SÃO TOMÉ, PARÁBOLA DA MODERNIDADE

Jesus se mostra a Tomé

Jesus se mostra a Tomé

O nosso, é um mundo de crenças e de emoções, mesmo lá onde se busca lealmente a presença do Senhor. Quando o crente bate no peito para dizer “o Senhor me tocou e eu mudei de vida”, quando o carismático diz que “senti o Espírito Santo e agora estou super feliz”, podem ainda estar aprisionados no mundo das emoções que leva ao mundo das crenças e não ainda da fé.

As religiões, com suas rádios e redes televisivas, se equilibram delicadamente num fio de lâmina que pode conduzir ao desejo da busca de Deus ou criar crentes satisfeitos por terem adquirido um “produto” consolador. Podem levar muita gente não a buscar o Deus da vida, mas uma vida resolvida a toque de tambores miraculosos.

No dia 3 de julho a liturgia [latina] celebra São Tomé (Jo 20, 24-29). Sua memória faz ecoar em nossos ouvidos o tempo pascal, lembrar o apóstolo apelidado de “pai da dúvida” e que, tendo colocado o dedo na chaga de Cristo, exclamou: “Meu Senhor, e meu Deus!”.

Sem o Espírito da Verdade, necessitamos de crenças

O Tomé sem a efusão do Espírito Santo pode muito bem ser colocado num altar que oferecesse à civilização pós-moderna seu ícone. É um homem moderno, um exemplo de modernidade.

Ele foi escolhido a dedo pelo Senhor, convidado a ser amigo íntimo, privou de uma convivência de quase três anos. Ele ouviu Jesus dizer que “ressuscitaria ao terceiro dia”, sem que isso encontrasse ressonância em seu mundo interior. A palavra – mesmo de um amigo íntimo, e que amigo! – só teria valor depois de realizada. Nada de profecias, tudo de acontecimentos.

Tomé vira cegos recuperarem a vista, coxos andarem, mortos ressuscitarem. Emoção sobre emoção. O Senhor, porém, ficava sempre devendo mais uma, pois “pediam mais um sinal”. As emoções são insaciáveis, porque são passageiras e pedem outra, para continuarem a sedar a realidade da existência.

Com a morte do Senhor, terminara o ciclo das emoções. O que lhe importava o testemunho dos apóstolos, das mulheres, dos discípulos de Emaús, que tinham visto o Senhor? Tomé não aceita crer através da palavra dos outros, ele não aceita o testemunho de uma comunidade. Ele quer milagre e revelação particulares, pouco lhe importando as experiências dos amigos.

Rejeita crer olhando a face de seus amigos, a face resplandecente das mulheres, o rosto transformado pelo reflexo luminoso do Homem ressuscitado. Tomé gosta de emoções, mas a felicidade alheia não o toca. Nega-se a ver o estupor, o entusiasmo dos amigos, nega-se a contemplar o rosto dos outros.

Ter fé é crer no testemunho do outro

Os Onze estão reunidos, ainda transtornados pela visão do Senhor. “Nós vimos o Senhor!” Para Tomé, ouvir é admitir que outros saibam mais do que ele: “Só creio se puder ver, tocar as chagas, colocar o dedo na chaga do lado direito!” Ouvir por ouvir, todos ouvem. É preciso tocar para sentir.

Quando Tomé fala em tocar as feridas, colocar o dedo na chaga, revela falta de pudor, desejo de profanar a dor alheia, crer somente entrando intimidade adentro, por mais dores que isso recorde, por mais sofridas que tenha sido. Tomé quer ver e tocar, decifrar o mistério do outro. A figura de Tomé parece-nos uma amostragem antecipada de nossa época, que tem prazer de assistir pela TV a dor enfeitada, rir da miséria moral, desvendar a intimidade, rasgar cirurgias cicatrizadas. Quer tocar a chagas do Senhor: tocar as chagas do próximo.

Oito dias depois, chega o Senhor. Cheio de paciência, pede a Tomé não que o olhe, não o contemple em sua beleza ressuscitada, mas que o toque, sinta suas chagas. Tomé ainda não tinha fé, necessitava, sim, de crenças: ouvir, ver e tocar, para sentir e depois dizer: “Meu Senhor, meu Deus!”.

Feliz aquele que crê!

Tomé não era feliz, pois Cristo afirma em seguida “Feliz quem crer sem ter visto!”. Aqui podemos lembrar a velha Isabel falando a Maria: “Feliz és tu, Maria, porque acreditaste!”.

No Pentecostes, Tomé foi agraciado pelo dom da fé e saiu pelo mundo, como os outros, anunciando o Ressuscitado e convidando à fé na presença viva do Ausente-Presente. Apóstolo das Índias, não prometia a ninguém a possibilidade de tocar o Senhor. Oferecia algo mais precioso: ter fé, crer. E deu a vida pelo Senhor.

, , , , ,

%d blogueiros gostam disto: