EUCARISTIA, MEMÓRIA E ANÚNCIO

A Divina Liturgia

A Divina Liturgia

Um judeu pode nascer e crescer num meio totalmente estranho à sua cultura, mas nunca se esquecerá de que é judeu e do povo a que pertence. Desde pequeno, dia por dia, ouvirá seu pai recitar-lhe o Shemá Israel, “Ouve, Israel” (Dt 4,4-16). Escutando a história de seu passado, que é sua profissão de fé, o judeu constrói o presente e confirma o futuro. O cristianismo, ramo enxertado na oliveira de Israel, também recebeu de seu Senhor a lição da memória, a Eucaristia, instituída na celebração pascal: Anunciamos, Senhor, a vossa morte, e proclamamos a vossa ressurreição! Vinde, Senhor Jesus!

Nenhum Evangelho estava redigido, Paulo continuava fariseu e os discípulos já partiam o pão, lembrando a ordem do Senhor: “Fazei isto em memória de mim”. A Ceia pascal judaica, memória do Povo eleito, continuou na Ceia cristã, memória do novo Povo. A oração nas noites de sábado, com a leitura dos Profetas, explicação das Escrituras, Fração do Pão, a ação de graças, era a “memória dele”, era a saudade dele, a expectativa de seu retorno.

A Eucaristia é realização do passado e do futuro

A Fração do Pão, Ceia do Senhor, Eucaristia, é o encontro fraterno e feliz em que se anuncia que o Senhor morreu e ressuscitou, que está presente no meio dos seus. Ele se faz Carne e Sangue no pão e no vinho, está presente e pedimos seu retorno glorioso: Vinde, Senhor Jesus! Aqui está um dos eixos da Eucaristia: celebrando o passado (a morte do Senhor), pode-se viver o presente e há sentido para o futuro: O Senhor vem. Jesus, ao pedir que se fizesse isso em sua memória, estava admoestando os discípulos a nunca esquecerem o passado (morte e ressurreição), sob pena de perderem o sentido de suas vidas e missão. Em outras palavras: a comunidade reunida para a Eucaristia contempla seu Senhor morto e ressuscitado e se examina em sua fidelidade a essa morte e ressurreição: por que e para quê aconteceu tudo? Tendo celebrado e vivido a história, jorra a prece de alegria e de esperança: “Vinde, Senhor!”, e logo, “O Senhor vem!”.

A Eucaristia é plenitude da História

Um dos momentos significativos da celebração eucarística é a memória dos santos e a oração pelos mortos: a comunidade olha para o passado deles, reconhece a missão dos que já morreram e lembra que eles também sonharam com o futuro: esquecer nossos mortos é matá-los novamente, porque estaríamos negando que nosso presente é obra deles, que também anunciaram e proclamaram a morte e ressurreição do Senhor. Enquanto pedimos “Vem, Senhor Jesus!”, eles podem proclamar “O Senhor Jesus veio!”.

Uma comunidade que não recorda sua história, seus pais fundadores, uma família que não lembra seus antepassados, está-se condenando à morte por asfixia, pois é a memória do passado que nos traz a força para o presente/futuro.

Todos os Santos e os fiéis defuntos

A Igreja celebra todos os Santos e o dia de Finados para que nos conscientizemos da realidade da Igreja gloriosa e da Igreja padecente. Mas, na Eucaristia, isso sempre é feito, pois ela é a memória da história da salvação. Unida no amor de Cristo, a comunidade celebra todos aqueles que já estão contemplando o Senhor – a Igreja triunfante -, celebra os vivos, o povo de Deus que caminha rumo à casa do Pai e ora pelos mortos que ainda não participam plenamente da vida divina.

Nosso povo tem o belo costume de lembrar seus falecidos no início da missa: além de ser uma oração de caridade, é um ato de reconhecimento e um aviso à comunidade para que se lembre dos que nos precederam. Num tempo em que tudo muda rapidamente, em que a presença da morte e dos mortos é um incômodo em nossa programação, em que a cremação dos corpos nos liberta de enfeitar sepulturas, é um gesto profético lembrar os nomes dos mortos, recordar à comunidade nossos antepassados, nossos parentes e amigos. É cruel quem não os lembra, matando-os uma segunda vez, agora na memória.

Mas o Senhor sempre se recorda dos seus e vence o poder da morte e, mesmo que tenhamos escolhido a eterna condenação ele continuará a nos convidar como filhos à festa de todos os Santos.

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