Na Assunção de Maria fez-se presente o futuro

Dormição da Mãe de Deus

Dormição da Mãe de Deus

Por mais de mil anos, a festa de 15 de agosto foi denominada “Festa da Dormição da Santíssima Virgem Maria”. Após a ruptura entre as Igrejas do Oriente e Ocidente, a Igreja católica passou a denominá-la de “Festa da Assunção de Maria ao Céu”. Permanecia, porém, inalterado, o conteúdo de fé desta solenidade: a Santíssima Mãe, completados os seus dias na terra, foi elevada aos céus em corpo e alma. O Oriente prefere afirmar a morte e sepultura da Mãe do Senhor, fazendo-a percorrer o mesmo caminho de seu Filho, enquanto que o Ocidente não usa a imagem da sepultura de Maria. O essencial é a fé na realização, em Maria, do mistério reservado a todos os que crêem e vivem no seu Filho.

Foi plano divino que os dois corpos, o do Senhor e o de Maria (“filha do próprio Filho”, na palavra de Dante), da mesma substância, não passassem pela corrupção. A existência da Virgem foi marcada pelo contato purificador com o Filho, de tal modo que, já em vida, a Mãe foi sendo transfigurada pelo Filho transfigurado, transfiguração essa proposta a todos os cristãos desde o momento do batismo, e continuada pela eucaristia.

Em Maria, a Igreja celebra o destino de toda a família humana: sua glorificação nos céus é prenúncio de nossa glorificação. A vitória final de Cristo sobre a nossa morte já foi realizada naquela que o gerou. Em Maria, para nossa alegria, fez-se presente o futuro.

É profundo o diálogo vital entre a Virgem de Nazaré e o Filho de Deus: no dia do Natal, a humanidade recebe a divindade: Maria recebe Jesus; no dia da Assunção, a divindade recebe a humanidade: Jesus recebe Maria. Os ícones orientais oferecem à nossa contemplação a divina beleza desses dois mistérios: Maria com o Filho ao colo (Natal), Jesus tendo ao colo sua Mãe (Assunção).

Como em Maria, a Comunhão é encarnação

Em sua carta encíclica sobre a Eucaristia – Ecclesia de Eucharistia – o Papa lembra duas palavras fundamentais: após abençoar o pão e o vinho, Jesus diz: “Fazei isto em memória de mim”; e na mesma ocasião, em cada Celebração, deve ressoar em nós a palavra mariana: “Fazei tudo o que ele vos disser”. Deste modo, a memória eucarística do Senhor nos traz à memória Maria, aquela que, por ter feito tudo o que o Senhor quis, foi assunta ao céu.

Certamente, lembra João Paulo II, a Virgem escutou os apóstolos repetindo estas palavras, com eles celebrou a Ceia, pois os Atos afirmam que eles se reuniam com a Mãe de Jesus. Há uma beleza indecifrável quando nos colocamos a meditar, contemplando Maria a comungar o Corpo de seu Filho, dele bebendo o Sangue. Lembrava, como mãe e mulher, o coração do Menino que ela ouvia e sentia batendo em seu ventre. E agora, comungando, sentia a mesma alegria, mergulhava no mesmo mistério.

Tanto para ela, como para cada um de nós, a Comunhão torna-se encarnação, Natal.

Em cada Ceia do Senhor, o Verbo se faz carne e vem habitar entre nós. Como nós, Maria também caminhava na fé e na fé comungava, fazendo a Igreja nascer, existir e dando-lhe vida.

A Assunta ao céu celebra com a Igreja

Desde os primeiros séculos, as liturgias do Oriente e do Ocidente recordam Maria, a Santíssima, de cuja carne nasceu a Carne, de cujo sangue, saiu o Sangue. Celebra-se a Liturgia com Maria, como ela ouve-se a Palavra e, procurando imitá-la, tudo guardamos no coração, esperando a manifestação gloriosa dos filhos de Deus. Com ela, a Santíssima, lembramos todos os Santos do céu e os irmãos que aqui na terra buscam tudo transfigurar pela força do amor, da doação sem medida. E recebemos força: a memória do Senhor não é sentimento: é mistério que fascina, entusiasma, que compromete todas as energias para a construção do Reino. A Eucaristia não é para despertar sentimentalismo religioso: ela nos dá Aquele que nos ordena também dar a vida para o próximo.

Festejando a assunção aos céus, tomemos o lugar de Isabel: façamos de Maria, sacrário na viagem às montanhas da Judéia, o sacrário no qual adoramos o Filho do Altíssimo. Hoje, pela Eucaristia, o mundo, o cosmos é o sacrário, nossa História deve ser o sacrário onde adorar o Senhor.

Anúncios
%d blogueiros gostam disto: