O Batismo do Senhor: anúncio de nossa justificação

Epifania (Mosaico)

Epifania (Mosaico)

O Ciclo do Natal é encerrado com a celebração litúrgica do Batismo do Senhor (11 de janeiro em 2004), narrada em Mt 3,13-17; Mc 1,7-11; Lc 3,21-22. Isso é motivo suficiente para que não nos contentemos em dizer que “Jesus não precisava ser batizado, quis apenas dar um exemplo, pois Ele é sem pecado”. Em outras palavras, parece que Jesus entrou na fila dos que queriam ser batizados por João apenas para dar provas de humildade. Evidente que a festa tem um significado muito maior, tão profundo que pode ser chamada – como o é na Igreja do Oriente – de Epifania do Senhor e Teofania da Trindade: Jesus é manifestado ao mundo como Filho de Deus, juntamente com a manifestação do Pai e do Espírito Santo.

Jesus, o justo que assume nossa injustiça

O batismo realizado por João Batista era um batismo de penitência e de purificação dos pecados, ministrado somente para os judeus que se decidissem pela mudança de vida. Ao pedir o batismo de João, Jesus inicia sua missão de salvador que assume os pecados do mundo. Quando o Batista quer negar-se a batizá-lo, Jesus declara: “Por enquanto deixa como está, porque nós devemos cumprir toda a justiça” (Mt 3,15). A palavra “justiça” encerra o conteúdo da missão do Messias: tornar justos os pecadores, fazendo-se pecador por eles. Naquele momento, Jesus assumiu sobre si todos os pecados da humanidade: era realmente um pecador que pedia a João o batismo de conversão. Ele o pedia em nosso lugar e por nós, por nós fazendo-se pecador. João não podia ver, mas aquele que estava diante dele carregava, como se fossem seus, todos os pecados da humanidade: esse é o significado de “cumprir toda a justiça”.

As águas da morte se tornam águas geradoras de vida

Para os antigos, o fundo das águas dos rios e mares era a habitação dos seres malignos e de seu chefe. Mergulhar nas águas era enfrentar os monstros que nela habitavam. Esse é o significado do gesto de Jesus: entrando nas águas do rio Jordão, Jesus penetrou no reino do pecado e da morte e destruiu o chefe do mal. Jesus entrou nas águas como o velho Adão e dela, redimido, saiu o novo Adão. As águas, habitação das trevas, passam a ser habitação da Luz. Por isso, o batismo também era chamado de “Iluminação” (São Justino afirmava que, enquanto Jesus descia ao Jordão, as águas se iluminaram).

Com seu gesto, Jesus iniciou a prática batismal e abençoou todas as águas que são usadas para o batismo dos filhos de Deus. Ainda hoje, na Igreja da Etiópia a cada batismo se colocam algumas gotas de águas do Jordão na água batismal, com isso fazendo o batizando participar do batismo de Jesus.

Deus se dá a conhecer à humanidade

Ao sair da água, tendo justificado todos os pecadores, o Espírito Santo desceu sobre Ele em forma de pomba e uma voz do céu dizia: “Este é o meu Filho amado, no qual eu pus o meu agrado” (Mt 3,17). Desde toda a eternidade, Jesus era o Filho amado, mas não era reconhecido na sua vida oculta em Nazaré. Agora o Pai e o Espírito Santo o revelam como Filho, como o Messias. Não foi ungido com óleo, porque sua unção é o Espírito Santo. Manifestava-se, assim, o mistério trinitário e o mistério da salvação.

Jesus sai das águas da morte, transformadas em fonte perene de água da vida, faz com que se tornem justos todos aqueles que aceitam participar de sua justiça.

O batismo é o primeiro gesto público do Senhor e será a ordem do batismo sua última palavra: “Ide, pois, e batizai todos os povos” (cf. Mt 28, 18ss).

O batismo, expressão da ternura do Pai

O céu se abre e o Espírito aparece em forma de pomba, símbolo da ternura divina, de Deus que se torna fragilidade por nós. O Pai manifesta toda sua ternura pelo Filho: “Ele é meu bem-querer”. O novo batismo é na água e no Espírito Santo. Cada celebração batismal realiza esse mistério de ternura divina, tão bem expressa por Efrém o Sírio em um de seus Hinos: “Eis, à porta das águas a Ternura cada dia convida aqueles que estão perdidos. … Alegria para os corpos: eles foram libertados do mal, e nas águas reencontram toda a sua glória”.

Nosso batismo é também o momento divino da ternura, do bem-querer da Trindade por cada um de nós.

, ,

%d blogueiros gostam disto: