QUARESMA – A CAMINHO DE JERUSALÉM

Entrada Triunfal de Jesus em Jerusalém

Entrada Triunfal de Jesus em Jerusalém

Os judeus vivem seu tempo penitencial no Yom Kippur, os muçulmanos no jejum de Ramaddan e nós, cristãos, na grande tradição monoteísta, o vivemos na Quaresma.

Esses quarenta dias e quarenta noites que antecedem a celebração da Páscoa, nos recordam os 40 dias e 40 noites do dilúvio, os 40 anos do povo eleito no deserto, os 40 dias e 40 noites de Moisés no monte Sinai esperando as tábuas da Aliança, os 40 dias de jejum de Cristo antes de iniciar a vida pública, os 40 dias antes de Jesus ascender aos céus. Um número simbólico, o 40, que nos oferece um tempo especial: penitência, preparação, expectativa, vividas no deserto das tentações do poder, do ter e do aparecer. A Quaresma é nossa espera da ressurreição de Cristo e, nela, de nossa ressurreição.

A Quaresma oculta e revela uma palavra fundamental: VIDA. Jesus que nasce em Belém oculta a vida divina, Jesus sepultado em Jerusalém oculta a vida humana e divina. Ao terceiro dia, numa explosão de luz, surge para nós a vida em plenitude. Dali em diante, a vida humana é vida divina e a vida divina é vida humana. Um encontro maravilhoso entre o céu e a terra, entre o divino e o humano, operado pela encarnação do Filho de Deus.

Esse é o grande segredo cristão: acabar com as dicotomias, as separações: o que é nosso é de Deus, o que é de Deus também é nosso. Não há distinção entre sagrado e profano, entre tempo e eternidade, natural e sobrenatural: tudo é de Deus, tudo é nosso. Em Cristo, novo Adão, a criação restaura seu plano inicial de unificação.

A Quaresma, anualmente, indica o caminho pedagógico da existência cristã: estamos sempre deixando a Galiléia, atravessando a Samaria, a caminho de Jerusalém. Um aprendizado seguindo os passos do Senhor. Nosso grande desafio não é olhar nossos pecados, mas enfrentar positivamente nossa capacidade de aprender. Um cristão que passe a Quaresma lamentando seus pecados, faz muito pouco: ele se enriquece, isto sim, aprendendo a imitar seu Senhor. E deve estar consciente que, após atravessar a Samaria dos pagãos, não o espera imediatamente o triunfo, mas a cruz do Monte Calvário. Cruz redentora, Cruz gloriosa, símbolo perfeito do amor divino que tudo nos dá porque se dá a si mesmo.

A Campanha da Fraternidade, que desde 1964 a Igreja faz acompanhar a travessia quaresmal, lembra-nos o valor fundamental da fé cristã: “Vida sim, drogas não!”. O centro temático é a vida que, por si só, exclui a opção  pela droga. Devemos evitar o perigo de fazer uma Campanha moralizante, brandindo o tacape contra os traficantes, os usuários, os fumantes, os alcoólatras. Há muito a pregação ética deixou de ter efeito. O novo milênio quer anúncio positivo de valores, especialmente do valor da Vida. Vida sim, drogas não!

A vida está sendo cada vez mais banalizada: mortes, morticínios, acidentes, guerras, assaltos, revoltas com mortes, fome que mata, trânsito assassino, quase perderam a capacidade de gerar em nós indignação. Ouvimos, comentamos um pouco, e pronto. A vida humana tornou-se mais barata do que a de um animal de estimação ou em extinção. Um sinal muito duro de declínio civilizatório. E num país cristão, um sinal doloroso de uma fé que não conseguiu ainda gerar uma cultura de vida.

No meio disso tudo, a voz do Mestre: “Eu vim para que todos tenham vida” (Jo 10,10).

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