A CONTEMPLAÇÃO DE DEUS NA DOR

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Patriarca Athenágoras

O Dia Mundial do Enfermo é fixado na primeira aparição de Maria em Lourdes, 11 de fevereiro de 1858. De fato, o Santuário francês de Lourdes é o grande ponto de encontro dos doentes de todo o mundo. O momento alto e emocionante do final de dia é a Procissão do Santíssimo Sacramento: cada doente e seus acompanhantes contemplam o Pão consagrado e pedem o pão da saúde. Estatisticamente são poucos os que recebem a cura física, mas a verdade está além desse dado: em Lourdes recebe-se a cura espiritual, a alegria de viver, a coragem de conviver com a dor, a felicidade de oferecer a cruz pela salvação do mundo, a contemplação do amor de Deus na doença. Os peregrinos chegam à gruta de Massabiélle arcados sob o peso da dor e retornam a seus lares livres, nutridos pela certeza de que sua cruz é anúncio vivo da ressurreição.

Na vivência da fé cristã não há situações sem sentido: seriam o sinal impossível do esquecimento de Deus! Após a Cruz-Ressurreição em Jerusalém, tudo na vida humana participa do mistério da redenção. Tudo é ofertório salvífico, eucaristia.

Para quem tem saúde, a presença do enfermo é pedido de fraternidade, solidariedade, paciência, ternura. O que é frágil pede carinho, cuidado: o doente é nossa ocasião de praticá-los. Sua família é lugar ou de revolta ou de santificação: depende de como se assume a cruz. O doente muda o eixo da existência: se antes a preocupação era a casa, os móveis, os objetos, o conforto, os passeios, agora é uma pessoa, uma imagem a ser esculpida por nós, na fé.

E o doente? A experiência nos mostra que o leito de dor é um imenso altar de sacrifício, de oferta, de conversão. Passa-se da escravidão interior à liberdade: na limitação física, na imobilidade, o espírito adquire capacidade de amar, contemplar. Se antes realizava o que sonhava, agora realiza o único necessário e possível: deixar-se amar, ser ajudado, perceber o amor das pessoas, ter tempo para divisar, além da cruz, o esplendor da presença divina. A cruz alarga seu horizonte, oferecendo-lhe a esperança.

O doente matricula-se na escola da dor, tão fecunda, luminosa, na riqueza de seu silêncio. Nela aprende-se a palavra obscura do Calvário, mas palavra de Deus. Para o cristão militante, a dor é um convite a crer que Deus salvará a Igreja e o mundo em nossa fraqueza e não na força, pois é a força do Ressuscitado e não nossas estratégias que darão vida ao mundo.

Aqui pode ser repetida a palavra de uma doente pobre e cega: “Deus ama a muita gente mas, com certeza, por ninguém tem mais amor do que por mim!”

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