A LITURGIA, MISTÉRIO DA IGREJA

Palavra e Eucaristia

Palavra e Eucaristia

I – INTRODUÇÃO

Concílio Vaticano II (1962-1965), após 40 anos de seu encerramento, continuará pelas próximas décadas a destilar lenta e fecundamente sua riqueza na vida da Igreja. Certas leituras apressadas da vida da Igreja podem chegar à conclusão de que o Concílio foi traído e, de modo todo particular, teve o impacto diluído no longo pontificado de João Paulo II. A esses seria recomendável lembrar que 40 anos após o encerramento do Concílio de Trento (1542-1563) – a menina dos olhos da veneração dos conservadores e a gata borralheira dos progressistas – São Roberto Belarmino escrevia ao Papa pedindo-lhe que aplicasse as decisões conciliares! Fizeram-no até bispo de Cápua para tê-lo longe de Roma. Isso para dizer que os grandes lances renovadores de uma instituição multissecular e multifacetada como a Igreja Católica demandam anos – e muitas décadas – para serem absorvidos em seu corpo espiritual e organizacional.

Nem sempre é oportuno buscar coincidências em datas, mas, olhando-se o progresso na aprovação e promulgação dos documentos conciliares, um fato me chamou a atenção: o desenvolvimento cronológico da promulgação das quatro Constituições (SC, LG, DV, GS). A primeira – a Sacrosanctum Concilium-SC, sobre a Sagrada Liturgia (4/12/1963) – pareceu a mais atraente e a mais fácil. A grande palavra pós-conciliar foi a da renovação litúrgica e foi também a que mais problemas causou. Depois ofereço uma interpretação para o fato. Seguiu-se a Constituição dogmática Lumen Gentium-LG sobre a Igreja (21/11/1964), com a feliz insistência na Igreja Povo de Deus, superando uma eclesiologia tripartite, nem bíblica nem patrística, de Igreja hierarquia -religiosos – leigos. O tema que parecia ser o mais fácil antes do Concílio, tornou-se o mais difícil e renovador e deu-nos a Constituição Dogmática Dei Verbum-DV sobre a Revelação Divina (18/11/1965), superando a dicotomia Escritura e Tradição.

E, na véspera do encerramento da assembléia conciliar, parecendo um presente de boa vontade oferecido ao mundo, a Constituição Pastoral Gaudium et Spes-GS sobre a Igreja no mundo de hoje (7/12/1965). Favoreceu até uma leitura simples e triunfante: a Igreja se reconciliava com o mundo moderno, do qual assumia as alegrias e as esperanças.

Na homilia de encerramento (7/12/1965), Paulo VI citou o desafio que o humanismo laico e profano apresenta(va) ao Concílio e, portanto, à Igreja: “A religião do Deus que se fez homem encontrou-se com a religião (porque tal é) do homem que se faz Deus”. Diante de tamanho desafio, deduz o Papa que o caminho conciliar não é o do fácil anátema, combate, luta, e sim, o do bom samaritano: “Um imenso amor para com os homens penetrou totalmente o Concílio”.

Com esse mesmo espírito, no dia seguinte, festa da Imaculada Conceição de Maria, protótipo da história e destino humanos, declarada Mãe da Igreja, era encerrada a assembléia conciliar. Papa Montini, um homem reconciliado com a história e avesso a simplismos modernizantes, negação da modernidade, ao falar nesse “imenso amor para com os homens que penetrou totalmente o Concílio”, olhava para os passos dados na aula conciliar: tudo era parte constitutiva de um Deus que se faz homem, diante de um homem que se faz Deus. As quatro Constituições do Vaticano II se espelham no mistério da encarnação para abrir ao homem o mistério da divinização: “O Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14).

A antropologia de João Paulo II, uma cristologia

O Papa Karol Wojtylla (1978-…), último bispo participante do Concílio ainda no exercício do ministério, é um papa de talhe espiritual. As abundantes beatificações e canonizações são apenas a face mais visível de sua atividade para o renascimento da vida espiritual e mística na Igreja, superando o devocionismo e a ascese tradicional. Ao findar do Concílio, a mística católica passava por uma fase de descrédito, talvez por causa de uma visão distorcida do próprio conceito que, não sendo visto como comunhão de Deus com o homem e do homem com Deus, presta-se a interpretações misticistas e até neuróticas.

Paulo VI levou um susto quando o cardeal carmelita Atanásio Ballestrero sugeriu-lhe proclamar Teresa D’Ávila doutora da Igreja. Convenceu-se, porém, e aceitou. Para não favorecer demais os carmelitas, que já tinham João da Cruz, proclamou também a dominicana Catarina de Siena, as duas em 1970. João Paulo II deu o mesmo título a outra carmelita, Teresinha do Menino Jesus. E as comportas foram abertas e ninguém mais segura a grande explosão de luz com que os místicos iluminam a história. A vasta bibliografia depois publicada – felizmente também no Brasil – oferece-nos a oportunidade de mergulhar nesse insondável mistério da união com Cristo. Repete no mundo católico aquilo que Paissy Velichkovsky (1722-1794) fez para a Ortodoxia eslava que se estava empobrecendo num espiritualismo racionalista e ritualista, traduzindo para o eslavônio uma seleção de textos patrísticos com o nome de Filocalia. Uma obra poderosa que renovou o mundo monástico e leigo eslavo: em 1810 havia 452 mosteiros na Rússia; em 1914, 1025!

O mesmo vale para as atuais iniciativas editoriais que nos põem em contato com os textos dos místicos e com os Santos Pais: todos os grandes lances renovadores, na Igreja, são fruto de correntes de santidade..

O talhe espiritual de João Paulo II é um talhe antropológico: sua antropologia é a da GS 22. Este capítulo da Gaudium et Spes oferece a hermenêutica dos documentos do Papa atual: “A doutrina do Concílio trouxe novos aprofundamentos ao conhecimento da natureza da Igreja, abrindo os corações dos crentes a uma compreensão mais atenta dos mistérios da fé e das próprias realidades terrestres na luz de Cristo. N’Ele, Verbo feito carne, revelou-se realmente não só o mistério de Deus, mas também o próprio mistério do homem. N’Ele, o homem encontra redenção e plenitude”, escreve na Carta Apostólica Mane Nobiscum, proclamando o Ano Eucarístico. Somente em Cristo o homem pode se realizar em plenitude: Redemptor Hominis (O Redentor do Homem), foi sua encíclica programática.

Com isso, podemos afirmar que o atual pontificado buscou aprofundar a teologia conciliar insistindo em seus quatro temas centrais: a Liturgia (SC), que gera a Igreja (LG) com a Palavra (DV), e a alimenta para construir o homem novo, à imagem de Cristo (GS).

O Ano Eucarístico e a Liturgia

Muito se fez pela renovação litúrgica e, o que é normal em toda grande obra, houve acertos, exageros, retrocessos, boa vontade e sempre a capacidade de retornar às fontes. Deu-se muito valor ao casamento entre liturgia e linguagem moderna, infelizmente não se tendo prestado a devida atenção à renovação da assembléia cristã. Tem-se visto liturgias angustiadamente procurando agradar aos participantes, como se esse fosse o caminho: a liturgia é um mistério e não tem como finalidade agradar outro que não a Deus!

Se olharmos o Capítulo II da Sacrosanctum Concilium, veremos como os Bispos conciliares trataram do tema, na mais perfeita consonância com a tradição litúrgica da Igreja, iniciando pelo ápice e caminhando para aspectos menores (mas importantes): o Mistério Eucarístico – os outros sacramentos e sacramentais – o Ofício Divino – o Ano Litúrgico – a Música sacra – a Arte sacra e alfaias litúrgicas.

Esta é a ordem teológica. Os mais distraídos acham que se deva começar pelo último ou penúltimo tema, mais impressionáveis…. Talvez esse equívoco seja a causa de muita esterilidade celebrativa e dê margem ao saudosismo dos pontificais cerimoniosos.

João Paulo II, a partir da Tertio millennio vai concluindo seu magistério cujo centro foi Cristo e o homem, com a Eucaristia, fonte e ápice da Igreja. Há uma lógica profunda em seus documentos, lógica essa que ele mesmo descreve na Mane Nobiscum: a encíclica Redemptor hominis – a Tertio millennio adveniente – a Carta apostólica Dies Domini (o domingo como dia do Senhor, da Eucaristia) – o Jubileu do Ano 2000 (com o Congresso Eucarístico)– a Carta apostólica Novo millennio ineunte (em que sugere a perspectiva de um empenho pastoral fundado na contemplação do rosto de Cristo, no âmbito duma pedagogia eclesial capaz de tender para a «medida alta» da santidade, procurada especialmente através da arte da oração) – a Carta apostólica Rosarium Virginis Mariae (retoma o discurso da contemplação do rosto de Cristo a partir da perspectiva mariana), a Carta encíclica Ecclesia de Eucharistia (com ela ilustrando o mistério da Eucaristia na sua ligação indivisível e vital com a Igreja) – o Ano da Eucaristia (num horizonte que se foi enriquecendo de ano para ano, embora permanecendo sempre bem assentado sobre o tema de Cristo e da contemplação do seu Rosto). A Eucaristia é a fonte e o cume do pontificado wojtylliano, pois o é também da vida da Igreja e de cada um de nós.

II – O MISTÉRIO DA LITURGIA, MISTÉRIO DE SANTIDADE

Os teólogos espirituais não foram convidados ao Concílio. Foi uma grata surpresa a Constituição dogmática Lumen Gentium sobre a Igreja ter dedicado o capítulo V ao tema da santidade. Outra surpresa, ter afirmado que a vocação à santidade é universal, vem do batismo e não é apanágio dos religiosos ou de um ou outro leigo heróico. E, maior surpresa ainda, foi ter afirmado que o primeiro meio de santificação é a Palavra de Deus, seguindo-se os sacramentos e outros. Surpresa, porque os autores espirituais da época não falavam da Palavra como meio de santificação. Então, como isso aconteceu? Os autores são conformes em afirmar que, além do Espírito Santo, a grande influência foi dos biblistas, entre eles Georges Auzou, que falava no “sacramento da Palavra”. A fonte dos Sacramentos é a Palavra de Deus. Sem a Palavra, o sacramento torna-se rito mágico. E, quando falamos em Sacramento queremos nos referir à Eucaristia, síntese de toda ação divina, pois nela recebemos a Palavra e a Palavra feita Carne, Jesus Cristo.

De lá para cá, desenvolveu-se uma sólida teologia espiritual, rica, ecumênica, missionária, comprometida. Uma teologia espiritual onde a tradição ocidental se enriquece com as duas outras tradições de santidade na Igreja: a oriental e a evangélica, numa mútua fecundação.

Nas páginas seguintes, quero oferecer ao leitor uma experiência de teologia sacramental que tem como centro o Batismo-Eucaristia e que é fruto do estudo da espiritualidade litúrgica oriental. Ofereci a estudantes do ITESC este tema em forma de seminário, partindo dos ícones e festas bizantinas. Servi-me do texto num curso de teologia para leigos sob o tema Liturgia e, surpresa minha, foi grande o proveito e entendimento: o mistério não é obscuro, é sempre Luz. Igualmente publiquei estes temas no Jornal da Arquidiocese de Florianópolis, partindo do “logo” do 15o Congresso Eucarístico Nacional (a realizar-se em Florianópolis no ano de 2006). Espero que signifiquem para o eventual leitor ao lê-los a alegria que me deram ao escrevê-los.

1 – VINDE, PAI DOS POBRES!

O Batismo e a Eucaristia nos levam ao centro do mistério da vida cristã: o Cristo. A água e a hóstia são geradas na cruz onde está o Senhor e Salvador, de cujo lado aberto correm sangue e água, os dois sacramentos que geram o cristão e a Igreja. A celebração do mistério sempre abre uma janela para a eternidade, permitindo-nos contemplar o que acontece além das condições do espaço e do tempo. Neste primeiro momento queremos abrir essa janela e contemplar o Espírito Santo. Tudo é obra do Espírito: o Pai é o ventre fecundo, o Filho a obra-prima e o Espírito Santo é o artista. Ele é verdadeiramente o artista da criação e da transformação de cada criatura em filho de Deus.

O Espírito Santo está em tudo e em todos

Ele é quase invisível, não lhe conhecemos o rosto: a obra leva a assinatura do artista, mas não lhe mostra a face. O Espírito está em todo o universo e em todos os corações, pois é o artista com o qual o Pai esculpe sua obra.É representado mais por símbolos de sua ação: o fogo que abrasa, que purifica o ouro, o vento impetuoso que tudo transforma por onde passa, a brisa suave indicando a presença do amante. E a pomba. Segundo o biblista Pe. Ney Brasil, assim como o Filho é simbolizado pelo manso cordeiro, de modo análogo o Espírito o é pela silenciosa, graciosa e pacífica pomba. Tudo na Trindade é amor, suavidade, paz.

Ele gera a unidade criando a diversidade: no Pentecostes o fogo era um só, mas se repartiu em doze línguas: cada Apóstolo recebeu a sua e todos se entendiam, pois uma era a fonte da comunicação, o Espírito. De uma Igreja o Espírito gerou doze igrejas: o artista ama a variedade harmoniosa. No mundo, cada igreja expressa uma cultura, um povo, unindo-as na harmonia do amor. Uma Igreja ou comunidade que não aceita a variedade não é espiritual: é obra material de algum artista humano.

O Espírito é a fonte da liturgia

A vida cristã é uma grande liturgia, a criação expressa a liturgia trinitária, a Eucaristia expressa a liturgia pascal da Ceia. Através do Espírito, o amor divino se estende a toda a vida humana, tudo penetrando: o coração, o ser pessoal, a cultura, as relações pessoais, a sociedade.

Sem o Espírito Santo não existe liturgia: existem cerimônias vazias, padres bem enfeitados em seus paramentos e concelebrantes sentindo-se cada vez mais esterilizados na vida de fé, porque privados do gerador da vida, o Espírito do Senhor.

A Trindade despe-se de sua glória e reúne em seu seio pecadores e santos, porque o Espírito gera misericórdia. Quando contemplamos o imenso afresco de Miguelangelo na Capela Sixtina, representando o Juízo final, estamos diante de uma obra humana: quem pode garantir que em algum dia acontecerá aquela cena dolorosa de pecadores atirados no inferno? Será que o Espírito Santo não tocará todos os corações? A Trindade de André Rublev é mais espiritual: em seu inspirado ícone, coloca as Três Pessoas divinas hospedando toda a humanidade no tesouro eucarístico.

Vinde, Pai dos pobres!

Esta antiqüíssima prece cristã (estrofe do A nós descei, divina luz) manifesta a pobreza divina: Deus é pobre (Ele nada tem, Ele “é”: Eu sou aquele que é, Ex 3,14); o Filho é pobre, tudo recebe do Pai, que é “maior” do que Ele (Jo 14,28), recebe e nos dá o Espírito, o Pai dos pobres. É pobre porque é amor puro que se doa, com isso tornando possível a liturgia.

E isso é fundamental: na liturgia o Espírito faz do Filho pão para os pobres em todos os sentidos: espiritual, material, moral. Ele vai além: torna Deus pobre e o pobre Deus: “Tudo o que fizestes a um desses pequeninos é a mim que o fizestes…” (Mt 25,40). No Espírito, Jesus assume todo o sofrimento humano como seu, assume nossa morte e nos dá a ressurreição.

É conhecida a palavra de São João Crisóstomo, querendo unir a liturgia eucarística à liturgia da vida: o sacramento do altar é o sacramento do irmão; deixamos o altar da eucaristia para ir ao altar do pobre. Os dois altares são inseparáveis, porque a finalidade da liturgia é gerar uma Igreja da compaixão, à imagem de Deus. A Igreja se transforma na sarça ardente, da qual ninguém pode se aproximar sem “ver a miséria do povo e ouvir seus gritos” (cf. Ex 3,7). Deus é inacessível a quem não se deixa trabalhar pelo Espírito Pai dos pobres.

O liturgista Jean Corbon (1924-2001) nos lembra que os pobres caminham para debaixo do altar na grande liturgia eterna, conforme lemos no Apocalipse (6,9ss): o altar do holocausto se transforma no altar dos pobres, da compaixão, onde gritarão: “Até quando, Senhor, tardarás a fazer justiça, vingando nosso sangue contra os habitantes da terra?”.

Ele, o Espírito Santo, no mesmo hino é chamado de grande Consolador: recria o coração dos pobres na coragem de viver, recria no coração dos ricos a compaixão que leva a se esvaziar, ser eucaristia, pão repartido. Na liturgia, indicando cada pessoa ao nosso lado, o Espírito Santo falará em seu silêncio: “Ele está no meio de nós”.

2 – A LITURGIA – PALAVRA E SACRAMENTO

Por mais bela que seja a celebração eucarística, por mais simbólicos que sejam os sinais realizados na sucessão dos ritos, permanecemos numa celebração religiosa sim, mas não ainda cristã. É o grande perigo do ritualismo, da crença mágica de que uma cerimônia comunica a graça por ser bem feita.

Para iluminarmos os sinais e atingirmos o mistério há um só caminho: o da fé. A fé é o encontro de duas liberdades: a de Deus que se revela com a do homem que, por obra do Espírito Santo, crê na revelação de Cristo. O Pai se entrega a nós através do Filho, no Espírito: é esse o sentido da Palavra de Deus proclamada em cada Liturgia.

O Sacramento se alimenta da Palavra

O encontro entre Deus e o ser humano, na Eucaristia, pode ser expresso por duas Palavras reveladoras do conteúdo e da eficácia do mistério: “Vinde e vede!” e “Ele está no meio de nós!”. Por obra do Espírito, o revelador-realizador dos mistérios, a Liturgia da Palavra dá eficácia à Liturgia eucarística.

A Liturgia cristã, deste modo, ultrapassa o culto do Antigo Testamento e todos os outros cultos religiosos. Seria arrogante esta afirmação? A resposta está na Encarnação do Filho que se despojou em dois momentos decisivos da história: no Natal, deixando a condição divina para assumir a condição humana de servo; na Cruz-Ressurreição despojando-se da própria vida para dar-nos a Vida. O culto cristão é a memória atual desta verdade, novo absoluto na história humana.

A salvação operada por Cristo tem um objetivo: a divinização do homem e a humanização de Deus. O corpo sofrido-glorioso de Cristo torna-se o sacramento da glória de Deus e da salvação da humanidade, segundo a afirmação de Santo Irineu de Lião: “A glória de Deus é o homem vivente e a vida do homem é a manifestação de Deus” .

No primeiro momento, aceitamos isso movidos por nossa liberdade de crer, pela liberdade da fé que nos leva a receber a revelação de Cristo, pelo Espírito Santo, na Palavra. No momento seguinte, o Espírito transforma em Cristo o que ofertamos e, momento último, comungamos o que foi consagrado, o Corpo glorioso do Senhor: a vida divina penetra todo o nosso ser e o nosso ser penetra a vida divina. É a comunhão sacramental.

Uma só Liturgia – a celeste e a terrestre

O Livro do Apocalipse nos ilumina a respeito do mistério sacramental: rasgam-se as cortinas dos céus e a assembléia terrena contempla a liturgia celeste: “Eram milhares de milhares, milhões de milhões e proclamavam em alta voz: ‘O Cordeiro imolado é digno de receber o poder, a riqueza, a sabedoria e a força, a honra, a glória e o louvor’. Ouvi também todas as criaturas que estão no céu, na terra, debaixo da terra e no mar, e tudo o que neles existe, e diziam: ‘Ao que está sentado no trono e ao Cordeiro, o louvor e a honra, a glória e o poder para sempre’” (Ap 5,11-30).

O Espírito nos ensina que, nos Sacramentos, participamos da Liturgia celeste e ela participa da Liturgia terrestre, no diálogo fecundo entre o céu e a terra, entre o divino e o humano, entre o Pai e nós, seus filhos, divinizados por seu Filho. Caem as muralhas que nos separam de Deus e a cidade terrestre pregusta a cidade celeste. Não há nenhum exagero em afirmarmos que participar da Liturgia é já viver a vida celeste.

Negar essa realidade seria tirar do Sacramento sua essência e transformá-lo em estéril cerimônia que pode, emocionalmente bem conduzida, levar a um encontro estético-sentimental consigo mesmo, mas nunca com o Senhor da Vida. A Eucaristia é louvor e glória da graça divina e deificação do homem (cf. Ef 1,1-10).

Deste modo, adquire toda a verdade de sentido a Trindade que nos fala: “Vinde e vede, o homem está no meio de nós!”, e nós falamos: “Vinde e vede: Deus está no meio de nós!”. Pela Encarnação, Deus vem morar no meio de nós; na Liturgia, nós vamos morar no seio da Trindade. O mistério da descida divina inclui o mistério da subida humana: “Vi a cidade santa, a nova Jerusalém, que descia do céu… . Deus veio morar no meio deles. Eis que faço novas todas as coisas” (cf. Ap 21,1-5a).

 3 – A CRUZ – FONTE DA ÁGUA VIVA

O homem tem sede. A história da humanidade se confunde com a busca da água e a Escritura é rica em textos onde nossos pais escavam poços.

À sede física Deus acrescentou em cada um de nós uma outra sede: da água viva, de Deus. E aqui reside o drama da existência humana: cada um cava o poço onde pensa encontrar água para essa sede: a religião, a ideologia, o dinheiro, o poder. Quanto mais fundo cava, mais sede sente.

O mistério da sede de água viva tem dois sujeitos e dois objetos: Deus tem sede de nós e nos procura e nós temos sede de Deus e O procuramos, mesmo buscando-o onde não se encontra. O Novo Testamento mostra-nos esse mistério na figura da Samaritana: a mulher busca água, Jesus busca água (Jo 4,1-42).

Nossa procura equivocada gera o lamento do Senhor: “Meu povo cometeu uma dupla perversidade: abandonou-me a mim, fonte de água viva, para cavar cisternas, cisternas fendidas que não retêm a água” (Jr 2,13). Quanto mais profundo são escavadas, mais angustiante a necessidade.

Os cristãos buscam matar sua sede, mas nem sempre o conseguem, porque buscam água na cisterna que eles mesmos cavam: o ativismo da caridade, as liturgias bem preparadas, mas que acabam sendo a celebração da própria vida, a freqüência legalista às missas, no final das quais não sabem responder por que foram, os que confundem encontro com o Mistério com o sentimento passageiro de emoções religiosas.

A essa busca frustrada pela água viva, que une liturgia e vida, Jesus responde sorrindo: “Se conhecêsseis o dom de Deus!” (cf. Jo 4,10). A água que dá vida em plenitude é dom, nasce do trono divino. Como atingi-la?

A cruz de Cristo abre a rocha da qual jorra a água viva

Criados à imagem e semelhança de Deus, somente nele nossa alma encontrará alívio para sua sede; alívio, porque o dessedentar completo será no encontro final e eterno. O rio de água ingressou na história com a encarnação do Filho: “Deus tanto amou o mundo que lhe deu seu Filho único”(Jo 3,16). Todo o Antigo Testamento é sombra do que se realiza com a vinda do Filho na carne e se completa na hora da cruz.

O Sacramento jorra da Cruz, que realiza a maravilhosa troca: no momento em que o homem crê entregar à morte o autor da vida, ele se entrega para doar a vida aos que são escravos da morte: “Ninguém me tira a vida, mas eu a ofereço por mim mesmo” (cf. Jo 10,18). No momento da morte do Senhor crucificado, rasgou-se o véu do templo, significando que, a partir da Cruz, Deus não é mais adorado num lugar, como falou Jesus à Samaritana, mas no coração rasgado do Pai, donde escorreu sangue e água: ali nasce a vida, a energia do amor. O corpo do Senhor é sepultado num jardim: nossos primeiros pais foram expulsos do Jardim onde, do Éden nascia um rio para irrigá-lo (Gn 2,10). Agora a fonte de água viva está sepultada num jardim e a criação é o lugar que, tocado pela Cruz, abrirá e fará jorrar a fonte da água viva que aplaca para sempre a sede dos que buscam matar a verdadeira sede, de vida, de amor.

A Cruz do ressuscitado, fonte da liturgia

A ressurreição de Cristo oferece-nos o rio de água viva que, saindo do túmulo, chega até nós através de seu Corpo incorruptível. O rio de água viva transforma-se em liturgia: ninguém vai ao Pai a não ser por Cristo; nada vem do Pai senão por Cristo que eternamente nasce do Pai. O Senhor é o Vivente, o espírito doador de vida. O Apocalipse descreve com beleza fulgurante a nova realidade: o rio de água vida jorra do trono de Deus e do Cordeiro e fecunda a terra por ele banhada (cf Ap 22,1). Nasce a liturgia: a ação litúrgica não é teatro, não é lembrança do passado, não é simbolismo. A morte e ressurreição de Cristo estão sempre presentes, por isso vencem nossa morte.

O mistério da Cruz, porém, tem sua realização plena com a ascensão do Senhor: a liturgia passa a acontecer numa relação de fé e se entra num novo tempo, os últimos tempos. Cristo abre as portas do Trono divino e dá vida à Igreja. Quando o povo de Deus se reúne para a celebração litúrgica, Cristo está presente, é a cabeça que atrai o corpo em direção ao Pai, dando-lhe vida pelo Espírito.

A Cruz que abriu-nos as fontes da água viva, que torna real a celebração litúrgica, realiza um duplo movimento: o povo reunido pela Palavra e pelo Sacramento atrai o Senhor e o Senhor o arrebata para junto do Trono. O Cristo que sobe aos céus é o Cristo que incessantemente vem a nós. A Cruz torna-se ponte de comunicação entre o humano e o divino, entre o passageiro e o eterno, torna o divino humano, e o humano divino.

Dessedentados pela água viva, clamamos sempre: “Vem, Senhor Jesus!” (Apc 22,20b).

4 – O LADO ABERTO, MANANCIAL DE ÁGUA VIVA

“Quando Deus iniciou a criação do céu e da terra, a terra era deserta e vazia, e havia treva na superfície do abismo; o sopro de Deus pairava na superfície das águas” (Gn 1,1-2). Somente o sopro de Deus poderia dar vida à criação. E Deus, então, disse: “Que a luz seja” (Gn 1,3c). E a Palavra de Deus comunicou vida à obra da criação. Pela Palavra, as águas tornaram-se geradoras de vida, mas a liberdade levou os primeiros pais ao pecado e as águas geraram a morte pelo dilúvio. E a sede de águas vivas é plantada no coração do ser humano e de toda a criação: sede cósmica da presença do Criador.

Os profetas anunciavam um tempo de águas repousantes, quando Deus conduziria seu povo junto a mananciais onde pudesse descansar da sede de sua presença (cf. Is 49,10, Sl 23[22]). Esses tempos messiânicos têm início com a encarnação do Filho e com o mistério que se irradia a partir do Monte Calvário: a Paixão, Morte-Ressurreição e Ascensão. O Espírito enviado pelo Pai é o autor da fecundidade da Cruz.

Em cada Liturgia, contemplando o Crucificado, recordamos que “um dos soldados feriu-lhe o lado com a lança, e imediatamente saiu sangue e água” (Jo 19,34). Os Santos Pais da Igreja viram na água que sai do lado direito do peito do Senhor o Espírito, realização da palavra à samaritana junto ao poço de Jacó: “A água que eu lhe darei se tornará nele uma fonte que jorrará para a vida eterna” (Jo 4,14). E no sangue, contemplaram a vida eterna: “E o pão que eu darei é a minha carne dada para que o mundo tenha vida” (Jo 6,51).

O peito traspassado é o novo templo: dele jorra o Espírito e a vida, num movimento de subida e descida: a água e o sangue que escorrem do lado do Senhor geram a vida, e a vida retorna ao lado direito do Senhor. O templo deixa de ser um lugar para ser a morada eterna em espírito e em verdade (cf. Jo 4,25b). Do lado do primeiro Adão nasceu Eva, a mãe da vida que trouxe em si o germe da morte. Do lado aberto de Cristo, o novo Adão, nasce a Igreja, a nova Eva, mãe que gera filhos chamados à vida eterna.

A nova criação é banhada pela água e pelo sangue do Cordeiro: “A água, ao ser consagrada pelo mistério da cruz, é usada no banho espiritual e no cálice da salvação”, afirma Ambrósio de Milão. A Liturgia realiza esse mistério quando o presidente da Celebração coloca algumas gotas de água no vinho: o ser humano e toda a criação são misturados no vinho e, pela ação do Espírito, são consagrados no Sangue.

A Igreja nasce aos pés da Cruz

Perto da cruz de Jesus permaneciam de pé a sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria de Clopas, e Maria de Mágdala; e perto de sua mãe, o discípulo que ele amava (cf. Jo 19,25-26). Sobre eles correu o sangue e a água. E assim, ali aos pés da cruz, nascia a primeira Igreja: o Espírito que saiu do lado aberto derramou a água do Batismo e o Sangue da Eucaristia. O mesmo Espírito fecundou a terra e toda a criação com o sangue e a água. A morte foi vencida e do madeiro brotou a nova criação. A primeira Igreja nascia do peito do Senhor e, agora, nasce das águas do Batismo e da Eucaristia.

As águas da morte se tornam águas geradoras de vida

As águas do Batismo são vivificadas pelo Espírito e se tornam geradoras de vida. Ali está a presença invisível do Pai. A Trindade revelada no Batismo do Senhor se manifesta agora, gerando os Sacramentos da Igreja. O que antes era figura, na Liturgia cristã se torna realidade, pois é a realização do mistério pascal.

Para os antigos, o fundo das águas dos rios e mares era a habitação dos seres malignos e de seu chefe. A cruz que mergulha nas águas enfrenta e destrói os monstros que nela habitavam.

A liturgia cristã não é a realização de simbologia, expressão de uma cultura, gestos mágicos que detêm poderes ocultos. A Liturgia é a fonte das águas vivas onde recebemos o Batismo, novo nascimento pela nova iluminação: “Que a luz seja!” E a luz veio a ser (Gn 1,3b).

Em seu Batismo, Jesus assume e transforma a nossa existência

Na festa do Batismo do Senhor, assim canta a liturgia do Oriente cristão no Cânon matutino escrito por São Cosme de Maiúma (†760): “O Senhor que tira a impureza dos homens, purificando-se por eles no Jordão, fez-se voluntariamente semelhante a eles, permanecendo, contudo o que era; e ilumina os que estão nas trevas, porque se recobriu de glória”.

Nas Laudes, assim se expressa o Patriarca Germano, de Constantinopla (†733): “A verdadeira luz apareceu e a todos ilumina. Cristo, superior a toda pureza, é batizado conosco; infunde a santidade na água que se torna purificação para as nossas almas. Tudo o que vemos é terrestre, tudo o que contemplamos é mais sublime que os céus. Mediante a ablução vem a salvação, mediante a água vem o Espírito, mediante a descida na água vem a nossa subida a Deus. Admiráveis são tuas obras, Senhor! Glória a ti!”

Na Liturgia cristã, a Cruz que desce nas águas é ponte para a eternidade.

5 – A LITURGIA EUCARÍSTICA, NOVA JERUSALÉM

Escreve Teodoreto de Ciro (séc. V): “O lado aberto deixa sair a fonte de vida, que com dupla torrente vivifica o mundo. Uma, no batistério, que renova e cobre com a veste imortal; outra, à mesa divina, alimenta os renascidos como leite aos pequeninos”.

A liturgia eucarística é obra do Espírito que revela o Verbo e nos abre ao ato de fé e à entrega da vida e do mundo ao Pai. Assim, entre a Liturgia da Palavra e a Liturgia Eucarística a comunidade proclama o “Creio” e apresenta ao Pai as oferendas do pão e do vinho, simbolizando toda a criação, para serem consagradas e vivificadas no Senhor. Algumas famílias litúrgicas oferecem, além do pão e do vinho, óleo, cereais, frutos da terra e do trabalho do homem e da mulher. As oferendas possuem um caráter totalizante: tudo é ofertado, toda a criação enfraquecida pelo pecado é apresentada ao Pai para que seja renovada, revitalizada, para que “a morte seja vencida” (Irineu de Lião).

O ingresso na Jerusalém celeste

A Oração eucarística tem início com o Prefácio (anáfora – movimento para o alto). O presidente da celebração convida a comunidade a ascender aos céus, acompanhando o Cristo em sua ascensão: “Corações ao alto!”, subamos aos céus! e todos respondemos: “Já os temos no Senhor”, já estamos na Jerusalém celeste! Segue-se o hino de louvor à obra do Pai que se encerra com uma explosão no templo do universo, unindo céus e terra no canto da nova Jerusalém: “Santo, Santo, Santo! … o céu e a terra proclamam a vossa glória!” (cf. Is 6,3). A ressurreição de Cristo une céus e terras e, em Cristo, tudo é recapitulado: a liturgia celeste se une à liturgia terrestre. Por isso, na Oração eucarística se faz “memória” da paixão, morte, ressurreição e ascensão do Senhor, faz-se memória da Igreja triunfante, da Igreja militante, da Igreja padecente, pois toda a Igreja se faz presente em cada Liturgia.

A comunidade pede ao Pai que envie o Espírito (epíclese) para que toda essa memória das maravilhas divinas seja transformada em Cristo. Na liturgia de S. Basílio de Cesaréia: “Pai! Manda o teu Espírito vivificante sobre nós e sobre estes dons que ofertamos. Faz deste pão o sagrado corpo de teu Cristo, e do que está neste cálice o sangue precioso de teu Cristo, transformando-os com o teu Espírito Santo!” e na liturgia latina: “… Pai, … Santificai, pois, estas oferendas, derramando sobre elas o vosso Espírito, a fim de que se tornem para nós o corpo e o sangue de Jesus Cristo, vosso Filho e Senhor nosso”. Na liturgia latina, a epíclese antecede a narração da última ceia; nas liturgias orientais, é após a narração. A ação é a mesma: o Pai age pelo Espírito Santo, e é pelo Espírito que as ofertas se tornam o Corpo e o Sangue do Ressuscitado. O Espírito Santo é o verdadeiro artista de todos os sacramentos, obras-primas da criação nas quais o divino se faz humano e o humano, divino (N. Cabasilas). Por Ele, o Pai realiza o Pentecostes eucarístico: o Espírito sai do lado aberto do Senhor e com ele jorra o alimento dos santificados pelo batismo, ao mesmo tempo santificando tudo o que foi oferecido, “para nós”, gerando a comunidade eclesial: a Igreja nasce da Eucaristia.

Ação de graças que se faz comunhão

A Oração eucarística se conclui com a grande doxologia, hino de louvor ao Pai, por Cristo, com Cristo e em Cristo, no Espírito Santo.

As oferendas foram consagradas no Corpo e Sangue do Senhor, através dos quais é gerado o povo de Deus. Embora sendo muitos, formamos um só Corpo em Cristo. Então Cristo se une à nossa oração, ensina-nos a rezar e reza conosco ao Pai a sua oração: seu Pai é nosso Pai.

Com Ele, damos ao irmão o abraço da paz e, mais uma vez, a Liturgia realiza nossa unidade com o Senhor: um pedaço do Pão é mergulhado no Sangue, através da humanidade de Cristo nossa humanidade participa de sua divindade.

E recebemos a graça de “tomar e comer, tomar e beber”, o Senhor ressuscitado aceita ser triturado (trôghein)e bebido por nós: a Comunhão realiza a comunhão cósmica, somos tudo em Cristo. Conclui o teólogo evangélico J. S. Drey: “A Eucaristia é o céu, é a pregustação do que nos é reservado no Reino futuro”. O cosmos é mergulhado nos abismos do amor da Trindade.

Igreja santa e pecadora

A fraqueza humana torna-se o lugar da realização da potência divina, pois recebemos “o remédio da imortalidade” (Inácio de Antioquia). Diversas vezes, durante a celebração, a Igreja pede perdão dos pecados (ato penitencial, após o Pai nosso, na oração pela paz, no Cordeiro de Deus…); o pedido de perdão vivifica a Igreja peregrina neste mundo, a qual, ao mesmo tempo, é una com a comunhão dos santos. Seu esplendor tem origem no dinamismo da família dos pecadores perdoados: a conversão permanente regenera a identidade filial dada pelo Pai.

A presença do Corpo de Cristo na Eucaristia transfigura a Igreja no Corpo de Cristo e o “sacramento do altar leva ao sacramento do irmão” (S. João Crisóstomo). “Ó sagrado banquete no qual recebemos Cristo, fazemos memória de sua paixão, a mente enche-se de graça e nos é dado o penhor da vida futura” (Hino O Sacrum Convivium).

6 – A LITURGIA – COMUNHÃO COM DEUS E A CRIAÇÃO

Nossa vida decorre entre a luz que vem do Oriente e se põe no Ocidente e necessitamos de uma ponte que conduza do Ocidente ao Oriente, faça o caminho do retorno, a luz do entardecer caminhar para a Luz sem ocaso. Cristo é a ponte, o Pontífice entre o homem e Deus: realiza nossa comunicação com Deus, com os seres humanos, com toda a criação. O Senhor que ascende aos céus é a ponte pela qual desce o Espírito Santo e pela qual subimos à comunhão trinitária.

Solidão de Deus, solidão do homem

Na vida divina não há lugar para a solidão: é a comunhão do Pai, do Filho e do Espírito Santo, a Trindade santa. Na criação divina não há lugar para a solidão, caos inicial no qual Deus pronunciou o “Que a luz seja!”. E a luz veio a ser”, gerando a vida (Gn 1,3). A luz organizou o caos primitivo e, ordenando um ser para o outro, iniciou a comunhão entre os seres. Na vida humana também não há lugar para a solidão: “Não é bom para o homem ficar sozinho. Quero fazer para ele uma ajuda que lhe seja adequada” (Gn 2,18). Somente agora, o homem que tinha tudo sob seu domínio, pôde exclamar: “Eis, desta vez, o osso dos meus ossos e a carne de minha carne” (Gn 3,23). O “osso dos meus ossos” refere-se a todos os seres humanos e não somente à mulher: a comunicação supõe sempre outro ser humano, a face do outro.

A felicidade que brotava da comunhão entre o homem e a mulher tinha como fonte a comunhão divina, pois foram feitos à imagem e semelhança de Deus. Paradoxalmente, a ruptura dessa comunhão pelo pecado produziu duas solidões: Deus sentiu-se só e o homem sentiu-se só: Deus não pode mais existir sem aquele que criou à sua imagem, nem o homem pode subsistir sem sua semelhança. Nasce uma sede inextinguível no coração divino e no coração humano.

Sede de Deus, sede do homem

‘”Adão, onde estás?” (Gn 3,9): é a sede do Deus vivo à procura do homem e da mulher. Toda a história da salvação é conseqüência desta sede de Deus pelo homem: a salvação de Noé, a chamada dos patriarcas, a eleição de um povo, a aliança no Sinai, a aliança com os profetas e, finalmente, no ventre de Maria Deus encontra o primeiro lugar onde matar sua sede: seu Verbo se encarna no ventre virginal dela e assume a natureza humana, ali gerando a primeira ponte entre o divino e o humano desde o pecado dos primeiros pais.

Por sua vez, toda a história humana é também a busca de poços onde matar a sede de Deus, inseparável da condição humana: “Ó Deus, … minh’alma tem sede de ti; minha carne desfalece por ti, em uma terra ressequida, esgotada, sem água” (Sl 63[62], 2). Afirma Orígenes que a história humana é a história de cavar poços: “Meu povo cometeu uma dupla perversidade: abandonou-me a mim, fonte de água viva, para cavar poços, poços fendidos que não retém água” (Jr 2,13). No encontro com a mulher samaritana deparamo-nos com a dupla sede: Jesus busca água, a mulher busca água (cf. Jo 4,1-42). À samaritana Jesus sugere: “Se conhecesses o dom de Deus!” (cf. Jo 4,40). Neste encontro à beira de um poço é anunciada a fonte da água viva que jorrará do lado aberto do Senhor, água na qual se constrói a ponte de comunicação entre Deus e o homem.

A comunhão, restauração do diálogo divino-humano

“Isto é o meu corpo, que é para vós; fazei isto em memória de mim” (1Cor 11, 24). A eucaristia aplaca a sede divina e a sede humana: quando Deus oferece seu Filho como pão para nós, assume nossa natureza, elevada até o trono divino donde jorram rios de água viva. Através da comunhão, entramos no mistério da comunhão trinitária, onde termina toda solidão. É antecipação da comunhão definitiva na consumação da história.

O momento em que comungamos o Corpo do Senhor ressuscitado foi precedido de outra comunhão, obra do Espírito: ele nos fez entrar em comunhão uns com os outros. Deste modo, a comunhão no Espírito nos fez ser comunhão fraterna pondo-nos em comunhão com Cristo, com Deus e com tudo o que é de Deus, pois a eucaristia é comunhão cósmica: o pão e o vinho, frutos do primeiro trabalho do Criador, frutos do segundo trabalho, do homem e da mulher, e agora, frutos do trabalho do Espírito; a tudo diviniza e mergulha no esplendor da luz inicial: faz-se, a cada vez, a Luz.

A Liturgia edifica a ponte entre as comunidades humanas – a água do batismo une as ilhas onde vivem os homens: ela cura as nações (cf. Apc 22,2) e faz correr para elas, como um rio, a paz (cf. Is 66,12).

Comunhão com Cristo, comunhão com a criação

Atravessamos a ponte que nos conduz à Jerusalém celeste não de mãos limpas e ombros leves: nossas mãos estão marcadas pelo sangue e os ombros pelo peso do homem que foi assaltado no caminho: no pão e no vinho depositados no altar incluímos os pecadores, os leprosos, os doentes, os famintos, os solitários, os estrangeiros, nosso evangelho vivência do Evangelho. Tudo oferecemos para que tudo seja transfigurado pelo Espírito.

E não oferecemos solitariamente: toda a Igreja oferece conosco, a do céu e a da terra. Cada um de nós representa misticamente a totalidade da obra divina, pois Deus está em tudo e, pela comunhão, estamos em Deus.

Termina a solidão e a sede: Deus nos encontra e nós o encontramos: “A glória de Deus é o homem vivente e a vida do homem é a manifestação de Deus. […] Deus é a glória do homem, e o homem é o receptáculo da energia de Deus e de toda a sua sabedoria e poder”.

7 – VINDE E VEDE – ELE ESTÁ NO MEIO DE NÓS

“Ele mostrou-me depois um rio de água da vida, brilhante como cristal, que jorrava do trono de Deus e do Cordeiro. No meio da praça da cidade e dos dois braços do rio, há uma árvore de vida que frutifica doze vezes. Cada mês ela dá seu fruto, e sua folhagem serve para a cura das nações. Não haverá mais maldição. O trono de Deus e do Cordeiro estará na cidade e seus servos lhe prestarão culto: verão sua face, e seu nome estará sobre suas frontes. Não haverá mais noite, ninguém mais precisará de luz da lâmpada nem da luz do sol, porque o Senhor Deus difundirá sobre eles a sua luz, e reinarão pelos séculos dos séculos” (Apc 22,1-5).

Visão grandiosa da liturgia cristã, realização da profecia de Ezequiel, da “água que corria do lado direito do Templo, ao sul do altar…[…] águas que banham as árvores saem do santuário. Seus frutos servirão de alimento e suas folhas serão remédio” (cf. Ez 47,1-12). O rio de água da vida jorra do próprio Senhor Deus e do Cordeiro: ele é o Templo e nele acontece o mistério. A nova liturgia, cristã, jorra de Deus e não de rituais bem feitos, nela não há magia: “quem beber desta água que eu lhe der, de seu seio brotarão rios de água viva, que jorra para a vida eterna” (Jo 4,14). O rio de água viva cura povos e nações de seus males, operando a reconciliação total com Deus, com o homem e com a criação. O Espírito de Cristo constrói a nova Jerusalém: “Esta terra devastada tornou-se como um jardim de Éden” (Ez 36,35). Termina a maldição original da proibição de se entrar no Paraíso (cf. Gn 3,22-24). Cada liturgia é já o ingresso na vida divina, mas não ainda o ingresso total.

Os sacramentos, manifestação de Deus pela Igreja

Através da liturgia, a Igreja manifesta ao mundo o conhecimento das infinitas riquezas de Deus (cf. Ef 3,10). A comunhão trinitária nos torna a todos “eucarísticos”, numa universal ação de graças. Em cada sacramento, a epíclese do Espírito Santo produz um fruto próprio para a edificação do Corpo de Cristo.

No Batismo, somos sepultados com Cristo e ressuscitamos com ele para a vida. O Espírito Santo é invocado sobre a água com a qual se realiza o batismo: no momento em que o batizando é mergulhado na água, através dela recebe o Espírito Santo e ouve a voz do Pai: “Tu és meu filho amado” (cf. Mt 3,17).

Na Confirmação, pela imposição das mãos se recebem os sete dons da sabedoria e inteligência, conselho e fortaleza, ciência e piedade e temor de Deus (cf Is 11,1-2). O Batismo realizou a filiação divina e, pela unção do crisma, o batizado é inserido num só corpo, porque o Espírito que ungiu Cristo penetra integralmente – corpo, alma e espírito – o seguidor de Cristo, que se torna cristão. E o Espírito dado por Cristo passa a ser o artista que modelará no homem o santo.

Na Eucaristia, o Espírito Santo é invocado para que as oferendas sejam Corpo e Sangue do Senhor. Nela se realiza a comunhão com a Trindade, com a comunidade, o perdão dos pecados, pois é sustento e remédio para a vida cristã. Realiza o mistério da divinização do homem: Cristo-homem-pão no Espírito transforma o homem em Cristo e em pão para os irmãos. O sacramento do altar é o sacramento do irmão (S. João Crisóstomo).

Na Penitência: o rio da misericórdia se encontra com o abismo da miséria humana e gera uma força nova: o perdão que, pelo Espírito Santo, traz a conversão e a reconciliação. O Espírito penetra no coração do pecador, fá-lo abrir-se à compaixão do Pai e tudo é absolvido (cf. Mt 18,21-22).

Na Unção dos enfermos, o óleo do Espírito que penetra no corpo transforma a enfermidade em amor vivificante e é garantia de ressurreição (cf. visão dos ossos em Ez 37,1-14). Traz a libertação dos pecados, salvação e alívio nos sofrimentos.

Os sacramentos do serviço eclesial

No Matrimônio, acontece não só a bênção do casal – porque todo matrimônio é santo – mas se recebe a graça de o homem e a mulher serem envolvidos no amor entre Cristo e sua Igreja. O Espírito torna a família igreja “doméstica” e dá ao casal a graça de viver um amor sem divisões. O homem e a mulher são mergulhados nas profundezas do amor trinitário e estabelecem com ele uma aliança permanente, cujo sinal são as alianças.

Na Ordenação, invoca-se o Espírito Santo para o serviço diaconal, presbiteral e episcopal. O Espírito concede a alguns membros da Igreja a energia eclesial mais escondida e pobre, que é colocá-los a serviço das outras epícleses sacramentais (Jean Corbon). É uma das provas mais desconcertantes da fidelidade do Senhor que, apesar da fraqueza humana, jamais priva a Igreja de seu Espírito: “Seja Pedro que batiza, ou seja Judas, é Cristo aquele que batiza” (S. Agostinho). Nestes pobres homens ordenados bispos, presbíteros e diáconos, é Cristo que é servo de sua Igreja, pastor que dá a vida pelos seus. A ordenação não é glória, mas humilde serviço para que o Espírito continue na Igreja do Senhor.

Vinde e vede: ele está no meio de nós

Nada acontece sem o mistério da Palavra (comunicação de Deus com seus filhos) que leva ao ato de fé na Cruz do Senhor (de cujo lado aberto corre a água e o sangue) e que realiza o mistério da Liturgia: o céu desce à terra e a terra sobe ao céu. A ascensão de Cristo (Homem-Deus) é a ponte pela qual o Espírito Santo é enviado ao mundo pelo Pai, realizando o misterioso desígnio de divinizar o homem e a mulher.

Diante de tão grande mistério, só nos resta pedir a graça de obedecer às palavras do Apóstolo: “Não contristeis o Espírito Santo com o qual o Senhor vos marcou como com um sinete para o dia da libertação” (Ef 4,30).

Publicado em ENCONTROS TEOLÓGICOS, Florianópolis, no. 3, ano 19, 2004.

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