O AMOR DE DEUS NÃO SE DEIXA DERROTAR

Como em todas as tardes, Deus veio passear no Paraíso para conversar com seus amigos. Era sempre um encontro de imagens e semelhanças.

Desta vez chorou. Com ele choraram todos os anjos. Deus não esperava por essa de Adão e Eva. Em vez de amigos em diálogo, quiseram ser como ele e, até mais, quiseram negá-lo. Os dois eram crescidos, mas tinham coração de criança. Pela inexperiência e ingenuidade tinham sido enganados pela serpente, reconhecia. Mas não pensara que cairiam tão cedo, muito mais depressa do que esperava.

De início, Deus fez que não viu nada, quem sabe, retornariam pedindo perdão e nova chance. Nada acontecia. O dia terminava e eles estavam lá, nus, envergonhados e empertigados. O fracasso lhes aumentava o orgulho. A idéia de amor os cansava.

Chegando a noite, lamentou Deus, passariam frio. Entristecido, pensou em  conversar com eles, mas percebeu que preferiam ficar sozinhos, não desejavam mais sua companhia.

Tinham jogado fora as túnicas espirituais com que os revestira, para que lhe fossem semelhantes. Preferiam túnicas materiais, escolhendo ser servos da matéria. Respeitando a escolha, Deus tomou uns pedaços de pele de animais, uma agulha, e costurou uma túnica para Adão e outra para Eva. Como uma mãe, achegou-se deles e os vestiu carinhosamente, dolorosamente. Da parte deles, nenhuma palavra para permanecer com ele.

Respeitando sua decisão, abriu a porta do paraíso e deixou que saíssem, esperando que jamais o fizessem… Antes de partirem, deu mais uma ajeitada nas vestes e tomou coragem para dizer: “Olhem, essa roupa fui eu que fiz para vocês. Cada vez que se despirem ou vestirem, não se esqueçam: eu costurei cada pedaço de acordo com seu tamanho. Se ficar apertado, voltem: eu arrumo”. E Deus tomou a decisão de não mais criar gente crescida. Todos nasceriam pequenos, para que assim pudessem aprender lentamente e não serem mais enganados pela serpente.

Adão e Eva foram caminhando, caminhando. Dois anjos se colocaram à porta do paraíso, para evitar que Deus também fosse embora com os dois.

Enganaram-se, porém. Dali em diante o coração de Deus adquiriu a forma de um coração de pastor e a cada dia procurava cada uma delas, muito multiplicadas em número e rebeldia.

Os mercenários se irritavam, mas o Senhor pensava apenas nas ovelhas que não podiam se perder. Para aconselhá-las, enviou patriarcas, profetas, juizes, reis, criou um povo. Nada produzia efeito.

O amor, porém, não se deixa derrotar. Há 2002 anos atrás, enviou-lhes seu próprio Filho. Para que o homem arrogante não o enfrentasse, enviou-o em forma de criança, pobre, frágil, sorridente. Irresistível!

Se no Paraíso a força da tentação pareceu triunfar, agora, a partir de Belém, jorra uma força poderosa, irrefreável, que transborda mais poderosa ainda em Jerusalém. Deus quer dialogar com os seus, Deus quer entrar em comunhão com cada um dos seus!

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