SER CIDADÃOS NUMA SOCIEDADE INJUSTA

Foi necessária a queda nas pesquisas sobre a reeleição de Fernando Henrique Cardoso para que o governo assumisse olhares inquisitoriais sobre os desmandos sociais no Brasil. A saúde tinha melhorado, a escola era outra, o tráfico estava sob controle, tudo sob as bênção de São Real, dizia-se.

E agora? Agora estamos tendo uma amostragem, certamente pequena, do cadáver insepulto da corrupção brasileira em diversos níveis, chamando mais a atenção, pelo envolvimento direto com a vida, os desmandos na produção e comercialização de medicamentos. Se, de repente, se descobre tanta sujeira, por que não se descobriu antes? Os malfeitores seriam tão inteligentes assim, ou então, os organismos estatais de fiscalização são irresponsáveis mesmo!?

Creio que a melhor explicação passa pela falta de responsabilidade política e pela crescente desumanidade de certas pessoas e segmentos produtivos. O que a Schering alemã fez no Brasil com o anticoncepcional Microvlar, nunca o faria na Alemanha. Aqui pode fazer, pois somos terceiro mundo, gente de menos valor. A Abifarma tomou as dores da empresa alemã pedindo mais cuidado nas investigações, pois muita profundidade pode cheirar mal. Os cuidados foram tomados e entramos num verdadeiro e trágico lodaçal: laboratórios de fundo de quintal, remédios falsificados matando pacientes, roubo de medicamentos, antibióticos feitos de farinha de trigo, farmácias vendendo remédios vencidos, depósito de medicamentos  em verdadeiros lixeiros, etc. E na ponta, o povo brasileiro, pagando caríssimo pelos medicamentos, pagando INSS e tendo de fugir para a Saúde privada, e com esperança consumindo remédios falsos ou de componentes ativos duvidosos.

Aqui está a crueldade desse crime: os remédios mais falsificados são exatamente aqueles mais caros e indicados para doenças mais graves, como câncer e problemas cardiovasculares. A lógica perversa: “Cedo ou tarde vai morrer, que ao menos nos dê um lucrinho extra!”

Evidente que a culpa não recai apenas no Governo. A culpa é de todos nós, cidadãos e cristãos que estamos permitindo a cada dia que a vida tenha menos valor. Estamos nos acostumando com o tráfico, as drogas, a violências, as execuções policiais, as crianças na rua, o esfacelamento da família, os presídios desumanos, o desemprego. Quando a dor é muita pode se transformar em anestesia. Talvez o volume e acúmulo da dívida social brasileira leve-nos a pensar que estamos bem, que não devemos quase nada.

Tudo isso tem uma lição positiva: somos interpelados a ser cidadãos, a agir por uma sociedade solidária e, sendo cristãos, ver no outro o rosto de um irmãos que nos interpela para a fraternidade.

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