O VENTRE MATERNO DE DEUS

Santa Teresa de Jesus (de Ávila) tinha verdadeira dificuldade de orar o PAI NOSSO: apenas terminava de dizer “Pai” e se aprofundava em místico êxtase. Qualquer outra palavra seria repetitiva e desnecessária.

Jesus, modelo de todos os filhos, retirava-se para ficar a sós com seu Pai, que generosamente nos ofereceu como pai e reservou-nos sua herança. Nosso Deus não é um faraó zangado, não é um Alá segregador de fiéis e infiéis, não é um rei justiceiro e multiplicador de leis à imagem de fariseus e reis judeus. Muito antes de Jesus, os profetas já tinham sentido o coração e o ventre de nosso Deus: um coração cheio de ternura e um ventre materno que se contorce ao pensar em cada um de nós.

O ser humano tem certa rejeição ao amor, pois ele sempre compromete, pede resposta, desarma, parte cadeias, semeia misericórdias. Por isso mesmo está, tanto em cada um de nós, como nas instituições eclesiásticas, a insistência na justiça punitiva, em leis que medem o pecado com exatidão. É mais fácil um Deus-Senhor a quem se adorar e obedecer do que um Deus-Pai de quem não existe medida de paciência na distribuição do amor.

Já no início da história, nosso Pai preparou tudo e cada coisa, as luzes, a terra, a água, as plantas, os astros, os animais para depois nos colocar num jardim de delícias. É um Pai preparando o enxoval de seu filho. E quando decidiu criar-nos, sem nenhuma insegurança nos criou à sua imagem e semelhança. Somos parentes de Deus, somos de sua raça!

Um Pai que teve a dor de ver um filho matar o outro, mas não aceitou que Caim fosse vingado: pai é pai! Toda a história da salvação é a revelação de um Pai divino que não quer ser derrotado, que não quer perder os filhos, disposto sempre a recomeçar, por mais irrequietos que fossem os filhos. Seus recomeços: Noé, Abraão, José do Egito, Moisés, o deserto, a Lei, os Juízes, os Reis, os Sábios, os Profetas, os Macabeus.

E, estando maduros os tempos, Deus Pai decide ser o mais frágil dos pais, para convencer a humanidade de que ele é Deus e Pai: seu Filho se encarna no ventre de uma virgem, nasce em Belém, vive na Galiléia e na Judéia, passando pela Samaria. Seu Filho, o mais doce dos filhos, é entregue para nós por nós. Nenhum pai faz isso em sã consciência: Deus o fez porque é realmente o Pai. Crucificamos e sepultamos seu Filho,  e Deus, como resposta, nô-lo oferece ressuscitado: um desafio final para que aceitemos a vida. Deus Pai não ficou nisso: para que pudéssemos compreender a pessoa e a palavra de seu Filho, enviou-nos seu Espírito, consolador, advogado e revelador. E o Pai não está muito preocupado em que nós o amemos: quer, isso sim, que nos deixemos amar por ele. Isso é Pai.

Essa é a imagem para todos os nossos pais, que de Deus recebem seu mais precioso título: serem chamados de Pai.

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