A LITURGIA – PALAVRA E SACRAMENTO

A Divina Liturgia

A Divina Liturgia

Por mais bela que seja a celebração eucarística, por mais simbólicos que sejam os sinais realizados na sucessão dos ritos, permanecemos numa celebração religiosa sim, mas não ainda cristã. É o grande perigo do ritualismo, da crença mágica de que uma cerimônia comunica a graça por ser bem feita.

Para iluminarmos os sinais e atingirmos o mistério há um só caminho: o da fé. A fé é o encontro de duas liberdades: a de Deus que se revela com a do homem que, por obra do Espírito Santo, crê na revelação de Cristo. O Pai se entrega a nós através do Filho, no Espírito: é esse o sentido da Palavra de Deus proclamada em cada Liturgia.

O Sacramento se alimenta da Palavra

O ícone (cartaz) do 15o CEN representa plasticamente esse encontro: se o artista permanecesse no desenho de cruz, peixes, águas, ponte, pão repartido, estaríamos diante de sinais sagrados, de uma cena sacra, ainda não indicativa do mistério que quer simbolizar: o encontro entre Deus e o ser humano na Eucaristia.

Por isso, fecundam a cena duas Palavras reveladoras do conteúdo e da eficácia do mistério: “Vinde e vede!” e “Ele está no meio de nós!”. Por obra do Espírito, o revelador-realizador dos mistérios, a Liturgia da Palavra dá eficácia à Liturgia eucarística.

A Liturgia cristã, deste modo, ultrapassa o culto do Antigo Testamento e todos os outros cultos religiosos. Seria arrogante esta afirmação? A resposta está na Encarnação do Filho que se despojou em dois momentos decisivos da história: no Natal, deixando a condição divina para assumir a condição humana de servo; na Cruz-Ressurreição despojando-se da própria vida para dar-nos a Vida. O culto cristão é a memória atual desta verdade, novo absoluto na história humana.

A salvação operada por Cristo tem um objetivo: a divinização do homem e a humanização de Deus. O corpo sofrido-glorioso de Cristo torna-se o sacramento da glória de Deus e da salvação da humanidade, segundo a afirmação de Santo Irineu de Lião: “A glória de Deus é o homem vivente e a vida do homem é a manifestação de Deus” (Adv. Haer. 4,20,7).

No primeiro momento, aceitamos isso movidos por nossa liberdade de crer, pela liberdade da fé que nos leva a receber a revelação de Cristo, pelo Espírito Santo, na Palavra. No momento seguinte, o Espírito transforma em Cristo o que ofertamos e, momento último, comungamos o que foi consagrado, o Corpo glorioso do Senhor: a vida divina penetra todo o nosso ser e o nosso ser penetra a vida divina. É a comunhão sacramental.

Uma só Liturgia – a celeste e a terrestre

O Livro do Apocalipse nos ilumina a respeito do mistério sacramental: rasgam-se as cortinas dos céus e a assembléia terrena contempla a liturgia celeste: “Eram milhares de milhares, milhões de milhões e proclamavam em alta voz: ‘O Cordeiro imolado é digno de receber o poder, a riqueza, a sabedoria e a força, a honra, a glória e o louvor’. Ouvi também todas as criaturas que estão no céu, na terra, debaixo da terra e no mar, e tudo o que neles existe, e diziam: ‘Ao que está sentado no trono e ao Cordeiro, o louvor e a honra, a glória e o poder para sempre’” (Apc 5,11-30).

Congresso Eucarístico em Florianópolis - SC

Congresso Eucarístico em Florianópolis – SC

O Espírito nos ensina que, nos Sacramentos, participamos da Liturgia celeste e ela participa da Liturgia terrestre, no diálogo fecundo entre o céu e a terra, entre o divino e o humano, entre o Pai e nós, seus filhos, divinizados por seu Filho. Caem as muralhas que nos separam de Deus e a cidade terrestre pregusta a cidade celeste. Não há nenhum exagero em afirmarmos que participar da Liturgia é já viver a vida celeste.

Negar essa realidade seria tirar do Sacramento sua essência e transformá-lo em estéril cerimônia que pode, emocionalmente bem conduzida, levar a um encontro estético-sentimental consigo mesmo, mas nunca com o Senhor da Vida. A Eucaristia é louvor e glória da graça divina e deificação do homem (cf. Ef 1,1-10).

Deste modo, adquire toda a verdade de sentido o mergulho da Palavra dentro do ícone (cartaz) do Congresso: a Trindade nos fala: “Vinde e vede, o homem está no meio de nós!”, e nós falamos: “Vinde e vede: Deus está no meio de nós!”. Pela Encarnação, Deus vem morar no meio de nós; na Liturgia, nós vamos morar no seio da Trindade. O mistério da descida divina inclui o mistério da subida humana: “Vi a cidade santa, a nova Jerusalém, que descia do céu… . Deus veio morar no meio deles. Eis que faço novas todas as coisas” (cf. Apc 21,1-5a).

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