírito Santo!” e na liturgia latina: “… Pai, …Santificai, pois, estas oferendas, derramando sobre ela o vosso Espírito, a fim de que se tornem para nós o corpo e o sangue de Jesus Cristo, vosso Filho e Senhor nosso”. Na liturgia latina, a epíclese antecede a narração da última ceia; nas liturgias orientais, é após a narração. A ação é a mesma: o Pai age pelo Espírito Santo, e é pelo Espírito que as ofertas se tornam o Corpo e o Sangue do Ressuscitado. O Espírito Santo é o verdadeiro artista de todos os sacramentos, obras-primas da criação nas quais o divino se faz humano e o humano, divino (N. Cabasilas). Por Ele, o Pai realiza o Pentecostes eucarístico: o Espírito sai do lado aberto do Senhor e com ele jorra o alimento dos santificados pelo batismo, ao mesmo tempo santificando tudo o que foi oferecido, “para nós”, gerando a comunidade eclesial: a Igreja nasce da Eucaristia.

Ação de graças que se faz comunhão

A Oração eucarística se conclui com a grande doxologia, hino de louvor ao Pai, por Cristo, com Cristo e em Cristo, no Espírito Santo.

As oferendas foram consagradas no Corpo e Sangue do Senhor através dos quais é gerado o povo de Deus. Embora sendo muito, formamos um só Corpo em Cristo. Então Cristo se une à nossa oração, ensina-nos a rezar e reza conosco ao Pai a sua oração: seu Pai é nosso Pai.

Com Ele, damos ao irmão o abraço da paz e, mais uma vez, a Liturgia realiza nossa unidade com o Senhor: um pedaço do Pão é mergulhado no Sangue, através da humanidade de Cristo nossa humanidade participa de sua divindade.

E recebemos a graça de “tomar e comer, tomar e beber”, o Senhor ressuscitado aceita ser triturado e bebido por nós: a Comunhão realiza a comunhão cósmica, somos tudo em Cristo. Conclui o teólogo evangélico J. S. Drey: “A Eucaristia é o céu, é a pregustação do que nos é reservado no Reino futuro”. O cosmos é mergulhado nos abismos do amor da Trindade.

Igreja santa e pecadora

A fraqueza humana torna-se o lugar da realização da potência divina, pois recebemos “o remédio da imortalidade” (S. Inácio de Antioquia). Diversas vezes, durante a celebração, a Igreja pede perdão dos pecados (ato penitencial, após o Pai nosso, na oração pela paz, no Cordeiro de Deus…); o pedido de perdão vivifica a Igreja peregrina neste mundo que, ao mesmo tempo, é una com a comunhão dos santos. Seu esplendor tem origem no dinamismo da família dos pecadores perdoados: a conversão permanente regenera a identidade filial dada pelo Pai.

A presença do Corpo de Cristo na Eucaristia transfigura a Igreja no Corpo de Cristo e o “sacramento do altar leva ao sacramento do irmão” (S. João Crisóstomo).

Ó sagrado banquete no qual recebemos Cristo, fazemos memória de sua paixão, a mente enche-se de graça e nos é dado o penhor da vida futura” (Hino O Sacrum Convivium).

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