40 ANOS SEM JOÃO XXIII

Papa João XXIII

Papa João XXIII

Para toda a humanidade, aquele dia 3 de junho de 1963 foi de orfandade: tinha perdido um pai. Poucas vezes, na história humana, uma pessoa encarnara tão bem a imagem de pai universal, independentemente de religião, nacionalidade, convicção política, status econômico. Se pudéssemos dizer que a paternidade divina tinha encontrado um coração humano onde se manifestar visivelmente, era essa a pessoa: o Papa João XXIII, Ângelo Roncalli. Todos choraram o bom velhinho, humilde camponês bergamasco nascido em 25 de novembro de 1881.

Com a morte do Papa Pio XII (1958), a Igreja parecia não ter alguém à sua altura para sucedê-lo. O candidato “evidente” era Giovanni Montini, arcebispo de Milão, mas, nem era cardeal. Nessas circunstâncias, optou-se por eleger um candidato de transição: velho e de pouca significação universal. E assim foi eleito o Patriarca de Veneza, que escolheu o nome de João XXIII. Um velhinho amável, bonachão, baixinho e gordo (os refinados diplomatas franceses o apelidaram de “saco de macarrão”). Deu alguns bons sustos no cerimonial e na segurança do Vaticano: saiu de casa, sem avisar, para visitar um amigo doente, foi à Piazza Navona conversar com o povo, recebia seus irmãos – humildes agricultores – para uma boa conversa, um irmão inclusive recomendou que não fizesse feio para a família, conversava com os empregados (quando lhe perguntaram quantos trabalhavam no Vaticano, respondeu que nem a metade…), fumava um belo charuto, apreciava a polenta dos camponeses. Suas brincadeiras deixavam com muito mau humor o Cardeal Ottaviani, hierático camerlengo da Santa Romana Igreja: dirigia-lhe umas piscadinhas de olhos, ao que o sério cardeal retrucava fazendo bico… Estavam sempre lado a lado nas ocasiões oficiais, e muitas vezes Ottaviani estava “de mau” com o papa. Basta ver as fotos do período. Eram dois santos: um querendo preservar a noblesse da Cúria e outro, a simplicidade cristã.

João XXIII continuou a escrever seu Diário, iniciado na infância, no seminário. Seu programa de vida, que o tornou santo (foi beatificado em 2000) foi sempre o mesmo: fazer bem cada coisa por um dia, como se fosse o último. Numa confidência, revelou que nunca cometera um pecado mortal. Suas leituras preferidas eram a Imitação de Cristo, Vidas de Santos e Fogo de Amor (ditado pelo frade analfabeto Tomaso Acerbis, nascido em 1563).

Mas, essa simplicidade não deve ocultar a ciência de Roncalli: era refinado patrólogo, especialista em História da Igreja, poliglota, fino diplomata. Apenas seu coração não se deixou levar pelas grandezas e continuou a imitar Jesus de Nazaré.

Grande escândalo foi a recepção, em pleno sagrado Vaticano, do genro de Nikita Kruscev, governante russo, ateu, feroz perseguidor da Igreja russa. Recebia um irmão. Abraçou Ramsey, primaz da Igreja anglicana, e a todos os que encontrou.

A grande surpresa, porém, aconteceu no dia de São Paulo, na basílica homônima, em 25 de janeiro de 1959: na sacristia, sem cerimônia, chamou à parte os cardeais presentes e deu-lhes uma notícia imprevista, que revolucionaria a Igreja e o mundo cristão: iria convocar um Concílio Ecumênico! Somente os santos sábios são capazes de anunciar obra tão grande e desafiadora numa conversa de sacristia: João XXIII, o maior Papa do século XX.

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