AS ELEIÇÕES E A ESPERANÇA DO NOVO

As eleições do último dia 27 foram marcadas pelo signo da esperança. Nunca, numa eleição, o brasileiro manifestou tão intensamente o desejo de mudança, a expectativa de que, finalmente, possa deixar de dizer que o Brasil é o país do futuro, bordão repetido desde os tempos de Getúlio Vargas, passando pelo desenvolvimentismo de Juscelino, pela panacéia do regime militar, pelo ilusionismo da Nova República, pela experiência trágica de Collor e pelo academicismo de FHC. São 50 anos esperando que o futuro se torne esperança. Mas a esperança somente se torna presente se houver da parte do povo e dos governantes a decisão clara da opção pela vida de todos, de terra, casa, trabalho, saúde, educação, para todos.

Necessita-se de fugir do ciclo vicioso segundo o qual se o sistema financeiro ou industrial ou agro-industrial passam por perigo, toda a população tenha o dever de se ajoelhar e rezar por eles. Há 500 anos as elites oligárquicas brasileiras não têm sentimento de solidariedade pelo povo brasileiro. Vende-se pouco? Demita-se o trabalhador! Investe-se pouco? Aumentem-se os juros. Há algum risco econômico? Façamos remessas para algum paraíso fiscal. A esquerda vai vencer? Vamos procurar com ela um bom noivado.

E assim foi sempre e espera-se que não seja mais, sob pena de perder-se o controle sobre o pacto social, tal a esperança que foi instilada no sangue de nosso povo.

A reforma agrária nunca feita sistematicamente, a reforma urbana, os acordos internacionais, o pacto pelo desenvolvimento sempre frustrado, o investimento desviado dos pobres sertões nordestinos, fazem do grande, belo, rico e imenso Brasil uma pátria em estado anêmico.

A todas essas mazelas herdadas da história colonial e oligárquica, acresce-se hoje a pressão dos capitais internacionais. Por uma ironia e crueldade da história, os países pobres são hoje exportadores de capitais. Bolívia, Brasil, Paraguai, Nigéria, Sri Lanka, só para citar algumas entre as dezenas de nações em grande crise social, exportam sua pobres economias para os EUA, para a Europa Central, para os países ricos. Conseqüência imediata: não sobram recursos para os investimentos internos em infra-estrutura, saúde, educação. País pobre com ditador corrupto tem ainda o desvio financeiro para um insano militarismo e para a família no poder. E o povo morre de fome neste 3o milênio da era cristã.

Quanta sabedoria e humanismo se escondiam no coração de João Paulo II e de outras Igrejas, quando pediam o perdão da dívida externa das nações pobres, para que pudessem respirar, fortalecer um pouco seu organismo!. A resposta foi muito aquém do esperado, porque o dinheiro do capitalismo só consegue ser impresso em papel feito de pele de pobre e tingido com seu sangue.

O Brasil elegeu novo Congresso, novas Assembléias, novo Presidente, novos Governadores. Num contexto tão novo, a Igreja tem muito que dar, aliás, tem um muito que é pouco: sua especialidade é a humanidade. Sua especialidade única é a defesa intransigente da vida. E essa é sua palavra, a palavra que o Brasil espera dela. A palavra pela vida.

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