A REFORMA LITÚRGICA DO VATICANO II

Sessão de Abertura do Concílio Vaticano II em 11 de Outubro de 1962

Concílio Vaticano II

O texto da Constituição Sacrosanctum Concilium-SC, sobre a Liturgia, foi promulgado no dia 4 de dezembro de 1963, tendo a votação sido realizada na presença de Paulo VI. Dos 2.151 bispos votantes, apenas quatro o rejeitaram. A SC representou um ponto de chegada de longos, perseverantes e incansáveis trabalhos e pesquisas conduzidas pelos biblistas e liturgistas desde meados do século XIX. Mas, em suas linhas gerais – e talvez as mais visíveis – foi a resposta possível às aspirações do século XVI, à época atendidas pela Reforma de Martinho Lutero. Poderíamos dizer, então, que a SC respondeu a 400 anos de expectativa.

A Liturgia renovada pelo Concílio, centrada no mistério pascal e enriquecida pela abundante Palavra de Deus, oferece aos católicos do rito latino os meios normais de santificação: a Palavra e os Sacramentos, ocupando posição única o Batismo e a Eucaristia. A afirmação parece simples, mas os estudiosos não duvidam em afirmar que desde o século VI – portanto por 1400 anos – após as invasões bárbaras na Europa, cujas tradições religiosas impregnaram os valores cristãos, nem sempre positivamente, a vida católica progressivamente foi-se alimentando da piedade popular e pessoal e do devocionalismo.

A reforma da assembléia cristã

Agradecidos por esse fruto do Vaticano II, quarenta anos depois percebemos que houve, sim, a reforma litúrgica, mas falta ainda algo urgente: a reforma da assembléia cristã. Fruto dessa despreparação da comunidade para vivenciar o mistério é a necessidade das “criatividades” litúrgicas, da transformação da liturgia em pobres celebrações da vida humana, em espetáculos de cantores popstars e padres teatralizadores. Inclusive se estuda como defender a Missa contra os padres, cantores e equipes de liturgia que se arriscam a transformar o mistério pascal celebrado numa encenação que emociona religiosidades superficiais.

Quem é capaz de vivenciar o momento do mistério, busca muito mais a simplicidade, o silêncio, o rito. Os incapazes sentirão uma necessidade neurótica de motivações, variações, gestos que beiram o folclórico.

A “reforma” litúrgica aplicada nas últimas décadas valorizou muito o aspecto da celebração como comunhão, ato comunitário, o que é positivo, mas em muitos casos isso foi feito a um alto preço: o enfraquecimento do mistério celebrado. O desejo de tudo tornar compreensível tirou da liturgia algo que lhe é vital: o arcano, o mistério, o incompreensível à mente, mas vivenciado e intuído na fé. Afirmou o liturgista alemão Hoping: “o preço pago por uma liturgia que seja compreensível a qualquer um consiste no fato de que esta seja sempre menos compreendida como mistério e ação sacra”. Em outras palavras: torna-se ato humano, ao gosto do tempo.

O mistério litúrgico, participação da vida divina

A liturgia é sacramento, é sinal de realidades invisíveis, é o mergulho na eternidade de Deus, é saída do tempo histórico para depois a ele retornarmos iluminados e fortalecidos. O grande esforço atual dos liturgistas – e de cada assembléia celebrativa – está em recuperar esta qualidade “sacramental” da celebração cristã na sua ritualidade. O rito é o mesmo por séculos, pois expressa realidades que ultrapassam a existência histórica: a criação, a redenção e a santificação. Numa analogia, é o mesmo que acontece com a Palavra de Deus: ela é sempre a mesma, mas fala vivencialmente em qualquer época, pois brota do mundo divino. Ninguém ousaria “atualizá-la”.

A liturgia é a celebração comunitária da criação, da redenção e da santificação: é o mergulho dos fiéis no abismo amoroso da Trindade.

Diante de tão grande mistério, divino e humano, celeste e terrestre, eterno e temporal, deve ser claro nosso compromisso em defender a liturgia contra as banalizações de pessoas (sejam elas o presidente da celebração, a equipe celebrativa ou a comunidade cristã). Assim, estaremos sempre sendo fiéis a uma liturgia que é mediação simbólica e real do mistério da fé, capaz de permitir-nos recuperar a dimensão “interior” da participação frutuosa dos fiéis.

A liturgia, anúncio e espera da redenção, permite-nos subir à montanha divina para que a Trindade desça às planícies humanas. Admirável troca, incompreensível dom divino.

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