DIA MUNDIAL DA PAZ – 2010

30/12/2009 por admin

A Paz é fruto da harmonia entre o Criador e as criaturas

PAX Aeterna - G. Manzù

Se quiseres cultivar a paz, preserva a criação

O Papa Bento XVI escolheu para este 43º Dia Mundial da Paz o atualíssimo tema da ecologia: “Se quiseres cultivar a paz, preserva a criação”. A Sagrada Escritura é aberta com o “No princípio Deus criou o céu e a terra”, donde a criação ser o princípio e fundamento de todas as obras divinas. Preservá-la, hoje, é essencial para a convivência pacífica dos povos. Talvez os perigos que derivam do desleixo, se não mesmo do abuso, em relação à terra e aos bens naturais que Deus nos concedeu são tão ou mais perigosos que ao atos terroristas, as guerras e violações dos direitos humanos. Não se pode separar o desenvolvimento humano integral dos deveres que nascem da relação do homem com o ambiente natural.

Uma preocupação de muitos anos

O tema não é novo, na Igreja. Há vinte anos, ao dedicar a Mensagem do Dia Mundial da Paz ao tema Paz com Deus criador, paz com toda a criação, o Papa João Paulo II chamava a atenção para a relação que nós, enquanto criaturas de Deus temos com o universo que nos circunda: “Observa-se nos nossos dias – escrevia ele – uma consciência crescente de que a paz mundial está ameaçada (…) também pela falta do respeito devido à natureza”. Esta consciência ecológica “não deve ser reprimida mas antes favorecida, de maneira que se desenvolva e vá amadurecendo até encontrar expressão adequada em programas e iniciativas concretas”. E em 1971, Paulo VI, na Centesimus Annus, sublinhou que, “por motivo de uma exploração inconsiderada da natureza, [o homem] começa a correr o risco de a destruir e de vir a ser, também ele, vítima dessa degradação”; “não só o ambiente material se torna uma ameaça permanente – poluições e lixo, novas doenças, poder destruidor absoluto – mas é o próprio contexto humano que o homem não consegue dominar, criando assim para o dia de amanhã um ambiente global que se lhe poderá tornar insuportável”.

Na sua Mensagem, Bento XV I se refere aos “prófugos ambientais”, às migrações forçadas de milhões de pessoas causadas pelas alterações climáticas, a desertificação, o deterioramento e a perda de produtividade de vastas áreas agrícolas, a poluição dos rios e dos lençóis de água, a perda da biodiversidade, o aumento de calamidades naturais, o desflorestamento das áreas equatoriais e tropicais? Surgirão conflitos relacionados ao acesso aos recursos naturais.

Está em jogo, na crise ecológica, o próprio conceito de desenvolvimento e a visão do homem e das suas relações com os seus semelhantes e com a criação que não se pode enfrentar sem uma revisão profunda e clarividente do modelo de desenvolvimento e o empenho em sanar a crise cultural e moral do homem, cujos sintomas há muito tempo que se manifestam por toda a parte. As situações de crise que se está atravessando, de caráter econômico, alimentar, ambiental ou social, no fundo são também crises morais e estão todas interligadas.

A missão do homem e da mulher: cultivar e guardar a criação

No livro do Gênesis (1,28), Deus colocou o homem e a mulher como administradores, em seu nome, da criação. A harmonia descrita na Sagrada Escritura entre o Criador, a humanidade e a criação foi quebrada pelo pecado de Adão e Eva, do homem e da mulher, que pretenderam ocupar o lugar de Deus, recusando reconhecer-se como suas criaturas. O ser humano deixou-se dominar pelo egoísmo, perdendo o sentido do mandato de Deus e, no relacionamento com a criação, comportou-se como explorador, pretendendo exercer um domínio absoluto sobre ela. A missão que Deus lhe confiara era outra: “cultivar e guardar” (cf. Gn 2,15). Tudo o que existe pertence a Deus, que o confiou aos homens, mas não à sua arbitrária disposição.

Alerta o Papa que os projetos políticos e econômicos têm conseqüência moral e devem levar em conta a vida das gerações futuras: “Herdeiros das gerações passadas e beneficiários do trabalho dos nossos contemporâneos, temos obrigações para com todos, e não podemos desinteressar-nos dos que virão depois de nós aumentar o círculo da família humana. A solidariedade universal é para nós não só um fato e um benefício, mas também um dever”. O uso dos recursos naturais deverá verificar-se em condições tais que as vantagens imediatas não comportem conseqüências negativas para os seres vivos, humanos e não humanos, presentes e vindouros. “A crise ecológica manifesta a urgência de uma solidariedade que se projete no espaço e no tempo”. Os países industrializados devem reconhecer sua culpa na crise ecológica atual e não querer impedir aos países pobres o acesso a uma vida digna.

Conversão no estilo de vida: a sobriedade

E aqui Bento XVI toca na ferida evitada pelos países ricos e por todos os consumidores dos bens da criação: “as sociedades tecnologicamente avançadas estejam dispostas a favorecer comportamentos caracterizados pela sobriedade, diminuindo as próprias necessidades de energia e melhorando as condições da sua utilização”. Existe a ilusão de querer tudo resolver sem mexer com a causa, o consumismo desenfreado e desperdiçador. Sem se sair da lógica do mero consumo não se poderá promover formas de produção agrícola e industrial que respeitem a ordem da criação e satisfaçam as necessidades de todos.

Segue a Mensagem: “É cada vez mais claro que o tema da degradação ambiental põe em questão os comportamentos de cada um de nós, os estilos de vida e os modelos de consumo e de produção hoje dominantes, muitas vezes insustentáveis do ponto de vista social, ambiental e até econômico. Torna-se indispensável uma real mudança de mentalidade que induza a todos a adotarem novos estilos de vida, ‘nos quais a busca do verdadeiro, do belo e do bom e a comunhão com os outros homens, em ordem ao crescimento comum, sejam os elementos que determinam as opções do consumo, da poupança e do investimento’”.

Cristo ressuscitado os novos céus e nova terra

A Igreja tem a sua parte de responsabilidade pela criação e sente que a deve exercer também em âmbito público, para defender a terra, a água e o ar, dádivas feitas por Deus Criador a todos, e antes de tudo para proteger o homem contra o perigo da destruição de si mesmo. Os deveres para com o ambiente derivam dos deveres para com a pessoa considerada em si mesma e no seu relacionamento com os outros. Por isso, faz parte da catequese cristã a educação para uma responsabilidade ecológica.

Conclui o Papa: “Se quiseres cultivar a paz, preserva a criação”. A busca da paz por parte de todos os homens de boa vontade será, sem dúvida alguma, facilitada pelo reconhecimento comum da relação indivisível que existe entre Deus, os seres humanos e a criação inteira. Os cristãos, iluminados pela Revelação divina e seguindo a Tradição da Igreja, prestam a sua própria contribuição. Consideram o cosmos e as suas maravilhas à luz da obra criadora do Pai e redentora de Cristo, que, pela sua morte e ressurreição, reconciliou com Deus ‘todas as criaturas, na terra e nos céus’ (Cl 1, 20).

Cristo crucificado e ressuscitado concedeu à humanidade o dom do seu Espírito santificador, que guia o caminho da história à espera daquele dia em que, com o regresso glorioso do Senhor, serão inaugurados ‘novos céus e uma nova terra’ (2 Pd 3, 13), onde habitarão a justiça e a paz para sempre”.

JOÃO PAULO II, VENERÁVEL SERVO DE DEUS

27/12/2009 por admin

Bento XVI autorizou no dia 19 de dezembro de 2009 a publicação dos decretos que reconhecem as virtudes heróicas dos papas João Paulo II e Pio XII, que deste modo passam a ser reconhecidos como “veneráveis” pela Igreja. Agora faz-se necessária a aprovação de um milagre para a beatificação. Esse primeiro passo é fundamental, pois significa que o Venerável viveu em grau heróico as virtudes cristãs, especialmente da fé, esperança e caridade. Nesse primeiro momento convida-se o povo de Deus a contemplar esses irmãos, os Papas Pio XII (1939-1958) e João Paulo II (1978-1995) como modelos de vida cristã, de discipulado cristão.

Na Carta Apostólica Novo Millennio Ineunte de 6 de janeiro de 2001, o Papa João Paulo II nos convidava a contemplar a face de Cristo na profundidade do mistério que os Evangelhos nos revelam, de modo especial a face de Cristo Crucificado e Abandonado, no seu grito angustiante e na sua glória sem fim (nn. 16-28). Um programa para a Igreja e para cada cristão neste século que então iniciava a balbuciar. Sua experiência pessoal, na dor e na doença, demonstrou a coerência entre suas palavras e sua vida carregando a Cruz com o Senhor.

Na Sexta-feira santa comovia ver a figura dolorosa do Papa segurando e contemplando a Cruz do Senhor durante a Via Sacra no Coliseu. Dois amigos no abandono total de amor, Cristo por livre decisão por nós, o Papa por livre aceitação por si e pela Igreja. Cristo crucificado e abandonado, o Papa crucificado, mas recebendo forças do seu Senhor e Mestre. Cristo, sentado na Cruz, seu glorioso trono de amor, o Papa preso a uma cadeira de rodas, a face devastada pela dor, mas sentindo-se revigorado por aquele cujo nome gritou na Praça de São Pedro, em outubro de 1978: “Povos do mundo, não tenhais medo de Cristo!”. E este polonês escolhido para o Trono de Pedro deu provas de não ter medo de Cristo e de sua Cruz: como catequista anunciou-o nas audiências semanais das quartas-feiras; como pregador, anunciou-o no Ângelus do meio-dia de domingo; como cruzado da fé e da paz, anunciou-o em suas 104 viagens apostólicas. Anunciou-o nos numerosos documentos, sínodos, cartas, encíclicas, audiências.

Mas, anunciou-o de modo mais concreto com sua vida. O Papa doente de 2005 não era o jovem Papa que em 1978 atravessava a Praça de São Pedro conclamando o mundo a não ter medo de Cristo, a abrir-lhe todas as portas. O Papa prisioneiro da doença foi do mesmo modo o evangelizador de multidões.

Karol Wojtylla não era um executivo de empresa, o gerente do Estado do Vaticano: a Igreja é mistério, Corpo de Cristo e Povo de Deus. Transcende infinitamente a dimensão burocrática à qual queremos reduzi-la e à qual muitos burocratas eclesiásticos tentam prazerosamente resumi-la. Sua vida era também seu ministério petrino.

Na doença do Papa o Espírito que falou às Igrejas nos revelou uma outra face do pontificado romano: a paternidade espiritual, a paternidade da cruz oferecida pela Igreja e pelo mundo, tão ou mais eficaz do que a inteligência humana do governo.

Papa João Paulo II com a Cruz

João Paulo II alimentou um prazer imenso de ver o povo e de ser por ele visto. Também na doença queria ver o rebanho aflito e por ele ser contemplado. João Paulo II, testemunha qualificada das dores humanas de todos os matizes e credos, das hecatombes do nazismo e do comunismo, que fez suas as dores do ser humano onde quer que se encontrasse, que sentiu na carne o que é ser atravessado por projéteis do terror, que sente a inexorabilidade do morbo incurável, revela sua face solidária e paterna com todos os sofredores do mundo.

Foi ele que insistiu na dimensão do viver a descoberta do Jesus Abandonado, como experiência de vida humana e divina e, portanto, do fazer-se um conosco e com o Pai, com todas as conseqüências: o esvaziamento de cada um de nós para o dom total de si, para ser um no amor.

Uma dimensão de sua vida talvez seja o maior legado que transmitiu à Igreja: o perdão, a penitência pelos pecados de cada cristão e de toda a Igreja. O centro as celebrações do 3º Milênio foi a Liturgia do Perdão na Basílica de São Pedro, em março de 2000: assumindo o peso de dois mil anos de história da Igreja Católica, pediu perdão pelos pecados da Inquisição, do colonialismo, da intransigência, do desprezo pelas minorias, da aliança com o poder, do uso do poder. O Papa perdoou a todos os que perseguiram os cristãos, e pediu perdão em nome de todos os cristãos.

Não foi fácil a um homem que carregava nas costas a tradição de glórias e lutas de 20 séculos, de heroísmo e santidade, proclamar “Nós pecamos!”. Ele realizou esse gesto contemplando o Cristo crucificado, o Cristo que deu a vida por todos, nunca matando.

Felizes nós a quem foi dada a graça de conhecê-lo, ouvi-lo. E agora, é-nos dada a graça de chamá-lo de Venerável João Paulo II.

Somente em Jesus seremos totalmente curados

27/12/2009 por admin

Não houve, acaso, quem voltasse para dar glória a Deus
senão este estrangeiro?” (Lc 17,18).

Nos tempos de Cristo, a lepra era maldição completa. O leproso era expulso da comunidade, se refugiava no mato ou nos cemitérios. Para os outros, qualquer aproximação seria perigosa. Dez leprosos gritam a Jesus, clamando por socorro, por piedade. Ele, que dera vista aos cegos, fala aos mudos, multiplicara pães, poderia fazer alguma coisa por eles. E Jesus fez: sua pele tornar‑se limpa, a lepra desaparecera.

Como é normal acontecer, saúde pedida, saúde ganha, vamos curtir a vida! Nada mais. Nove dos dez curados fizeram isso. Foram recuperar o tempo perdido, gozar a vida. Nem um obrigado. Um deles não se deu por satisfeito: não lhe bastava a cura física. Seu desejo de viver ultrapassava a necessidade da saúde. Dirige‑se ao Mestre.

A declaração que Jesus lhe faz, revela o que lhe ia em coração: “Levanta‑te e vai; a tua fé te salvou!” (Lc 17,19). Aquele leproso buscava uma cura total: física e espiritual. Queria vida em plenitude. Sua lepra não era apenas física: toda a sua pessoa estava tomada pelo mal. E Jesus o liberta. Os outros nove foram curados, mas permaneceram doentes, pois não tinham fé, ou melhor, não sentiam a necessidade da fé. Procuraram um curandeiro, e não um Salvador.

Nossa vida só será plena se tivermos esta preocupação com a saúde plena, com estarmos de bem conosco, com os outros e com Deus. Um cristão satisfeito com o que é repete a atitude dos nove leprosos: está com saúde, cumpre suas obrigações, como o fizeram os nove indo mostrar‑se aos sacerdotes, e basta! Está em paz consigo, porque seu ideal da vida é pequeno. Deus é seu grande pronto socorro: na aflição, logo gritará pelo poder divino. Mas, se contenta com pedir saúde e bem‑estar. Para muita gente, a fé se confunde com um grande hospital, aonde se dirigir nos momentos de dificuldade.

Apenas um leproso tinha em si esta inquietação: não basta ser curado; é necessário buscar a salvação plena. Procurou‑a, e encontrou no Cristo.

É sempre bom que nos examinemos sobre o que desejamos com nossa vida de fé, com nossas práticas religiosas, com nossa fidelidade à lei. Queremos a pequena paz que vem da ausência de problemas, ou a grande paz que vem da comunhão com Deus? Jesus é o nosso curandeiro, ou nosso Salvador? Nossa ambição se resume ao bem‑estar, ou nos inquietamos e vamos além, querendo de Deus uma vida plena?

Se todos os que se preocupam com saúde, tivessem a mesma preocupação com a salvação, o mundo seria melhor, porque a fé se transformaria em vida.

A verdadeira gratidão, ação de graças que podemos apresentar ao Senhor é querer que seja Ele nosso Salvador. Ele veio para tirar o pecado do mundo, libertar-nos do domínio da morte. Ele é a Vida em plenitude oferecida a cada um que o procura.

O NATAL DO MENINO, PRIMEIRA PÁSCOA

15/12/2009 por admin

Natividade do Senhor - Andrej Rublev - 1405

Lucas é o evangelista que acrescenta dados históricos a seu relato da anunciação e nascimento de João Batista e Jesus (cf. Lc 1-2). E afirma que muito pesquisou para narrar tudo com fidelidade. Mesmo tendo escrito seu Evangelho após a ressurreição do Senhor, portanto sob a Luz da glória, sua história é profundamente humana: suas páginas são povoadas de mulheres arrependidas, pecadores penitentes, doentes e famintos que se aproximam de Jesus, Deus Pai esculpido nas parábolas do Filho pródigo, da Ovelha perdida, da Moeda extraviada (Lc 15). E é pelo fato de ter pesquisado que não poderia chegar a outra conclusão que o Evangelho é uma história de compaixão! Para Lucas, tudo o que é divino é tão humano, que só nos resta, a exemplo de Maria, guardar e meditar tudo no silêncio do coração, lá onde não se encontram explicações, mas conduzem à adoração.

Como a noite do Natal. Uma noite em Belém.

Maria e José vão a uma gruta, as hospedarias estavam lotadas na pequenina Belém. O Menino tem necessidade de nascer numa gruta escura, de ser depositado numa manjedoura, pois a gruta é a imagem do mundo/noite porque separado de Deus e a manjedoura é a imagem da urna mortuária onde anos depois o Homem de Nazaré vai ser sepultado para vencer a morte ressuscitando. A noite de Natal já é uma Páscoa, a pequena Páscoa que à grande Páscoa antecede.

Recordada do anúncio do Anjo, Maria contempla o infinito e mergulha no mistério desse Menino gerado eternamente de um Pai sem mãe e agora gerado humanamente de uma Mãe sem pai. Seus olhos vão do Menino a José e se refugiam na noite silenciosa, a noite que preanuncia a explosão luminosa da Grande Páscoa.

José contempla Maria, tomado pela dúvida: como pode ter nascido essa Criança sem ter parte comigo? É a tentação que penetra toda a história: somente achamos verdade o que não foge aos nossos olhos ou aos limites de nossa razão, negando local à novidade continuamente recriada por Deus. Maria o contempla com profunda e infinita compaixão. José, porém, é vencido pelo encanto do amor e prorrompe num Aleluia sem fim, pois aceita participar do mistério que desliza ante seus olhos.

Nessa mesma noite pobres pastores de Belém apascentam ovelhas, livrando-as de lobos ferozes. Escutam vozes de anjos anunciando alegria, notícia nunca escutada. Incontroláveis, os anjos explodem num grande hino, pois é possível a paz na terra com a glória divina penetrando a criação. Os pastores dirigem-se à gruta que lhes é indicada e contemplam a pobreza total: Maria aquecendo o recém-nascido, José os protegendo, animais dormindo. Narram o que escutaram e nada perguntam, pois estão abertos ao Mistério. A Luz penetra a gruta, rompe-se o domínio das trevas, o céu e a terra se reúnem, a eternidade e o tempo se abraçam. O Menino enfaixado é o Homem que desata as faixas e transforma o túmulo da Morte em templo da Vida.

A Luz torna o mistério fascinante, mas o Mistério iluminado queima os olhos de quem se atrever a profaná-lo querendo dominá-lo com olhos carnais. Somente a Transfiguração dará ao ser humano olhos capazes de contemplar o Mistério, num longo caminho de transfiguração a ser percorrido. No meio das miríades de estrelas que brilham nessa noite luminosa, Maria é a Estrela que anuncia o Sol que nos vem visitar.

Todo nascimento é oportunidade para uma troca de presentes. Em primeiro lugar, o Pai eterno nos dá o Filho eterno como criança frágil de quem ninguém precisa ter medo. Seguindo a Liturgia de São João Crisóstomo, e nós, que presentes oferecer ao Menino como sinal de gratidão?

Os anjos oferecem sua gratidão, os céus a estrela, os Magos seus dons, os pastores sua admiração, a terra oferece a gruta, o deserto a manjedoura. Nós, porém, oferecemos a Deus uma Mãe Virgem. No Filho que gerou nossa natureza humana também é pacificada e virginizada.

É Natal. Glória a Deus no mais alto dos céus e paz na terra!

O AMOR QUE SUPERA A DOR

10/12/2009 por admin

O grito por socorro - Franz von Stuck

“Jesus, Filho de Davi, tem compaixão de mim!”

Jesus, quando subia a Jerusalém, estava consciente de que lá aconteceria sua Paixão, Morte e Ressurreição. Ele sobe a Jerusalém com decisão: sua missão redentora, iniciada em Belém, seria completada pela humilhação total. Para comprovar seu amor pelo mundo, suportaria a prisão, a tortura, a condenação. Seu amor ultrapassaria o medo da morte.

No meio do caminho, um cego, de Jericó, grita por socorro: “Jesus, Filho de Davi, tem compaixão de mim!” (Lc 18,38). Gritava tão forte, que mandaram‑no calar a boca. Jesus sai em sua defesa, e declara: “Vê de novo; tua te salvou”. O cego recuperou a luz dos olhos e a luz da fé: estava diante da Luz do mundo.

Ultrapassa nossos limites de compreensão este gesto amoroso de Jesus. Ele, que caminhava para a morte de cruz, lembrou‑se de um cego. Poderia, e com razão, ter dito: “Você é cego, é verdade, mas está vivo. Eu caminho sabendo de minha morte. Você até que é felizardo!” Seria uma reação humana. Mas, em Jesus, o amor é mais forte que a dor. O sofrimento do outro é mais importante que a sua angústia, prevendo a condenação. Quis mostrar que a dor do próximo deve preocupar‑nos mais do que a nossa dor. O amor traz o esquecimento de nossos problemas pessoais, para que nos coloquemos a serviço de alguém que também sofre, como nós. Como a mãe amorosa, que esconde intensas dores para curar a dorzinha de dente do filho.

Temos dificuldade de sentir o sofrimento dos outros, penetrar um coração angustiado. Carentes, achamos que nossos problemas são sempre maiores, necessitam de mais atenção. Diante de alguém carente, nos mostramos mais carentes ainda. Quando alguém nos conta um problema, logo o interrompemos para dizer‑lhe que o nosso é maior, que se conforme, pois nem sabe o que é sofrer. Há pessoas incapazes de escutar a dor alheia sem logo fazer comparações com sua dor pessoal. “Você está com o filho doente? Imagine eu, que estou com a mãe no fundo da cama…”. Então, este momento que poderia ser rico de solidariedade, de compaixão, se transforma num encontro estéril: “Você sofre, eu sofro, fique cada um na sua!”

Em nosso sofrimento pessoal, é difícil penetrarmos no coração de quem sofre. Achamos que nossas angústias são as maiores do mundo, nossas dores as mais insuportáveis de todas as dores. Há gente que, mesmo num hospital, visitando um doente traspassado pela dor e pela solidão, é capaz de passar o tempo se lamentando. Ao invés de confortar, busca um conforto egoísta. É porque o amor seu é mais fraco que a dor.

A caminhada de Jesus para Jerusalém, a sua certeza do sofrimento cruel e injusto, mesmo assim estando aberto aos sofredores que o procuravam, é ensinamento para o cristão: diante do irmão que sofre, silencie nosso sofrimento e fale mais alto nosso amor por ele.

Em muitas horas temos que nos calar, para que o lamento do outro seja substituído pelas nossas palavras de consolo. E então teremos a grata surpresa de ver que nossa dor é aliviada quando aliviamos a de nosso próximo.