A CRUZ – FONTE DA ÁGUA VIVA

A Crucifixão (Rublev)

A Crucifixão (Rublev)

O homem tem sede. A história da humanidade se confunde com a busca da água e a Escritura é rica em textos onde nossos pais escavam poços.

À sede física Deus acrescentou em cada um de nós uma outra sede: da água viva, de Deus. E aqui reside o drama da existência humana: cada um cava o poço onde pensa encontrar água para essa sede: a religião, a ideologia, o dinheiro, o poder. Quanto mais fundo cava, mais sede sente.

O mistério da sede de água viva tem dois sujeitos e dois objetos: Deus tem sede de nós e nos procura e nós temos sede de Deus e o procuramos, mesmo buscando-o onde não se encontra. O Novo Testamento mostra-nos esse mistério na figura da Samaritana: a mulher busca água, Jesus busca água (Jo 4,1-42).

Nossa procura equivocada gera o lamento do Senhor: “Meu povo cometeu uma dupla perversidade: abandonou-me a mim, fonte de água viva, para cavar cisternas, cisternas fendidas que não retêm a água” (Jr 2,13). Quanto mais profundo são escavadas, mais angustiante a necessidade.

Os cristãos buscam matar sua sede, mas nem sempre o conseguem, porque buscam água na cisterna que eles mesmos cavam: o ativismo da caridade, as liturgias bem preparadas mas que acabam sendo a celebração da própria vida, a freqüência legalista às missas, no final das quais não sabem responder por que foram, os que confundem encontro com o Mistério com o sentimento passageiro de emoções religiosas.

A essa busca frustrada pela água viva, que une liturgia e vida, Jesus responde sorrindo: “Se conhecêsseis o dom de Deus!” (cf. Jo 4,10). A água que dá vida em plenitude é dom, nasce do trono divino. Como atingí-la?

A cruz de Cristo abre a rocha da qual jorra a água viva

Criados à imagem e semelhança de Deus, somente nele nossa alma encontrará alívio para sua sede; alívio, porque o dessedentar completo será no encontro final e eterno. O rio de água ingressou na história com a encarnação do Filho: “Deus tanto amou o mundo que lhe deu seu Filho único” (Jo 3,16). Todo o Antigo Testamento é sombra do que se realiza com a vinda do Filho na carne e se completa na hora da cruz.

Contemplemos, agora, o ícone (logo) do 15o CEN: a Cruz domina todo o espaço das águas e seus braços horizontais ultrapassam a cena, do Infinito recebendo as águas e a Ele devolvendo os que por elas são banhados. A Cruz realiza a maravilhosa troca: no momento em que o homem crê entregar à morte o autor da vida, ele se entrega para doar a vida aos que são escravos da morte: “Ninguém me tira a vida, mas eu a ofereço por mim mesmo” (cf. Jo 10,18). No momento da morte do Senhor crucificado, rasgou-se o véu do templo, significando que, a partir da Cruz, Deus não é mais adorado num lugar, como falou Jesus à Samaritana, mas no coração rasgado do Pai, donde escorreu sangue e água: ali nasce a vida, a energia do amor. O corpo do Senhor é sepultado num jardim: nossos primeiros pais foram expulsos do Jardim onde, do Éden nascia um rio para irrigá-lo (Gn 2,10). Agora a fonte de água viva está sepultada num jardim e a criação é o lugar que, tocado pela Cruz, abrirá e fará jorrar a fonte da água viva que aplaca para sempre a sede dos que buscam matar a verdadeira sede, de vida, de amor.

A Cruz do ressuscitado, fonte da liturgia

Congresso Eucarístico em Florianópolis - SC

Congresso Eucarístico em Florianópolis – SC

A ressurreição de Cristo oferece-nos o rio de água viva que, saindo do túmulo, chega até nós através de seu Corpo incorruptível. O rio de água viva transforma-se em liturgia: ninguém vai ao Pai a não ser por Cristo; nada vem do Pai senão por Cristo que eternamente nasce do Pai. O Senhor é o vivente, o espírito doador de vida. Os ícones mostram com beleza fulgurante a nova realidade: o rio de água vida jorra do trono de Deus e do Cordeiro e fecunda a terra por ele banhada (Apc 22,1). Nasce a liturgia: a ação litúrgica não é teatro, não é lembrança do passado, não é simbolismo. A morte-ressurreição de Cristo está sempre presente, por isso vence nossa morte.

O mistério da Cruz, porém, tem sua realização plena com a ascensão do Senhor: a liturgia passa a acontecer numa relação de fé e se entra num novo tempo, os últimos tempos. Cristo abre as portas do Trono divino e dá vida à Igreja. Quando o povo de Deus se reúne para a celebração litúrgica Cristo está presente, é a cabeça que atrai o corpo em direção ao Pai, dando-lhe vida pelo Espírito.

A Cruz que abriu-nos as fontes da água viva, que torna real a celebração litúrgica realiza um duplo movimento: o povo reunido pela Palavra e pelo Sacramento atrai o Senhor e o Senhor arrebata o povo para junto do Trono. O Cristo que sobre aos céus é o Cristo que incessantemente vem a nós. A Cruz torna-se ponte de comunicação entre o humano e o divino, entre o passageiro e o eterno, torna o divino humano, e o humano divino.

Dessedentados pela água viva, clamamos sempre: “Vem, Senhor Jesus!” (Apc 22,20b).

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