NÃO SEGUREMOS O SENHOR. ELE NÃO É NOSSO!

“Então Jesus disse: Maria! Ela virou-se e exclamou em hebraico: Rabuni! (que quer dizer: Mestre). Jesus disse: Não me segure, porque ainda não voltei para meu Pai. … Então Maria Madalena foi e anunciou aos discípulos: Eu vi o Senhor. E contou o que Jesus tinha dito” (cf. Jo 20,16-18).

Esta cena tão singela e bela, coloca-nos diante da atitude do discípulo do Ressuscitado: ver, ouvir e narrar. O encontro com Ele leva à escuta, a escuta leva ao anúncio. Maria Madalena, a mulher tão amada e que tanto amou o Senhor, num primeiro momento teve o impulso da posse: agarrar o Senhor, tê-lo para si. Assustada, escutou um enérgico “Não me segure” e imediatamente compreendeu: era discípula, não dona do Senhor.

As Igrejas cristãs e cristandades passam pela mesma tentação da Madalena: entusiasmadas pelo encontro com o Senhor, pensam ter o monopólio do encontro e querem ter a posse do ver, escutar e anunciar. É a tentação da idolatria: aprisionar o Senhor numa Igreja, numa religião, como se Deus estivesse condicionado a obediências humanas e religiosas, por mais sinceras que sejam.

Nestes trágicos tempos de guerra, quando uma potência com vocação imperial agride um povo pobre crescido num país rico, a cena de Jerusalém se repete: Bush se julga intérprete da vontade de Deus e de Jesus e, como um cruzado moderno, se lança na missão terrificante de sujeitar povos e nações. Do outro lado, muçulmanos também invocam o nome divino – Alá – para publicar uma Jihad, guerra santa contra os infiéis cristãos. Os dois lados se tratam de “infiéis” e nisso estão absolutamente certos: é infiel todo aquele que usa o nome do Senhor para matar.

Neste início do terceiro milênio, a história do monoteísmo apresenta ao mundo um quadro trágico: no Kosovo, na Palestina-Israel, no Afeganistão, no Iraque, os que adoram o Deus único (judeus, cristãos e muçulmanos) e incluem Jesus entre seus profetas se dão o direito de destruir, assassinar. Uma história religiosa marcada pelo ódio, pela vingança que não conhece fim. A inteligência humana é colocada a serviço da fabricação de armamentos sempre mais modernos, sofisticados, caros, “cirúrgicos”. Bilhões de dólares desperdiçados na arte de matar, de colocar nas mãos de jovens soldados estes brinquedos assassinos. A dor e as lágrimas ficam reservadas para os anciãos, as mães, as crianças, mutilados em seu direito de viver.

A figura sofrida, abatida, de João Paulo II retrata à perfeição o rosto da humanidade. a expectativa de um novo milênio marcado pela paz, pela reconciliação entre os povos, passa por uma gestação interminável. No Dia Mundial da Paz, o Papa nos lembrava o perdão como o nome da paz, o perdão como a causa necessária da justiça.: Se queres a paz, perdoa!

Wojtylla, o homem que passou pelo sofrimento da grande guerra de 1939-1945, que viu o holocausto judeu, que sofreu o totalitarismo comunista, sonhava com um milênio novo, onde a obra de Cristo de reunir todos os povos num único povo, estivesse se realizando. Uma visão messiânica, é verdade, mas factível e necessária: a vitória de Cristo Senhor, aquele mesmo que, no início do pontificado em 1978, pelo qual pedia: “Povos todos, não tenham medo de Cristo!” Os povos não têm medo, é verdade, mas os falsos adoradores querem possuí-lo e tornam-no odiável.

A esperança, porém, é a última palavra de um cristão. Por isso, mesmo nos conflitos, nós nos alegramos: Christós anésti! Cristo ressuscitou!

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