O DIA MUNDIAL DA PAZ

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Há quarenta anos, dois meses antes de sua morte, João XXIII – o Papa Bom – oferecia aos homens de boa vontade a carta encíclica Pacem in Terris – Paz entre os povos. João Paulo II quis lembrar esse acontecimento em sua Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2003. A Mensagem nos traz ao coração a figura ímpar de João XXIII (1958-1963), eleito em idade avançada como um Papa de transição mas que, movido pela criatividade e novidade do Espírito, tirou a Igreja católica da letargia, do conformismo com estruturas suntuosas e inúteis e a renovou no pleno sentido da termo: “Enviai o vosso Espírito e renovareis a face da terra”. Hoje podemos ser privados de conhecer a memória e a obra do humilde camponês de Bréscia, mas não podemos compreender a Igreja católica sem o legado espiritual, teológico, pastoral e social de João XXIII. Para os tradicionalistas ele era apenas o cismático, um depósito de macarrão (baixinho e gordo) que perdera o sentido das tradições católicas. Para o mundo que acompanha o caminho da história, ele foi o faxineiro das tradições que impedem a liberdade cristã, recolocando a Igreja na grande Tradição da Escritura e dos Pais.

O ano de 1963 – voltemos ao Dia Mundial da Paz – estava imerso num espírito amedrontador: guerra fria, ameaça de um conflito nuclear, guerras coloniais, rescaldo da herança da segunda grande guerra. Havia tudo para se temer o caminho da história, mas o Papa era alimentado pelo otimismo da graça, pela certeza da presença de Deus que ele anuncia como a fonte dos princípios éticos que levam à paz.

A Igreja vivia um momento difícil: a secularização, o desprezo das classes intelectuais, o conformismo canônico-burocrático e, especialmente, a perseguição violenta da parte dos regimes comunistas. Nikita Kruscev, sucessor de Stálin e dirigente máximo da União Soviética, resolvera acelerar o despertar do paraíso terrestre inaugurando a sociedade sem classes. Para ele, o único caminho de aceleração seria a implantação rápida e eficaz do ateísmo. Externamente, apresentava-se como amigo do Patriarca ortodoxo de Moscou. Internamente, movia feroz perseguição, matando, aprisionando, exilando qualquer dissidência religiosa. Iugoslávia, Alemanha Oriental, Tcheco-eslováquia, Hungria, Romênia, Albânia, Iugoslávia e outros seguem o mesmo princípio e movem guerra às Igrejas ortodoxa, católica e evangélica. A Igreja ortodoxa vê milhões de seus filhos – leigos, bispos, sacerdotes, monges e monjas – morrerem pela fé. Estados Unidos, Rússia e China competiam para serem senhores de partes do mundo.

E João XXIII? Anuncia a paz aos homens de boa vontade. Sem medo do futuro, crê no ser humano, crê numa estrutura internacional que resolvesse os conflitos, crê na aurora de um mundo onde os direitos humanos fossem respeitados. Crê na ação do Espírito que proíbe qualquer pessimismo e lamentelas dos desanimados. Defende Deus e o ser humano. E o Papa Bom foi profeta: surge sempre mais poderosa a defesa dos direitos humanos, a consciência da terra como pátria comum de todos e as colônias africanas e asiáticas recuperam a independência. Poucos anos depois, os poderosos Partidos comunistas ruem como um jogo de dominó: Deus ri-se deles e desaparecem, iniciando com a queda do Muro de Berlim (1989) que simbolizava a divisão do mundo em duas esferas de influência.

O beato João XXIII não conhecia adversários. Foi rico em simbolismo cristão quando recebeu nos palácios vaticanos o genro e a filha de N. Kruscev. Para os “puros”, foi a profanação daquele espaço. Para o Papa, foi o sinal cristão: só o amor constrói. Não há paz sem boa vontade, sem o perdão generoso.

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