FÉ E RELIGIOSIDADE POPULAR

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Em nosso meio, a religiosidade popular se expressa de modo especial no mês de junho, ligada tanto ao dia de Pentecostes como ao ciclo dos santos Antônio, João Batista e Pedro. As festas juninas, de modo geral, estão perdendo o caráter religioso e se transformando em festas normais da sociedade civil, especialmente das escolas e clubes. Já Pentecostes é celebrado na tradição das Bandeiras do Divino e das Cortes do Imperador, ligadas aos remanescentes da cultura portuguesa e açoriana.

Interessante se observar que, atualmente, a expressão festiva do Catolicismo popular está mais nas preocupações dos órgãos públicos de cultura do que na vida católica propriamente dita. Deste modo, se fala e se publica muito a respeito do Divino e sua Folia, mas desvinculado de sua matriz, que é a Igreja Católica. Teríamos então um símbolo religioso sem a inclusão da fé religiosa. Evidente que os símbolos religiosos não devem ser preocupação dos órgãos públicos, pois eles, ou expressam a alma popular, e são espontâneos, ou não a expressam, e caíram no mundo do folclore. Deixam de ser símbolos vivos para serem objetos de museu.

De outro lado, o catolicismo popular ainda encontra eco no coração das comunidades que conseguiram se manter impermeáveis à modernidade, ao mundo urbano. Ali são verdadeiras festas do Divino, sem necessidade de muita publicidade ou teoria. A cultura humana sempre encontra suas expressões festivas. Quando não estão mais inseridos na alma de uma cultura, os símbolos religiosos se transformam em meio de se fazer dinheiro ou de despertar emoções populares, não sendo mais ocasião de verdadeira experiência religiosa, de união entre o fiel e Deus. Então, por mais que se fale em corte imperial, ela será apenas isso: uma corte imperial para a admiração republicana de quem passa e olha.

Tudo isso é conseqüência da mudança do mundo rural para o mundo urbano, de um catolicismo tradicional para um catolicismo de opção pessoal. As novas gerações não se sentem motivadas a participar das expressões externas do catolicismo popular, porque elas não retratam mais sua vida, seu modo de entender a realidade. Seus símbolos não são as procissões, as Folias, os Terno de Reis, as imagens. Preferem o encontro de oração, a concentração religiosa, o canto, a dança, a emoção, o milagre. É fácil reunir os jovens para um Dia de Louvor num Ginásio, com muito canto, movimento e pregação: é quase impossível motivá-los para uma procissão. Podem ser espectadores, mas não participantes.

A Igreja Católica, mestra em desafios históricos, não pode ignorar o Catolicismo popular enquanto ele significa manifestação pública e celebrativa da fé. Mas também não pode viver de saudade e querer conservar ou ressuscitar um mundo simbólico que tem seus dias contados. Até porque, se são populares, os símbolos de uma cultura são espontâneos. Os atos públicos da piedade popular não são peças de museu para a curiosidade turística. O essencial é a motivação para a fé pessoal em Cristo e o compromisso com a vida.

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