A LUZ DE BELÉM BRILHA EM JERUSALÉM

Ícone copta

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A ressurreição do Senhor traz para nós os símbolos e sensações de luz, fogo, calor, vida, sol, dia. Anula, na vida de fé, trevas, cinza, frio, morte, noite. A sepultura do Senhor é legalismo, frieza, cadáver, tradicionalismo, dogmatismo, triunfalismo. A ressurreição de Cristo é espontaneidade, acolhimento, vida, criatividade, contemplação, serviço. Mas, Jerusalém não é tudo. Existe somente por causa de Belém. O relâmpago que deixou o sepulcro vazio já tinha brilhado na noite do Natal, indicando aos pastores o caminho para o encontro com o Menino.

Belém e Jerusalém são geradores de uma energia divina que ilumina o cosmos, o mundo, o ser humano. E também balizam a vida dos discípulos do Homem de Nazaré: a simplicidade e a pobreza de uma criança, o amor que aceita a cruz e o dom da ressurreição.

A tradição teológica ocidental desloca muito o fiel da balança para a quaresma-cruz-sepultura-ressurreição, dando ao Natal mais poesia do que mística transformadora. O plano eterno de Deus, porém, é a encarnação: Deus assumiu a humanidade para que o homem alcance a divindade, Deus humanizou-se para a pessoa humana divinizar-se. A salvação do homem se realiza pela encarnação, que o torna filho no Filho, participante da vida divina. A transfiguração nossa é oferecida em Belém e, devido à queda dos primeiros pais, realizada em Jerusalém. A salvação do Natal uniu-se à redenção de Jerusalém.

Cada vez mais os homens e mulheres que amam a Igreja falam do grande inverno em que ela parece estar mergulhada. Um inverno que se apresenta como rejeição da criatividade, ausência de lances transformadores, apego a fórmulas trabalhadas mas vazias, amor pela emoção, pelas cerimônias, pelo carreirismo eclesiástico que nocauteia a profecia, a comodidade da repetição de fórmulas tradicionais e do saudosismo, a tentação de enquadrar a vida cristã no legalismo. Em outras palavras, tentar como solução aquilo que foi uma das causas da condenação de Jesus à morte: o legalismo e a sacerdotização do Templo.

É fácil e cômodo negar isso, mas as estatísticas falam a quem quiser lê-las: o aumento da indiferença religiosa, o secularismo, a debandada de católicos rumo a outras igrejas e movimentos religiosos, o assustador declínio da influência da ética e da moral cristãs na vida pessoal, política e cultural em populações nominalmente católicas. Para os grandes problemas humanos consultam-se os psicólogos e gurus, e não os pastores.

Estamos assistindo à inversão do êxodo: ao invés da Terra Prometida busca-se com muito entusiasmo o retorno ao Egito das cebolas e da fartura da carne, mesmo ao preço da escravidão.

No último consistório, João Paulo II exortou os cardeais a levarem a nave mística da Igreja para o novo milênio. A nave mística da Igreja: a santidade, a contemplação, o serviço, a cruz, a divinização da pessoa humana, a transformação das estruturas de pecado, o lance criativo e a missão.

O calor, a luz, o fogo, o dia, o sol da noite da Páscoa continuam a oferecer-se a nós como tarefa e possibilidade de vencer o inverno da vida cristã, de substituir o frio agasalhado pelo peito aberto, pela voz que anuncia: Cristo ressuscitou! Aleluia!

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