QUARESMA – CAMINHO, SILÊNCIO, JEJUM

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Entrada Triunfal de Jesus em Jerusalém

O mistério pascal é o centro da vida de Igreja. Por este motivo ela nos oferece um caminho de quarenta dias (quaresma-quadraginta-quarenta) de preparação para que o vivenciemos. Na sociedade de consumo e das dependências materiais, custa-nos fazer a experiência do mínimo, do essencial, do silêncio, do cansaço da subida, da renúncia ao poder e à magia. O tempo quaresmal está cheio de ressonâncias bíblicas que nos levam à Aliança, à Terra prometida e à Glória.

O Dilúvio – mergulho nas águas da morte

“O Senhor viu que a maldade do homem se multiplicava na terra: o dia todo, seu coração não fazia outra coisa senão conceber o mal, e o Senhor se arrependeu de ter feito o homem sobre a terra. […] A chuva derramou-se sobre a terra durante quarenta dias e quarenta noites” (Gn 6, 5-6. 7, 12).

Assim como a água, símbolo da vida, pode levar à morte, assim a vida pode deixar de ser vida e transformar-se em morte quando voltada para si, distanciando-se daquele que é a Fonte, e também se distanciando daqueles que lhe dão sentido. Distante do Criador, o homem e a mulher adquirem uma imensa capacidade de forjar o mal e torná-lo atraente. Perde-se a capacidade de sentir que nada mais somos do que pó e cinza, aos quais somente o Senhor pode dar vida. O Senhor nos oferece uma água que, dando liga ao pó e à cinza, nos recria, faz de nós seres à sua imagem e semelhança: a água do batismo.

A peregrinação do povo pelo deserto

“Eu vos levarei ao deserto dos povos e lá, face-a-face, estabelecerei meu direito sobre vós” (Ez 20,35). É de Deus a iniciativa de restaurar a união, união à imagem da aliança conjugal: “Pois então vou seduzi-la. Eu a levarei ao deserto e falar-lhe-ei ao coração” (Os 2,16).

O povo judeu vivera a experiência de um êxodo de 40 anos através do deserto, cujo limite era a Terra prometida. Para nos mostrar sua face, Deus não aceita concorrentes: exige que nos despojemos de todas as seguranças humanas. Então sentiremos como nele se encontra a verdadeira segurança e, mais ainda, a segurança de um amor adquirido na liberdade. Somente quem aceita entrar no deserto do silêncio, da insegurança, pode escutar as palavras sedutoras do Senhor, senti-lo aquecendo o próprio coração.

A aliança no deserto do Sinai

Após 40 dias no alto do monte Sinai, Moisés ficou de tal envolvido pela nuvem na qual ardia a glória de Deus que seu rosto confundiu-se com a própria nuvem. Ninguém mais podia olhar sua face, tal era o resplendor que dela emanava. A luz de Deus era também a sua luz. Nessa nuvem de luz o Senhor lhe entregou as tábuas da Lei: não tem sentido obedecer a Deus sem primeiro ter sentido seu amor, seu consolo, participado de sua luz.

Pedro, Tiago e João também contemplaram o Senhor, e caíram por terra, fascinados pelo esplendor que dele irradiava. O ser humano é feito para galgar alturas sempre mais desafiantes. O silêncio da subida – sempre na solidão – torna possível contemplar a glória de Deus. Se nos contentarmos em viver a batalha espiritual na planície, veremos sempre apenas alianças humanas, sem a alegria de sentir o Senhor.

Os 40 dias do caminho de Elias rumo ao Horeb

O coração de Elias ardia de ciúme por Deus: o povo tinha traído aquele a quem mais amava. Resolveu então pedir a morte, julgando não valer a pena trabalhar com um povo cuja história era sinônimo de infidelidade. Mas o Senhor não aceitou a decisão: “Levanta-te e come, senão o caminho será demasiado longo para ti” (1Re 19,7). Foi alimentado a cada dia com um pão e uma bilha de água trazidos por um anjo. Pouco alimento, mas suficiente. Uma existência carregada de supérfluos torna impossível trilhar as estradas do essencial. Em nenhum momento da história humana alguém viveu a aventura espiritual vestido de seda e púrpura, recostado em tronos macios, ressonando em torno de banquetes sem fim. O caminho é longo e ascendente: quem aceita o essencial tem energia para percorrê-lo e depois contemplar o Senhor no monte.

Os 40 dias de Jesus no deserto

Jesus, novo Moisés, também nos arrebata para a experiência do deserto. Deus feito homem, foi para o deserto onde, durante 40 dias, lutou com o inimigo (Mt 4, 1-11). E foi ali, no deserto, que Jesus afastou as tentações da magia e do poder, as tentações de reduzir o Mistério ao milagre, a Salvação ao espetáculo e ao poder.

As Igrejas parecem conformar-se com o silêncio e a pobreza quando não encontram outro caminho. Mas, encontrando, se esbaldam nos leitos prostituídos do sucesso, dos falsos milagres, dos dons egoístas. Uma sociedade que valoriza a magia e o poder também aceitará de bom grado evangelizadores que servem o prato da magia e do poder.

Não foi esse o caminho do Senhor: sua Glória foi o trono da Cruz, e seu leito o túmulo de pedra. Mas o caminho do Senhor venceu: a ressurreição foi sua última palavra.

E pode também ser a nossa, se tivermos paciência para lermos nossa vida nesses quarenta dias de observância quaresmal.

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