VINDE E VEDE – ELE ESTÁ NO MEIO DE NÓS

Ele está no meio de nós!

Ele está no meio de nós!

“Ele mostrou-me depois um rio de água da vida, brilhante como cristal, que jorrava do trono de Deus e do Cordeiro. No meio da praça da cidade e dos dois braços do rio, há uma árvore de vida que frutifica doze vezes. Cada mês ela dá seu fruto, e sua folhagem serve para a cura das nações. Não haverá mais maldição. O trono de Deus e do Cordeiro estará na cidade e seus servos lhe prestarão culto: verão sua face, e seu nome estará sobre suas frontes. Não haverá mais noite, ninguém mais precisará de luz da lâmpada nem da luz do sol, porque o Senhor Deus difundirá sobre eles a sua luz, e reinarão pelos séculos dos séculos”

(Apc 22,1-5).

Visão grandiosa da liturgia cristã, realização da profecia de Ezequiel, da “água que corria do lado direito do Templo, ao sul do altar… […] águas que banham as árvores saem do santuário. Seus frutos servirão de alimento e suas folhas serão remédio” (cf. Ez 47,1-12). O rio de água da vida jorra do próprio Senhor Deus e do Cordeiro: ele é o Templo e nele acontece o mistério. A nova liturgia, cristã, jorra de Deus e não de rituais bem feitos, nela não há magia: “quem beber desta água que eu lhe der, de seu seio brotarão rios de água viva, que jorra para a vida eterna” (Jo 4,14). O rio de água viva cura povos e nações de seus males, operando a reconciliação total com Deus, com o homem e com a criação. O Espírito de Cristo constrói a nova Jerusalém: “Esta terra devastada tornou-se como um jardim de Éden” (Ez 36,35). Termina a maldição original da proibição de se entrar no Paraíso (cf. Gn 3,22-24). Cada liturgia é já o ingresso na vida divina, mas não ainda o ingresso total.

Os sacramentos, manifestação de Deus pela Igreja

Através da liturgia, a Igreja manifesta ao mundo o conhecimento das infinitas riquezas de Deus (cf. Ef 3,10). A comunhão trinitária nos torna a todos “eucarísticos”, numa universal ação de graças. Em cada sacramento, a epíclese do Espírito Santo produz um fruto próprio para a edificação do Corpo de Cristo.

No Batismo, somos sepultados com Cristo e ressuscitamos com ele para a vida. O Espírito Santo é invocado sobre a água com a qual se realiza o batismo: no momento em que o batizando é mergulhado na água, através dela recebe o Espírito Santo e ouve a vós do Pai: “Tu és meu filho amado” (cf. Mt 3,17).

Na Confirmação, pela imposição das mãos se recebem os sete dons da sabedoria e inteligência, conselho e fortaleza, ciência e piedade e temor de Deus. O Batismo realizou a filiação divina e, pela unção do crisma, o batizado é inserido num só corpo, porque o Espírito que ungiu Cristo penetra integralmente – corpo, alma e espírito – o seguidor de Cristo, que se torna cristão. E o Espírito dado por Cristo passa a ser o artista que modelará no homem o santo.

Na Eucaristia, o Espírito Santo é invocado para que as oferendas sejam Corpo e Sangue do Senhor. Nela se realiza a comunhão com a Trindade, com a comunidade, o perdão dos pecados, pois é sustento e remédio para a vida cristã. Realiza o mistério da divinização do homem: Cristo-homem-pão no Espírito transforma o homem em Cristo e em pão para os irmãos. O sacramento do altar é o sacramento do irmão (S. João Crisóstomo).

Na Penitência: o rio da misericórdia se encontra com o abismo da miséria humana e gera uma força nova: o perdão que, pelo Espírito Santo, traz a conversão e a reconciliação. O Espírito penetra no coração do pecador, fá-lo abrir-se à compaixão do Pai e tudo é absolvido (cf. Mt 16,19).

Na Unção dos enfermos, o óleo do Espírito que penetra no corpo transforma a enfermidade em amor vivificante e é garantia de ressurreição (cf. visão dos ossos em Ez 37,1-14). Traz a libertação dos pecados, salvação e alívio nos sofrimentos.

Os sacramentos do serviço eclesial

No Matrimônio, acontece não só a bênção do casal – porque todo matrimônio é santo – mas se recebe a graça de o homem e a mulher serem envolvidos no amor entre Cristo e sua Igreja. O Espírito torna a família igreja “doméstica” e dá ao casal a graça de viver um amor sem divisões. O homem e a mulher são mergulhados nas profundezas do amor trinitário e estabelecem com ele uma aliança permanente, cujo sinal são as alianças.

Na Ordenação, invoca-se o Espírito Santo para o serviço diaconal, presbiteral e episcopal. O Espírito concede a alguns membros da Igreja a energia eclesial mais escondida e pobre, que é colocá-los a serviço das outras epícleses sacramentais (Jean Corbon). É uma das provas mais desconcertantes da fidelidade do Senhor que, apesar da fraqueza humana, jamais priva a Igreja de seu Espírito: “Seja Pedro que batiza, ou seja, Judas, é Cristo aquele que batiza” (S. Agostinho). Nestes pobres homens ordenados bispos, presbíteros e diáconos é Cristo que é servo de sua Igreja, pastor que dá a vida pelos seus. A ordenação não é glória, mas humilde serviço para que o Espírito continue na Igreja do Senhor.

Vinde e vede: ele está no meio de nós

Nada acontece sem o mistério da Palavra (comunicação de Deus com seus filhos) que leva ao ato de fé na Cruz do Senhor (de cujo lado aberto corre a água e o sangue) e que realiza o mistério da Liturgia: o céu desce à terra e a terra sobe ao céu. A ascensão de Cristo (Homem-Deus) é a ponte pela qual o Espírito Santo é enviado ao mundo pelo Pai, realizando o misterioso desígnio de divinizar o homem e a mulher.

Diante de tão grande mistério, só nos resta pedir a graça de obedecer às palavras do Apóstolo: “Não contristeis o Espírito Santo com o qual o Senhor vos marcou como com um sinete para o dia da libertação” (Ef 4,30).

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